Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > QUESTÃO DE ORDEM

Mídia comprometida ou combinada?

Por Aparecida Torneros em 04/10/2005 na edição 349

Senhores, pela ordem. Peço a palavra. Careço dela. É objeto obscuro de desejo para os que pairam no limbo das perguntas sem resposta, estas mal resolvidas questões que os chamados públicos-alvos, assim batizados pelo marketing alvissareiro, teimam em colecionar, de tempos para cá, os tais ‘tempos modernos’.

Como Chaplin imortalizou, a era industrial, na versão científica da comunicação de massa, talvez, represente, hoje, a massa falida administrada por síndicos e gestores hábeis na arte de tentar enganar a muitos, esclarecer quando convém e/ou radicalizar quando é preciso.

De que lado, afinal, estão os donos da mídia brasileira? Seriam os deuses da informação, astronautas de espaços de um mundo cada vez mais globalizado? O capital que sustenta a informação de há muito deixou de ser nacional, desde que se rendeu às parcerias com os grandes conglomerados (palavrinha essa com gosto de chocolate suíço, isto é, consistente, mas derrete, rápido), ao sabor dos ventos que direcionam as agências internacionais de notícias, estas, todos sabemos, a serviço dos interesses demasiadamente comprometidos, capazes de divulgar até as guerras como se roteiros de Hollywood fossem.

Entra ‘adeus às armas’

Vê-se, aqui e acolá, que o papel ‘denuncista’ tem seu grau de importância, mas há que se estabelecer critérios para a confiabilidade a respeito dos bastidores onde se engendram as manchetes, como se fossem estratégias de combate, apontando alvos previamente estabelecidos que tanto podem ser figuras exponenciais da República, pois será possível, em tese, e sempre, descobrir delas atitudes suspeitas ou talvez episódios que, bem trabalhados, renderão hipóteses convenientes para a derrubada de seus pedestais de glória.

Contudo, também é perfeitamente plausível que se vá tecendo uma rede necessária de blindagem em torno de um quadro conveniente de informações. A pergunta é: o que convém aos donos da mídia, que concorrem entre si, ao se postarem alimentando a crise como aquela cozinheira matrona que põe no banho-maria o prato principal, enquanto aguarda ordens da patroa para aquecer de vez e servir o lauto jantar, assim que a visita chegar? Já está na hora de anunciar as novas cassações dos deputados?

Tudo é uma questão de ordem. Entra ‘adeus às armas’, sai a ‘pizza das CPMIs’, dá mais ênfase ao MST, diminui a pressão sobre o Executivo, publica mais futebol, ressalta o escândalo do apito fraudado, banaliza o noticiário do Congresso, foca no padre em greve de fome contra a transposição do São Francisco, alardeia as fotos nuas da moça que virou musa, mas não inventa, não.

O avanço a contabilizar

É tudo combinado, sim, mas é a pura verdade. Claro, quem foi que disse que eu duvido das pautas? Estão aí, a dar com o pau, quer dizer, tem para todos os gostos, tanto da grande mídia quanto da dita mídia alternativa, incluindo a nova mídia eletrônica, dos sites, dos ‘blogueiros’, que são os novos ‘donos’ dos seus narizes, sem comprometimento aparente com as causas aliadas aos interesses do capital e das ideologias.

‘Assim caminha a humanidade’ noticiada. Pode acelerar uma crise ou arrastá-la como bem lhe convier. Quando se esgotarem os argumentos, senhores, pela ordem, solicito que constem nos anais da nossa história as cifras correspondentes ao lucro efetivo que o fator informação rendeu à economia nacional nesse período, além da estabilidade já tão alardeada pela pasta da Fazenda.

O ideal seria contabilizar o avanço social que, porventura, se concretize, e torcemos é por ele, em última análise, a partir do cruzamento de idéias, a concorrência de interesses e a passividade do público brasileiro.

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Jornalista e professora universitária, Rio de Janeiro

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