Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > NOVOS PARADIGMAS

Mídia, adversarismo político e critérios de noticiabilidade

Por Heloisa Dias Bezerra em 23/01/2006 na edição 365

Desde o episódio da eleição de Fernando Collor de Mello para a presidência da República, bem como sua vertiginosa queda, os anos eleitorais passaram a ser marcados por uma espécie de corrida científica cujo foco tem sido o discurso dos meios de comunicação. Um dos focos tradicionais de pesquisa é a chamada análise da cobertura eleitoral, quando se observa quais veículos mantiveram-se neutros e quais se mostraram mais ou menos positivos ou negativos em relação a este ou àquele candidato, partido ou grupo político. Não é para menos, pois é do jogo eleitoral que sai a substituição ou manutenção de uma elite à frente dos poderes Executivo e Legislativo, em âmbito federal, estadual e municipal.

Ao fim e ao cabo, sempre restam muitas perguntas sem resposta. Por exemplo, a mídia pauta o mercado político ou é a política que pauta o mercado da informação? Afinal, quem pauta quem? Como pesquisadora da área de comunicação política, venho trabalhando com algumas hipóteses. Por exemplo, em se tratando de eleições para cargos majoritários e nos eventos políticos cotidianos que alcançam longevidade editorial (como o dos escândalos de 2005), o embate que ocorre na arena política produz um efeito singular sobre a pauta dos meios de comunicação. Minha hipótese é de que o confronto político produz um ambiente favorável à atuação dos veículos de comunicação no mercado político, momento no qual veículos interessados em determinado resultado político ou eleitoral podem ultrapassar ou mesmo abandonar os tradicionais pilares do jornalismo sem, necessariamente, ter que se submeter às regras deste outro universo de poder.

Para entender as dimensões deste tipo de confronto e suas possíveis relações com o comportamento narrativo dos meios de comunicação, construí o conceito de ‘adversarismo político’, que tem inspiração na tese de Carl Schmitt sobre as relações amigo-inimigo. Além disto, recorre às noções de antagonismo e agonismo, especialmente à luz de temas contemporâneos, tais como a obtenção do consenso e o respeito ao dissenso essenciais às democracias pluralistas.

Recordemos que nas democracias pluralistas as campanhas são movidas por interesses de todos os matizes e investimento financeiro de amplo aspecto. A luta pelo poder, visível ou invisível, faz parte do processo e tem como base a existência de partidos e facções antagônicas e em constante debate por um modelo de mundo. Acontece que este antagonismo não conduz à guerra, pois o arranjo democrático organiza o tabuleiro eleitoral e define as circunstâncias da vitória e da derrota, garantindo ainda ampla aceitação dos resultados, já que sinaliza com a perspectiva de que sempre haverá uma nova oportunidade de triunfo sobre o que se considera ou de fato é o adversário. O mais importante é que impõe como cláusula pétrea que um adversário só pode ser eliminado por meio do poder da palavra, das articulações de interesse e finalmente pelo voto do eleitor.

Sobreviventes incluídos

Pois bem, se as competições estão organizadas como um jogo prioritariamente discursivo, os agrupamentos políticos têm que vivenciar uma polarização constante em torno de frentes de ataque e defesa envolvendo candidatos e lideranças amigas e inimigas. Supomos ainda que o adversarismo presente nas articulações políticas seja evidenciado dentro dos seguintes e principais eixos: candidatos versus candidatos; candidatos versus lideranças amigas; candidatos versus lideranças inimigas; lideranças versus lideranças, sejam estas amigas ou inimigas. Nada disso seria problema se, ao criar um ambiente adversarista, a arena política não abrisse as portas para a entrada de atores estranhos e por isto imunes às regras desse ambiente.

Veículos de comunicação, em princípio, são elementos estranhos à arena política. Ora, é notório que, além de informar objetivamente sobre os eventos relativos aos acontecimentos eleitorais e políticos, as possibilidades discursivas dos meios de comunicação incluem elogiar, criticar, lamentar, interrogar, acusar, julgar, vetar, franquear a palavra ou sensibilizar o medo e a esperança dos cidadãos. Mas a lógica adversarista permite que possam atuar sem se mostrar, interferir na arena política e camuflar-se por detrás de uma narrativa que, em última instância, estaria apenas se apropriando e recompondo a disputa entre partidos políticos, grupos e candidatos.

Pude observar ainda que durante os embates eleitorais os candidatos rotineiramente incluídos nas pautas jornalísticas são aqueles que sobrevivem à polarização das frentes de ataque e defesa e que, portanto, conseguem articular melhor o adversarismo. Então, podemos concluir que a cobertura jornalística pode ser organizada a partir de uma narrativa próxima do seguinte formato: o que candidatos e/ou lideranças disseram, estão dizendo ou poderão dizer sobre seus amigos e também sobre os inimigos, seja isto relacionado a pessoas ou projetos, com o objetivo de eliminá-los da competição (no caso dos inimigos) ou ajudá-los (no caso dos amigos). Esta hipótese sugere que os critérios de noticiabilidade relativos a quem entra e como entra na cobertura jornalística têm origem no confronto que se estabelece na arena eleitoral.

Reflexão impreterível

Mesmo concordando com a idéia de que a arena política não impõe critérios à mídia, nem temas, nomes de pessoas ou problemas, parece-me plausível a hipótese de que as estratégias da política propiciam um ambiente adversarista que fornece elementos fundamentais para que a mídia possa construir uma estratégia narrativa enquanto protagonista da arena política. É justamente esta apropriação e recomposição que pode sustentar uma cobertura jornalística protegida em relação aos tradicionais pilares do jornalismo e que, ao mesmo tempo, permita a um veículo de comunicação passar à categoria de ator político sem ter que arcar com as conseqüências desta posição.

Ante o mais completo desnudamento do mito do jornalismo neutro, imparcial e objetivo, a transmutação de ator público para ator político torna-se mais do que uma simples polêmica acadêmica. Concorde ou não a classe jornalística, o fato é que os meios de comunicação contemporâneos se distanciaram dos paradigmas de origem que orientaram durante séculos a sua função primordial de informar.

Por conseguinte, tornou-se impreterível refletir sobre as suas relações perigosas com o adversarismo político. Seria liberdade de expressão, ingênua irresponsabilidade, porta de acesso para a erosão das instituições democráticas ou simplesmente a faceta moderna desse ente que, informalmente, já foi alçado à condição de quarto poder, com ampla liberdade para investigar e sentenciar o Executivo, o Legislativo e até o Judiciário.

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Doutora em Ciência Política, pesquisadora, professora universitária e consultora de marketing político (http://adversarismopolitico.zip.net)

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