Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > TERRENO MINADO

Mídia não é campo de batalha

Por Alberto Dines em 09/03/2010 na edição 580

As partes estão excitadas, os militantes exibem os tacapes. O confronto de 2010 deve obedecer a limites: não pode ultrapassar o plano eleitoral onde há regras, monitoramento, órgãos disciplinadores e, sobretudo, magistrados insuspeitos. A entrevista do ministro Carlos Ayres Brito (Estado de S.Paulo, domingo, 7/3, pág. A-8), na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral, é uma prova disso: desestimula a truculência e enquadra os eventuais provocadores.


Mas a transferência da disputa para o precário terreno da imprensa é preocupante. A liberdade de informação foi há sete meses suspensa pelo Judiciário para proteger o chefe do Poder Legislativo, a Lei de Imprensa foi indevidamente anulada, as normas que regulavam o direito de resposta foram irresponsavelmente dissolvidas, não existem órgãos reguladores nem auto-reguladores. A única experiência de convívio corporativo dentro da mídia – o Conselho de Comunicação Social – foi arquivada para atender os interesses comuns das empresas de mídia e do governo federal.


Como se não bastassem as dificuldades internas, os exemplos de confrontos midiáticos nos países vizinhos só ampliam o estresse e o ânimo combatente.


Padrões de exigência


Está na hora de baixar a pressão. O presidente Lula, aparentemente, já percebeu o perigo e está acionando seus dotes apaziguadores. Mas é preciso desarmar os detonadores dos dois lados. Os radicais são radicais porque só assim podem aparecer. Sem exacerbações, tornam-se inúteis, somem.


A crítica aos meios de comunicação deve ser feita com competência, conhecimento de causa, sem bandeiras partidárias, a serviço do esclarecimento. A crise dos meios de comunicação é hoje abrangente e transversal, visível globalmente, mas o único setor que deveria abster-se de atuar como crítico da mídia são os governos e governantes. Com o poder de que dispõem, suas observações, mesmo pertinentes, transformam-se automaticamente em ameaças.


São justamente as ameaças que neste momento perturbam o processo eleitoral. Eventos ruidosos não solucionam disfunções crônicas, sobretudo as situadas nos desvãos das instituições. O jornalismo é um processo informativo que dispensa os fóruns sobre jornalismo. A obsessão por comícios é compreensível em políticos, condenável naqueles que a sociedade escolheu para produzir reflexão e ponderação.


Há na mídia brasileira áreas imunes ao radicalismo. Não são melhores nem piores do que os irredentistas, a diferença é que observam o processo holisticamente e, assim, armados de um ceticismo suprapartidário, tornam-se aptos a aplicar os mesmos padrões de exigência em todos os quadrantes.


Debate sobre a imprensa


Antes das comoções que envolveram seus sistemas midiáticos, tanto a Venezuela como a Argentina não dispunham de entidades dispostas a identificar as disfunções que comprometiam a fluência e independência do processo informativo. O debate público sobre mídia só ocorreu depois da irrupção dos confrontos entre governos e corporações de comunicação.


O Brasil começou a discutir o desempenho da mídia décadas antes, mesmo que certos artigos da Constituição de 1988 tenham ficado sem a necessária regulamentação (caso do Conselho de Comunicação Social, que esperou 14 anos para transformar-se em realidade e evaporar-se logo em seguida). Mas fomos pioneiros em universalizar o debate sobre a imprensa.


Esta é uma vantagem que deveria ser aproveitada agora, imediatamente, antes que a disputa eleitoral converta-se em foco de intoxicação permanente.

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/03/2010 Luiz Fernando Mendes de Santana

    Dines,
    Quem está atirando a primeira pedra é a mídia.
    A Reunião do Instituo Millenium foi o grito de guerra.
    Veja as manchetes dos principais jornais do país esta semana.
    Principalmente O GLOBO.
    Estão vendendo lixo para as pessoas.
    E quenm reclama é contra a liberdade de expressão.

  2. Comentou em 12/03/2010 Luiz Fernando Mendes de Santana

    Dines,
    Quem está atirando a primeira pedra é a mídia.
    A Reunião do Instituo Millenium foi o grito de guerra.
    Veja as manchetes dos principais jornais do país esta semana.
    Principalmente O GLOBO.
    Estão vendendo lixo para as pessoas.
    E quenm reclama é contra a liberdade de expressão.

  3. Comentou em 09/03/2010 Marcelo Silvestre

    Dines, se vc reparar bem vai notar que o fim da Lei de Imprensa, do direito de resposta e da necessidade de diploma já foi um preparo de terreno para o que vem por aí neste ano eleitoral. Esse plano B começou a ser montado assim que o Lula não caiu depois do mensalão. O que vem por aí é tão sórdido que eles precisaram desmontar qualquer regulamentação jurídica da imprensa ou de seus profissionais. Agora qualquer um, sem diploma, pode publicar qualquer coisa, em qualquer veículo, e não ser responsabilizado por nada. E qualquer processo civil vai ser acusado de ‘Censura’. Imagina o que vem por aí… Venezuela vai parecer brincadeira de criança.

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