Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > OS ESPELHOS, O HORROR

Mídia à beira de um ataque de nervos

Por Alberto Dines em 19/01/2010 na edição 573

A mídia brasileira está sendo vítima de um surto da síndrome do pânico: está com horror ao espelho. Berra e esperneia quando alguém menciona a organização de conferências ou debates públicos sobre meios de comunicação, imprensa, jornalismo. Apavora-se ao menor sinal de controvérsias a seu respeito, por mais úteis ou inócuas que sejam. Parece ter esquecido que o direito de ser informado é um dos direitos inalienáveis do cidadão contemporâneo. O Estado Democrático de Direito garante a liberdade de expressão e o acesso universal à informação.


A instituição criada para impedir unanimidades, o poder instituído para promover o pluralismo, o bastião do Estado Democrático de Direito, agora se sobressalta e entra em transe quando pressente outros holofotes tentando focalizá-lo.


Diagnóstico 1: modéstia. Diagnóstico 2: narcisismo. Diagnóstico 3: onipotência. Diagnóstico 4: hipocrisia.


Nada impositivo


O primeiro episódio ocorreu no início de dezembro, antes da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom): o grosso das corporações empresariais de mídia desistiu de participar dos debates, compareceram apenas duas. As únicas que ficaram bem na fita. A Confecom chegou ao fim, produziu um calhamaço de propostas, a maioria inócuas, e os ausentes nem puderam cantar vitória porque se escafederam antes das luzes se apagarem (ver, neste OI, ‘Lições de manipulação‘ e ‘O misterioso e suspeito desaparecimento do Conselho de Comunicação Social‘).


Menos de um mês depois, final de dezembro, novo faniquito: o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). A mídia inicialmente parecia sensível aos apelos das vítimas, parentes ou entidades em defesa dos direitos humanos para reabrir as investigações sobre a repressão política durante o regime militar. Então aparece a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e começa a urrar como aquelas senhoras que pressentem uma barata no quarto escuro.


A mídia individualmente e a ANJ como corporação tiveram meses para estudar o 3º PNDH, esta é a sua função em nome da sociedade. Só se lembraram de examinar o documento quando o debate sobre tortura já estava aceso e alguém sugeriu abrandar o confronto e mudar o enfoque: que tal discutir a mídia? Então a mídia deu marcha a ré e entrou numa briga que não era sua porque no programa figurava a sugestão para a criação de um ranking das empresas de mídia (sobretudo mídia eletrônica) que respeitam os direitos do seu público e não lhes impinge baixarias. Convém lembrar que o PNDH é um programa, coleção de propostas, nada tem de mandatório ou impositivo.


O ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, revoltou-se, caiu de pau no seu jornal (ver ‘Ombudsman critica omissão do jornal‘). Acontece que a Folha, por rodízio, tornou-se a mais estridente defensora das posições da ANJ porque a sua presidente é uma das superintendentes do jornal.


Símbolos religiosos


É antiga a idéia de incluir a cruzada contra a baixaria televisiva nas iniciativas em defesa dos direitos humanos. Já em 1999, no primeiro mandato de FHC, o então Secretário Nacional de Direitos Humanos, José Gregori, tentou enquadrar os canais de TV que recusavam a classificação da programação por faixa etária (ver, neste Observatório, ‘Os fanáticos ensandecidos‘). Então, por que tanto chilique?


O Estado de S.Paulo chegou a publicar uma entrevista com o professor Paulo Sérgio Pinheiro, consultor das Nações Unidas para questões de direitos humanos, na qual ele afirmava categoricamente que o 3º PNDH era herdeiro dos dois anteriores (produzidos nos mandatos de FHC) e que sua abrangência enquadrava-se nas recomendações e paradigmas internacionais.


A CNBB, campeã da luta contra a tortura ainda nos anos de chumbo, esqueceu o seu glorioso passado e pôs-se a berrar contra outras sugestões do 3º PNDH: liberar as restrições contra o aborto, permitir a união civil de pessoas do mesmo sexo e proibir a utilização de símbolos religiosos em instalações públicas. Mesmo sabendo que nada disso poderia ser implementado sem os devidos trâmites legislativos, a CNBB e a ANJ insistiram na histeria.


E ficaram todos muito felizes quando o salomônico presidente Lula mandou copidescar o texto do PNDH por ele assinado. Não se fala mais em direitos humanos nos próximos doze meses. Engano: a luta pelos direitos humanos não tem dono, está definitivamente incluída na pauta dos debates nacionais. Tortura não é coisa do passado, é do presente.


É melhor liberar o aborto do que encontrar diariamente nos lixões recém-nascidos abandonados por mães solteiras. A exibição de símbolos religiosos em repartições do Estado afronta aqueles que acreditam que o Estado é garantidor da isonomia cidadã, da democracia e da tolerância.


Causas e terapias


A síndrome do pânico voltou a manifestar-se intensamente no último fim de semana – e não por causa da catástrofe do Haiti –, quando o Estadão descobriu que em março começará uma nova conferência nacional, desta vez para discutir cultura. Deus nos acuda, horror. Cultura? Chamem o Goering! Na pauta menciona-se a necessidade de promover a regionalização da produção televisiva e aparece a expressão maldita ‘monopólio de comunicação’.


Tremendo de medo, lívida, cheirando seus sais, Madame Mídia convocou o seu zorro preferido: o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ, ex-ministro das Comunicações do atual governo, o mesmo que pediu a impugnação integral da Lei de Imprensa, esquecido de que algumas de suas cláusulas eram indispensáveis para evitar o vácuo legal). O herdeiro de Chagas Freitas, ex-colunista especializado em pedir votos aos funcionários públicos, desinteressado como sempre, investiu imediatamente em defesa da aterrorizada mídia negando a existência de qualquer monopólio nos meios de comunicação.


Qualé, seu Miro – já esteve em Santos? Sabe o que se passa na maioria das capitais do Norte-Nordeste? Já examinou a situação das nossas cidades médias onde a principal emissora de TV é também a principal acionista do maior diário? Conhece os regulamentos da Federal Communications Commission (FCC) americana que impedem a propriedade cruzada de veículos na mesma região?


A síndrome do medo tem várias causas e várias terapias. Fármacos resolvem. O divã, porém, é mais eficaz.

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/01/2010 Luiz Fernando Mendes de Santana

    As pessoas que criticam as propostas do PNDH e da Confecom talvez se esqueçam que vivemos numa democracia plena. É direito de qualquer cidadão e de qualquer grupo organizado, incluindo o Governo, apresentar propostas.
    Não significa que serão aprovadas. Para isto existem 3 poderes independentes.
    Em relação a Confecom, os grandes meios foram convidados a participar. Não foram excluídos do debate. Negaram-se. Isto é autoritarismo?
    Cidadãos saudosos da ditadura militar, em um regime democrático, podem apresentar propostas exigindo a sua volta. É um direito que lhes assiste.
    Monarquistas pediram um plebiscito. Foram atendidos. E a população entendeu que não era aplicável para o país.
    A sociedade civil americana é muito organizada e atuante. E ninguém fala que são retrógrados, esquerdistas, maoístas, coisas do genêro.
    Conviver em um regime democrático é aceitar a diversidade. Negar-se a participar quando convidado e dizer que os resultados são contra a democracia é no mínimo burrice.

  2. Comentou em 22/01/2010 Carlos N Mendes

    Maravilhoso argumento de Sergio Ribeiro. Messianismo de uma idéia só, é tudo que os militares golpistas de 1964 tiveram. E não tinham o direito de fazer a Nação pagar tão caro por ela.

  3. Comentou em 21/01/2010 Jose Aurelio Guimarães

    Olá bons dias, sobre as ramificações do PIG e a propriedade cruzada de veículos de comunicações, a cidade de Franca – SP é um ótimo exemplo. Dr. Goebbles deve ficar orgulhoso de suas crias.
    Abraços
    Zé.

