Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > MORTE EM TEMPO REAL

Mico ou espetáculo macabro?

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 09/01/2007 na edição 415

O jornal do virgula.com está a fazer uma pesquisa com o seguinte tema: Quem vai dar a primeira bola fora em 2007?

É claro que o ano apenas começou, que inúmeras e grotescas bolas foras ocorrerão até as 23h59 de 31/12/2007. Além disto, as previsões quase sempre não se confirmam e, mesmo quando se confirmam, as controvérsias são tremendas porque o que uns consideram uma ‘bola fora’ outros julgam um ‘gol de placa’. Mesmo as previsões auto-confirmatórias, ou seja, aquelas que se realizam justamente porque ao serem enunciadas desencadeiam os eventos que culminarão na concretização da previsão, não passam de uma artimanha sócio-político (ou apenas lingüística). Portanto, não falarei do futuro. Falarei do passado.

O ano já começou e a maior ‘bola fora’ de 2007 acabou de ocorrer. Sem dúvida alguma, foi a ampla difusão do grotesco vídeo da execução do Saddam Hussein.

Por mais que ele tenha sido um ditador brutal, não podemos esquecer os princípios de nossa própria civilização. Nós, ocidentais, acreditamos que somos mais éticos e humanitários que os outros povos porque o cristianismo proporciona um maior respeito pela vida, difunde a piedade pelo sofrimento e o desprezo pela glória militar, política e intelectual. Gostamos de dizer que nossos sistemas criminais são mais éticos porque as penas não passam das pessoas dos criminosos, não são corporais e asseguram aos condenados o respeito pela dignidade humana.

E os que incentivam o criminoso?

Quando divulgou ampla e espalhafatosamente o enforcamento de Saddam Hussein, a mídia ocidental rebaixou-se. Ignorou cinicamente os valores que ela mesma procura difundir. Afinal, no momento de sua execução, Saddam não era mais o ditador sanguinário, arrogante, que desafiava o ocidente e aterrorizava parte de sua própria população. Ele era apenas um ser humano indefeso nas garras de seus juizes e carrascos. Naquele exato momento, que mais poderia fazer senão rezar a seu Deus e seguir para o cadafalso?

Além de se esquecer dos valores ocidentais, a mídia obliterou parte de sua própria história. Aquele homem ali no cadafalso serviu muito bem aos interesses dos regimes ocidentais quando da guerra Iraque/Irã. Quando o Ocidente temia a internacionalização da revolução islâmica do aiatolá Khomeini, Saddam Hussein era o queridinho da mídia (especialmente da mídia dos Estados Unidos). Nenhum dos governantes que o incentivou na década de 1980 estava a seu lado no cadafalso, prestes a ser executado friamente. Nenhum daqueles jornalistas que o elogiavam naquela época, que diziam abertamente que o seu Iraque era um baluarte ocidentalizado contra a barbárie e que o aiatolá era insano, tiveram seus pescoços quebrados no baque surdo da forca ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo. Mas, sob a ótica do direito, são criminosos os que praticam os crimes e aqueles que incentivam o criminoso.

Um linchamento antiético e grotesco

Antes de morrer, Saddam Hussein já havia amargado a derrota militar, a destruição de seu regime e de suas estátuas, a perda da fortuna e de dois filhos. Todo seu poder e capacidade de prejudicar os iraquianos (e eventualmente outros povos) foram neutralizados no momento da sua prisão. A imagem do ditador desorientado, magro, barbudo, cheio de piolhos, chocou-nos a todos. Certamente deve ter chocado ainda mais ele mesmo. A mídia não precisava humilhar mais Saddam Hussein, mostrando sua execução. Mesmo assim, humilhou-o. Não só o humilhou, como se humilhou a si mesma, ao demonstrar toda sua vocação para a barbárie, sua predileção pelo espetáculo (mesmo o mais macabro).

A mídia ocidental deu a Saddam Hussein um tratamento mais indigno do que ele mesmo deu aos seus adversários. Ao prender e executar publicamente seus inimigos, ele demonstrava o quanto os temia e pretendia assegurar-se no poder pelo terror. Que terror Saddam nos provocava no momento em que foi executado? Nenhum! Por tudo isto, o linchamento público antiético, desumano e grotesco a que aquele filho de Alá foi submetido pelas TVs e provedores de internet ocidentais merece entrar para a história como o maior mico de 2007.

******

Advogado, Osasco, SP

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem