Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > CAIXA DE PANDORA

Mesmo se errar, a imprensa é necessária

Por Luiz Carlos Santos Lopes em 08/12/2009 na edição 567

A imprensa não deve se preocupar com maledicências, venham de onde vierem. A ela cabe cumprir o seu papel – fiscalizar, investigar, apurar os fatos para noticiar os acontecimentos com isenção e segurança, sejam eles agradáveis ou não aos poderosos de plantão. Chamar a imprensa de ‘golpista’ é um recurso mesquinho daqueles que pretendem silenciá-la para que a podridão continue empesteando a esfera política brasileira. Não vão conseguir. Pelo menos, enquanto o Brasil for um Estado Democrático de Direito. Só quem viveu os dias amargos do regime militar sabe o que significa a falta de uma imprensa livre de amarras.

Para quem não se lembra, ou para quem não viveu aqueles tempos, o primeiro passo dos generais quando depuseram João Goulart da presidência da República foi calar a imprensa. Sob rigorosa censura, a mídia era proibida de publicar o que se passava nos gabinetes dos palácios e nos porões sombrios das casernas. Os militares só permitiam veiculações de notícias favoráveis ao regime, enquanto às escondidas degradavam o orgulho do povo brasileiro com torturas, assassinatos, fechamento do Congresso Nacional, censuras a produções artísticas, mordaças ao Poder Judiciário, cassação dos direitos políticos, sem esquecer uma geração de estadistas eliminada, facilitando o compadrio e o surgimento dos negocistas – ainda hoje encastelados no poder.

Ouço com muita preocupação as críticas recorrentes do presidente Luis Inácio Lula da Silva aos meios de comunicação. Ele, e grande parte da chamada ‘esquerda’, não se cansam de acusar a mídia de ‘golpista’, e outras adjetivações, chegando ao paroxismo de dizer que à atividade jornalística não cabe fiscalizar os atos do governo, e sim, publicar notícias. Só isso! Publicar notícias – desde que elas lhes sejam favoráveis. Por essa visão distorcida, a imprensa errou ao fiscalizar, apurar e depois publicar os nomes dos envolvidas nos atos que mancharam a memória nacional, conhecidos como mensalão, dólares na cueca, e tantas outras falcatruas patrocinadas por algumas pessoas inescrupulosas ligadas ao Partido dos Trabalhadores e ao Palácio do Planalto – às quais o presidente se referiu como ‘aloprados’.

‘Um bem incomparável’

Graças à imprensa, o Brasil assiste agora a um caso redivivo dos escândalos de outrora. Para começar, envolve o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM). Tem até dólares na cueca, nas meias, e sabe-se lá por onde mais. A diferença é que o ‘mensalão’ de agora é patrocinado por partidos de oposição ao governo Lula. Como diz o ex-secretário de Relações Institucionais do Distrito Federal, Durval Barbosa à edição de 1/12/2009 da Folha de S.Paulo, o PSDB também faz parte do esquema de caixa dois atribuído ao governador Arruda. De acordo com Barbosa, quem representou os tucanos foi o presidente do partido em Brasília, Márcio Machado, secretário de Obras do governador.

Quando os meios de comunicação repercutiram os escândalos em que estavam envolvidos o governo Lula e o PT, foram chamados de ‘imprensa golpista’. E agora? O que dizem os esquerdistas sobre a atuação da mídia em denunciar o ‘mensalão’ do Democratas? Parafraseando Aloysio de Carvalho (1866-1942), pseudônimo Lulu Parola, a imprensa acerta quando apura com rigor e isenção os fatos para depois publicá-los. Acerta também quando se aproxima da verdade, e mais ainda quando se afasta das paixões ideológicas. Ela erra, porém, quando estampa manchetes desatreladas da realidade para destruir reputações, e quando submete as questões éticas aos interesses econômicos e políticos dos poderosos do momento. Na opinião de Aloysio de Carvalho a imprensa ‘é um bem incomparável, sempre que acerta, e, até mesmo quando erra, é um mal necessário’.

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Jornalista, Salvador, BA

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