Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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JORNAL DE DEBATES >

Mídia, agenda pública e audiência qualificada

Por Venício A. de Lima em 11/11/2008 na edição 511

Uma semana antes das eleições norte-americanas, relatório preliminar do Estudo Latinobarómetro 2008 informava que ‘la población de América Latina tiene otras preocupaciones, y a pesar de la gran cobertura mediática y excepcionalidad de la carrera presidencial en EEUU sólo una parte la considera importante para la región’. Na verdade, 57% da população da região declararam ter ‘pouco ou nenhum’ conhecimento sobre as eleições americanas [ver quadro abaixo]. A pesquisa foi realizada em 18 países no período de 5 de setembro a 5 de outubro e os resultados são representativos da população maior de 18 anos, com margem de erro entre 2,8% e 3%.






O Latinobarómetro destaca que os resultados ‘desmistificam la creencia de que EE.UU., está en la mira de la población de la región, ya que uno de cada dos latinoamericanos no sabe sobre la elección más emblemática que ha tenido EEUU en su historia contemporánea. Ni el tema género, ni la raza, son motivos suficientes para que la población menos educada de la región se entere de la posibilidad que un negro llegue a la presidencia de EEUU’.


Na mesma semana, divulgou-se resultado de pesquisa realizada pelo Datafolha nos dias 8 e 9 de setembro, representativa da população brasileira acima de 16 anos, com margem de erro de 2% em ambos os sentidos. Os dados são muito parecidos com aqueles encontrados pelo Latinobarómetro: 60% dos entrevistados não reconheceram uma fotografia de Barak Obama e 77% uma de John McCain (ver aqui, para assinantes).


Fazendo história


As eleições presidenciais americanas de 2008 se diferenciaram das anteriores pelo seu enorme potencial de ‘fazer história’: a disputa pela candidatura democrata aconteceu entre uma mulher e um negro e, ao final, concorriam à presidência um negro e um herói de guerra, este tendo como vice uma jovem mulher.


Este potencial certamente foi uma das razões que provocaram a grande cobertura que todo o processo eleitoral mereceu da mídia internacional, inclusive, da brasileira. No dia das eleições, a nossa maior rede de televisão aberta deslocou seu principal apresentador para Washington, de onde fez transmissões ao vivo. Além disso, colocou outros seis correspondentes em cidades americanas estratégicas. Das onze chamadas do Jornal Nacional no dia das eleições, sete foram sobre as eleições americanas. No dia seguinte, sete das nove chamadas também foram sobre a vitória de Barak Obama. O assunto também mereceu manchete dos principais jornais durante vários dias e capa de todas as revistas semanais.


Apesar de tudo isso, é improvável que os resultados obtidos pelas pesquisas do Latinobarómetro e do Datafolha tenham se alterado significativamente até o dia 4 de novembro. A maioria da população latino-americana – e brasileira – não considerava as eleições presidenciais americanas importantes e não estava interessada nela. E esse fato merece algumas reflexões.


Audiência qualificada


Primeiro é interessante observar que a agenda midiática – que conferiu grande importância à cobertura jornalística das eleições americanas – não foi seguida por parte significativa da população, isto é, não se transformou em agenda pública.


Segundo é de se supor que a grande mídia soubesse da falta de interesse da maioria da população pelo tema; no entanto, ela manteve sua pauta e fez uma ampla cobertura. Do ponto de vista dos critérios de noticiabilidade, não há qualquer dúvida de que o evento merecia sim uma grande cobertura. Por outro lado, dentro da lógica comercial na qual a mídia privada opera, não se espera que temas pelos quais a maioria da população não se interessa mereçam, mesmo assim, grande cobertura.


Interesse e tamanho da audiência, todavia, nem sempre são a mesma coisa. Ademais, cobrir uma eleição ‘histórica’ diretamente da nação hegemônica legitima e confere prestígio, não só junto a uma audiência qualificada como também entre concorrentes e poderosos atores políticos.


Um negro na presidência dos EUA é importante para os americanos, para o mundo e para a mídia. Mesmo que muita gente ainda não tenha se dado conta disso na América Latina, inclusive no Brasil.

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Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor/organizador, entre outros, de A mídia nas eleições de 2006 (Editora Fundação Perseu Abramo, 2007)

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