  4. Comentou em 20/01/2010 Carlos N Mendes

    O QUÊÊÊÊ????? A ditadura de 64 foi implantada para se evitar uma ditadura???? Ainda bem que nossos generais não eram médicos – matariam todos os pacientes para evitar que morressem.

  5. Comentou em 20/01/2010 Carlos N Mendes

    O QUÊÊÊÊ????? A ditadura de 64 foi implantada para se evitar uma ditadura???? Ainda bem que nossos generais não eram médicos – matariam todos os pacientes para evitar que morressem.

  6. Comentou em 20/01/2010 Marcelo Ramos

    O senhor Álvaro Landgraf pode postar 500 comentários louvando a ditadura, mas ela não vai voltar. Nossa história recente demonstra que o povo tem tomado mais consciência de seus direitos, tanto do direito à uma informação não manipulada por uma mídia monopolizada, quanto do direito de confrontar aqueles que, durante a ditadura cometeram excessos. E foi essa mesma mídia nas mãos de poucos que semeou o medo e falácia que levaram ao Golpe que condenou o Brasil à um atraso de 50 anos. A nossa elite continua achando que se subordinar à interesses externos ainda é a melhor política. Quanto à sua propriedade, sr. Alvaro, a não ser que ela seja classificada como latifúndio improdutivo, o senhor nada tem a temer, já que, apenas com o suor de seu trabalho um mortal comum não conseguiria comprar um latifúndio. De resto, esse editorial apenas reflete o lixo mental com o qual os ex-formadores de opinião (ainda) povoam algumas poucas cabeças vazias.

  7. Comentou em 20/01/2010 viviane gonçalves

    Dines como sempre genial. O que o divã não resolver a internet dará cabo. O chilique é o prenúnciio do fim deste modelo de ‘empresa de comunicação’ (sic!) que temos ai.Não está longe o dia em que não seremos mais submetidos as idiotices dos supostos paladinos da verdade encastelados nos grandes ‘veículos'(sic!) de ‘comunicação’ (sic!sic!). Esse negócio de recorrer a ´sindrome da famigerada ‘liberdade de informação/imprensa’ já virou uma balela, frase feita deste pessoal que se omite e depois berra! Porquê a ANJ não estava lá em Brasília? Até a minha filha de 14 anos sabia que estava acontecendo lá…
    Oxalá minhas filhas e netos não sejam submetidos a tanta hipocrisia exposta na mídia, e que no futuro a verdade – se é que ela mesmo existe – seja tratada com mais respeito!

  8. Comentou em 20/01/2010 Miro Junior

    Muito bom, e o amago da questão esta extamente no Qualé’ que o Dines manda muito bem na testa destes monopóllios.

  9. Comentou em 20/01/2010 Fabiana Tambellini

    A mídia morre de medo da democracia, morre de medo de discutir, qualquer medida que desagrade a industria da comunicação é logo carimbada de ‘atentado a liberdade de expressão’ e censura. Uma palhaçada. Quanto aos símbolos religiosos, o poder público é laico, retirem-se os crucifixos.

  10. Comentou em 20/01/2010 Carlos N Mendes

    Que nossa mídia iria cair matando sobre o PNDH, eu não tinha dúvida alguma. Que Lula iria refugar – pensando em não polemizar em ano de eleição – eu também já sabia. Minha única dúvida é se esse MOVIMENTO EM BLOCO de nossa mídia é motivado apenas por oposição ao Governo ou por uma ainda existente lealdade aos golpistas de 64. Brasil e México são as únicas grandes democracias que ainda não lavaram a roupa suja – e todos nós estamos vendo que a ferida não vai fechar enquanto não for tratada. Seja qual for a motivação de nossa imprensa em desancar o PNDH, é um DESSERVIÇO à Nação em nome de interesses mesquinhos.

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