Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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JORNAL DE DEBATES > RESCALDO DAS URNAS

Mídia e direita, que sejam felizes.

Por Gilson Caroni Filho em 21/11/2006 na edição 408

Muito se tem escrito sobre a reeleição do presidente Luiz Inácio da Silva e a derrota dos chamados ‘formadores de opinião’. Sem dúvida, o segundo mandato de Lula pôs a nocaute o campo jornalístico brasileiro, seus estatutos de verdade e a crença nos dispositivos que regulam a relação entre os responsáveis pela produção e difusão do noticiário.

Um misto de perplexidade e consternação já havia tomado conta de nove entre 10 colunistas quando, em meados de abril,  o instituto Datafolha publicou pesquisa sobre intenção de votos para presidente. Lula, apesar do bombardeio midiático, mantinha estável sua liderança . Em artigo para o Observatório da Imprensa (‘Datafolha rasga a fantasia iluminista da imprensa‘) alertamos para o fato de estarmos diante de algo que merecia reflexão mais séria da própria imprensa sobre seu papel na sociedade.

Destacamos que ‘mais que a inviabilidade eleitoral do ex-governador paulista, o instituto talvez tenha capturado um dado de extrema importância: a deslegitimação do discurso jornalístico e das representações que estão por trás dele’. Salientamos também que ‘da seleção e organização de informações à edição, temos visto, em quase todos os veículos, a orientação editorial condicionar o conteúdo da reportagem. A negligência investigativa transformou-se no foco adequado a um jornalismo marcadamente de campanha. Ora, a crise do atual governo é, em grande parte, uma realidade produzida por recortes de mídia. Não poucas vezes, o dado concreto cedeu lugar à imaterialidade midiática. Indícios viraram manchetes. E, não tenham dúvida, estas reaparecerão na campanha eleitoral. O resultado é a saturação que deslegitima o fazer jornalístico como práxis ética’. Mas o ódio classista não comportava inflexões.

Ódio de classe

A forma como o discurso noticioso se organizou e se reproduziu é algo que talvez só encontre paralelo nos episódios que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, em 1954. Ou ao golpe militar, 10 anos depois. Redações e ilhas de edição se transformaram em trincheiras do udenismo redivivo. Articulistas, colunistas e jornalistas-blogueiros disputavam entre si quem melhor reencarnaria  Carlos Lacerda. Ainda não haviam percebido que se lhes sobrava a determinação do colunista e parlamentar golpista, faltava-lhes a substância e os recursos estilísticos daquele que ficou conhecido como o ‘Corvo’. Mas havia uma aposta, e ganhá-la transformou-se em questão pessoal, depois que o patronato liberou a besta-fera que havia em cada um.

O que não perceberam é que a empreitada estava fadada ao fracasso por um motivo simples. A sociedade patrimonialista, cordata e gelatinosa que o colosso midiático julgava ter em mãos ficara em algum lugar do passado. A democracia ampliada já não comportava alternância intra-elites. O componente classista estava pronto para ingressar no jogo político. O apoio a Lula não era expressão de um consenso passivo e os que provaram o gosto da cidadania recém-adquirida não estavam dispostos a chancelar retrocessos. As classes populares queriam algo além de uma participação vicária, isto é, exercida por representantes que não pertenciam a ela. A inserção direta na esfera política estava sendo consolidada por movimentos sociais que, sem perder autonomia, dialogavam com o governo. Os setores mais lúcidos da esquerda não alimentavam ilusões rupturistas. Erros passados não se repetiram. Não houve quem confundisse chegada ao governo com tomada do poder.

Talvez esteja aí o equívoco capital do campo jornalístico. Embevecido com a centralidade que desempenha no processo político, ignorou as mudanças ocorridas na formação social em que atua. A maioria dos articulistas ainda se julgava pertencente a um ‘parlamento sem voto’. Senhores da informação, tutores da opinião. Quanta ilusão perpassou o facciosismo, o ódio de classe e a índole golpista desses respeitáveis senhores e senhoras das mais conceituadas publicações brasileiras.

Leitores cativos

No auge da crise, em 2005, julgavam que o PT e Lula estavam feridos de morte. Apostavam na obstrução de canais políticos e em crise institucional. Enquanto CPIs disputavam holofotes, os principais analistas vaticinavam que, sobrevivendo ao turbilhão, Lula chegaria a 2006 sem base partidária e, se tentasse a reeleição, o faria apoiado por  seu carisma e um populismo que lhe traria votos dos grotões. 

Um ano depois, vêem o presidente reeleito, com excelente desempenho eleitoral da sigla. Lula conta com o apoio de 16 governadores (eram três em 2002) e amplo respaldo dos principais movimentos organizados. Se o PT precisa investigar os responsáveis por procedimentos internos que chamuscaram seu capital simbólico, a imprensa deve afinar sua banda antes de querer impor ao governo reeleito a agenda dos derrotados.

Na edição de 28/12/2005 de Veja, Diogo Mainardi escrevia: ‘Passei o ano todo amolando Lula. Dediquei-lhe mais de trinta artigos. Fracassei. Prometo derrubá-lo em 2006’. O bolor udenista do inculto colunista de Veja demonstra o quanto a direita empobreceu estilisticamente. Mas o que talvez mais incomode a mídia brasileira esteja no rescaldo da crise. Clóvis Rossi, Eliane Cantanhêde, Josias de Souza, Fernando Barros, Merval Pereira, Dora Kramer e Ricardo Noblat, entre tantos outros, sofreram um sério revés. Ao se ‘maianardizarem’ parecem não ter notado que seus leitores cativos ficariam restritos à direita mais reacionária, ressentida e atrasada.

Como afirmava Herbert de Souza, o saudoso Betinho, ‘toda informação é uma proposta ou elemento de formulação de proposta’. Quando aceita, a união é estável e duradoura. Que sejam felizes. Por que não? Jornalistas e leitores militantes também merecem a felicidade. Mesmo que ela surja de um pequeno ruído.

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Professor de Sociologia da Facha, Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/11/2006 Paulo Bandarra

    Pois é, Rogério Ferraz Alencar , Fortaleza-CE – TRF. Quase foi cometido mais um linchamento moral depois da escola de Base. E o caso do Badam Palhares? Este a esquerda delirou a difamação do mesmo no caso do PC Farias. Até hoje não reabilitado pela mídia. Os pilotos do Legacy ainda estão no limbo. Parece que a mídia só é culpada por casos seletivos. Quanto ao amigo Fábio Carvalho estou a disposição no local adequado. Este não é o local do assunto. Já publiquei várias matérias sobre o mesmo no OI. Onde era o local para isto. Em respeito aos que estão centrado no assunto, peço que use o MORDAZ para isto. http://mordaz.blog.terra.com.br Usar ineficácia não é charlatanismo. É a definição da lei.

  2. Comentou em 24/11/2006 Paulo Bandarra

    Pois é, Assalariado Marcelo del Questor , Belo Horizonte-MG – Os “funcionários capazes” agradecem a sua confiança e a tua abnegação abrindo mão do que as estatais deveriam produzir. O bom, suficiente e barato. São tão capazes que não podem concorrer com os “assalariados” e precisam de proteção do estado. Ao povo, só discurso vazio! Escolas que não resolvem, professores que não ensinam, Universidades que não produzem conhecimento, servidores que se locupletam de mordomias, câmaras apinhados de apadrinhados, estatais que não produzem, telefônicas que não fornecem telefone… Há quem aprecie isto!

  3. Comentou em 22/11/2006 Fábio Varne Genu

    ‘O bolor udenista do inculto colunista de Veja demonstra o quanto a direita empobreceu estilisticamente’. Quer melhor definição que esta do autor do artigo? O que me deixa furioso é ver o combativo Alberto Dines fazê-lo de aliado tático. Logo ele que foi vítima das calúnias deste escriba pobre da Veja.

  4. Comentou em 22/11/2006 Alexandre Freitas

    Valeu, professor. O artigo não é para amadores. Pobre país quando análise que não contemporiza é confundida com militância. Continue assim, combinando integridade e inteligência.

  5. Comentou em 22/11/2006 cid elias

    Isto sim podemos chamar de observação! Os intitulados observadores de imprensa definitivamente assumiram o papel de defensores da Grande imprensa. Profissinais sérios como o Professor Caroni têm, com maestria, ocupado a lacuna deixada pelo desvio da função de observar a imprensa do Dines, Malin, Weis, Brickmann, Kuntz e outro que não recordo agora. Para honrar o nome deste espaço, e como não é possível substituí-los(os antes citados), que venham então outros observadores mais atentos, no caso o Professor Gilson. Parabéns à Equipe do OI por permitir a publicação de textos compromissados com os fatos, dignos de estarem no Observatório de Imprensa.

  6. Comentou em 22/11/2006 cid elias

    Isto sim podemos chamar de observação! Os intitulados observadores de imprensa definitivamente assumiram o papel de defensores da Grande imprensa. Profissinais sérios como o Professor Caroni têm, com maestria, ocupado a lacuna deixada pelo desvio da função de observar a imprensa do Dines, Malin, Weis, Brickmann, Kuntz e outro que não recordo agora. Para honrar o nome deste espaço, e como não é possível substituí-los(os antes citados), que venham então outros observadores mais atentos, no caso o Professor Gilson. Parabéns à Equipe do OI por permitir a publicação de textos compromissados com os fatos, dignos de estarem no Observatório de Imprensa.

  7. Comentou em 21/11/2006 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    Caro professor Caroni. Há muito estou para lhe preguntar se tens algum parentesco com o saudoso historiador Edgar Caroni??? Quanto ao artigo, irretocável como sempre. E como sempre, o OI o coloca lá na ultima ‘página’. Enquanto o interminavel veneno de Alberto Dines, recebe todo destaque na pagina da frente. Haja paciencia!!!!!

  8. Comentou em 21/11/2006 Alessandra Ramos

    Mais um belo texto deste que, pra mim , figura entre os melhores colaboradores do OI. E parabéns aos editores por irem buscar o artigo na Caros Amigos. Isso diz muito dos critérios do Observatório. Para além da preferência político-patidária a ideologia de vocês é a qualidade. Pena que o médico Paulo Bandarra ainda não tenha diagnosticado isso.

  9. Comentou em 21/11/2006 Carlos Traeder

    Eu já havia lido esse artigo na Caros Amigos. Mas não posso deixar de parabenizá-los por reproduzir um texto que julgo o mais importante publicado sobre mídia e política no processo eleitoral. Parabéns pela percepção da importância da análise

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