Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > ESCÂNDALO NO DF

Mídia demorou a entender o enredo

Por Alberto Dines em 16/02/2010 na edição 577

A mídia assistiu de camarote ao desfile do Bloco do Arruda, a festa foi das instituições que defendem os interesses da sociedade: o Ministério Público, o Judiciário e a Polícia Federal. A imprensa cumpriu a sua função de tambor e trombone – não investigou, não seguiu pistas, não foi adiante. Contentou-se com o prato feito pelas autoridades policiais e a sensacional coleção de videoclipes produzidos pelo ex-cúmplice Durval Barboza.


O único ‘jornalista’ que entrou na história foi o cognominado ‘Sombra’, Edmilson Edson dos Santos, mas pela porta dos fundos, ao fingir que aceitava ser subornado pelo governador do José Roberto Arruda e assim oferecer as provas de que deveria ser encarcerado para não prejudicar as investigações.


A grande imprensa há muito desistira de acompanhar a política do Distrito Federal. Antes de Arruda, pesadas acusações envolvendo o nome do ex-governador Joaquim Roriz chegavam regularmente às sucursais brasilienses da imprensa dita nacional. Às vezes transpirava alguma coisa, mas raramente alcançava a primeira página ou as escaladas dos grandes telejornais. Velhas raposas políticas, ambos eram bem conectados com o mundo e o submundo midiáticos, exímios na arte de desviar dos holofotes e usá-los em seu beneficio. Empregos e favores no GDF não chamam a atenção, ao contrário do que acontece na Praça dos Três Poderes ou na Esplanada dos Ministérios.


Milagres simuntâneos


Pega de surpresa e diante da fartura de cenas de corrupção explícita fornecidas pelas autoridades que acompanhavam o caso, a grande mídia se soltou. Como o Democratas desde o início tentou demarcar-se do lodaçal fabricado por seu único governador, a cobertura do Bloco do Arruda seguiu livre, sem justificativas, malandragens e lealdades partidárias como aconteceu com os mensalões anteriores.


O que nos leva à alcunha utilizada pela mídia: trata-se efetivamente de um ‘mensalão’ ou de um ‘propinoduto’? Mensalão pressupõe um sistema de favorecimentos contínuos e regulares. O caso do governo do DF assemelha-se a um sistema de propinas, um ‘propinoduto’ semelhante ao que foi desbaratado na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Licitações e votações tinham padrinhos e afilhados específicos – alguns eram habituées, nem todos.


Como em sua primeira reação o presidente Lula tentou minimizar as revelações, a mídia retalhou e colocou a etiqueta de ‘mensalão’ para assim lembrar o episódio que envolveu o PT e a base aliada, em 2005. Como, posteriormente, descobriu-se o mensalão do PSDB mineiro, adotou-se agora um genérico isonômico e ainda mais degradante: o mensalão do DEM.


A mídia produziu vários milagres simultâneos: em pouco mais de dois meses conseguiu a façanha de enfiar um governador no xilindró e, ao mesmo tempo, mostrar à sociedade brasileira que o Bloco do Arruda não foi apenas a inspiração para algumas divertidas marchinhas de carnaval. É uma tragédia nacional.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/02/2010 Luciano Prado

    “Pega de surpresa… a grande mídia se soltou”. As vezes penso que o Dines acabou de chegar de Marte. É possível que quando voltar de uma próxima viagem também vá usar da mesma explicação para os escândalos do governo de Yeda Crusius. O nobre jornalista tem dificuldade em compreender a cumplicidade da velha imprensa com certos atores e suas práticas políticas. O Correio Brazilense, principal jornal do Distrito Federal se soltou? Vários articulistas explicaram detalhadamente sobre as razões do silêncio do jornal brasiliense, e os que não disseram tudo deixaram implicitamente explícito tais razões. A revista Veja foi pega num conluio com o governador Arruda cujas provas estavam escancaradas no Diário Oficial do DF. Dines continua viajando: “A mídia produziu vários milagres simultâneos: em pouco mais de dois meses conseguiu a façanha de enfiar um governador no xilindró…”. Pai Eterno! Não fosse a atuação da OAB do Distrito Federal, da Polícia Federal, do Ministério Público, de um desembargador a beira da aposentadoria e da população local Arruda estaria agora se lançando candidato numa chapa com José Serra. A verdade é que os fatos envolvendo Arruda foram tão contundentes que a velha imprensa não conseguiu esconder. Próxima parada: Júpiter.

  2. Comentou em 17/02/2010 Miro Junior

    http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=577JDB002………..
    Esperança e desalento………….Apesar da esperança de melhores dias, registre-se certo desalento que é impossível evitar em conjunturas como esta. As ações da PF, do MP e do Judiciário, além da esperada punição de todos os culpados, não eliminam uma sensação de impotência diante de tamanha desfaçatez por parte de políticos profissionais…………………E, claro, também por parte de grupos de mídia que apenas confirmam seu total desprezo pela ética jornalística e pelo interesse público.

  3. Comentou em 16/02/2010 Paulo vidal Neto

    Prezado Alberto Dines
    Tenho quase setenta anos, portanto já tenho um pouco de estrada e muita história. Qual foi e quando foi que algum governo, seja municipal, estadual ou federal, deste Brasil, extraordinário em todos os sentidos, conquistou uma base de apoio, nos parlamentos, na mídia geral e em todos os demais veículos de formação de opinião publica, sem praticar um vergonhoso processo de compra, com o dinheiro que toda a nação, pago através dos mais diferentes e apelidados tipos de impostos municipais, estaduais e federais.
    Os escândalos com o caso arruda servem para encobrir, dentre outras coisas, outros sem numero de casos de malversação com o dinheiro publico, como escândalos idênticos engavetados,inclusive nos tribunais, vergonhosa campanha política antecipada da candidata do poder, tentar desviar o foco de outras falcatruas, etc. e tal.
    Na realidade, a meu ver, os crimes contra o erário publico deveriam ser objetos de prisão imediata ao conhecimento dos fatos, desde que apurados por um órgão serio. Prende e depois vai a julgamento. Pelo menos serve de exemplo. Não é mais possível aturar essa situação: Um mandato de políticos, em qualquer nível, com raríssimas exceções, é o suficiente, para fazê-los ricos. Em minha opinião cadeia para todos os corruptos, inclusive os das mídias. O minúsculo é proposital.

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