Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > CIRCO RICHTHOFEN

Mídia quer comandar o picadeiro

Por Alberto Dines em 17/04/2006 na edição 377

O fim de semana 8-9 de abril seria decisivo no cronograma e estratégia dos advogados de Suzane Von Richthofen, assassina confessa dos seus pais. Decisivo foi, mas em direção oposta.


A orquestração armada para que a sua cliente aparecesse nos veículos de maior audiência (matéria de capa na Veja e o Fantástico, da Rede Globo) foi seguida à risca em todos os sentidos.


A começar pela anuência dos dois veículos em sair juntos sem se importar com a evidência de ‘armação’ advocatícia. O semanário menciona na pág. 111 da edição 1951 a presença de um repórter da Rede Globo na quinta-feira anterior, quando Suzanne ‘chegou a simular um desmaio’. A Globo, por sua vez, ao saber da capa da revista na manhã de sábado, poderia ter suspendido a exibição da matéria no dia seguinte, mas não o fez. Ao contrário, na edição do Jornal Nacional do sábado (8/4), os telespectadores foram alertados para a bomba que seria exibida pelo Fantástico no domingo.


Os advogados não contavam com o acaso e a inexorabilidade de uma das Leis de Murphy: se algo pode dar errado, certamente dará erradíssimo. Ao editar a entrevista, a equipe do Fantástico descobriu trechos em que os advogados de Suzane – sem saber que estavam sendo gravados – encenavam com ela as cenas de choro e arrependimento para comover os mais empedernidos membros do júri.


Mistificação, fraude


Não foi furo, não foi investigação jornalística, foi obra do acaso. Magnificamente explorada, diga-se, pela direção do programa – que viu naquele inesperado making of uma oportunidade para demarcar-se da Veja, que assim ficou sozinha com o ônus de parceira dos advogados de Suzane.


O barulho e o oba-oba dos dias seguintes, somados à tradicional falta de apetite da nossa mídia para discutir a mídia, criaram mais um daqueles clamorosos enganos onde quem estava errado acaba com cara de anjo.


Apesar de a encenação ter sido casualmente desmascarada, fica evidente que o Fantástico havia aderido ao jogo de infantilizar aquela mulher feita, de 22 anos, capaz de planejar e participar do assassinato dos pais. Basta rever a esmerada produção: a camiseta cor-de-rosa que lhe deram para vestir, as despretensiosas pantufas, os delicados passarinhos, o penteado pré-adolescente e os demais adereços de produção.


Quem levou a pior foi o nosso mais importante semanário: apesar do registro de um desmaio simulado frente às câmeras da Globo, Veja não teve tempo ou simplesmente optou por descartar as evidências de que estava sendo arrastada para uma mistificação que no mundo dos criminalistas parece trivial, mas no universo jornalístico é vizinha da fraude.


Tempos de Copa


Apesar de algumas menções aos truques dos advogados, a matéria é permeada de ambigüidades, a começar pelo título – ‘Os mortos de Suzane’ – que serve a qualquer finalidade, inclusive a de reforçar o fato de que a assassina ‘vive reclusa e assombrada’. Tadinha…


Sem a maestria da Globo em matéria de produção, Veja conseguiu mostrar Suzane quase como uma criança; a página dupla com os periquitos é um primor de doçura. Sua prisão logo em seguida, e a revelação pelo Jornal da Record de que passou a noite acorrentada na parede de uma delegacia, foi outro golpe de sorte – desta vez a favor dela e dos seus advogados.


Está evidente que a mídia quer antecipar o espetáculo do julgamento para poder comandá-lo. Em temporada de Copa do Mundo, o Circo Richthofen vai funcionar como coadjuvante na empolgação. Sobretudo para os jovens.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/04/2006 Elder Costa

    Acho que seria o caso do Sr. Alberto Dines reler a reportagem da Veja, que de maneira alguma foi favorável à jovem ou foi parceira dos advogados. A autora da reportagem deixa bem clara a percepção de que havia fingimento do início ao fim da entrevista. Dines parece estar perdendo a objetividade quando se trata de comentar qualquer coisa que diga respeito à Veja.

  2. Comentou em 22/04/2006 Elder Costa

    Acho que seria o caso do Sr. Alberto Dines reler a reportagem da Veja, que de maneira alguma foi favorável à jovem ou foi parceira dos advogados. A autora da reportagem deixa bem clara a percepção de que havia fingimento do início ao fim da entrevista. Dines parece estar perdendo a objetividade quando se trata de comentar qualquer coisa que diga respeito à Veja.

  3. Comentou em 18/04/2006 Dilson Renan Souza

    Embora seja um admirador do Observatório e particularmente do jornalista Alberto Dines, não concordo com as colocações que ele faz nesse artigo.
    Acho que as as acusações de João Paulo à imprensa são compreensíveis e completamente cabíveis. A imprensa precisa reconhecer que é parcial. Aliás, todos somos parciais. E jornalistas, apesar de pretenderem o contrário, não são diferentes. Todos somos reféns de nossas ideologias e preconceitos e isso nos denuncia quando emitimos nossas opiniões. Não vejo isso apenas como ‘um desequilíbrio entre o destaque conferido às acusações e o espaço concedido à defesa’. É tentativa de manipulação mesmo.
    Não sei, por exemplo, como a imprensa poderia ser mais enfática com relação à indignação pela absolvição de João Paulo Cunha ou de outros deputados. Pelo menos todos os jornais que li na época deram manchete ao fato e o trataram com ironia, fazendo referências a ‘pizzas’ e relembrando a dança da deputada Ângela Guadagnin. Os jornalistas têm ‘torcido’ pela condenação dos deputados acusados e quando esses não são condenados ficam irados e tentam traduzir essa ira em protestos contra a absolvição. Por outro lado não vi nenhuma indignação quando o Arthur Vigílio e o ACM Neto ameaçaram esmurrar o Presidente. Pelo contrário…
    Com relação à afirmação de que o PT teria recebido deferências muito especiais da mídia no último quarto de século, considero haver aí um certo exagero. De fato, o surgimento do PT, no ocaso da ditadura militar, foi recebido por parte da mídia como um fato auspicioso, mas logo que esse partido passou a se colocar como uma alternativa de poder político as coisas mudaram. Acho que não dá para negar que a maior parte da imprensa apoiou os candidatos anti-petistas, a partir de 1990, quando o PT começou a disputar as eleições para presidente da República.
    Reconheço que a imprensa hoje se constitui um poder e que não foi ela que inventou a opinião pública, mas não sei com que direito alguns jornalistas emitem suas opiniões e expressam seus desejos parciais e preconceituosos (como são também os meus), tentando passar aos leitores que aquela é a ‘opinião pública’ e o desejo da ‘sociedade’. Afinal de contas o que é a ‘opinião pública’? Se alguém quer opinar, fale por si. Não dei procuração a nenhum jornalista para falar em meu nome.
    Esclareço que não sou do PT, embora a atuação parcial da mídia e da direita raivosa fez com que minha admiração por Lula e pelo seu partido crecesse.

  4. Comentou em 18/04/2006 Dilson Renan Souza

    Embora seja um admirador do Observatório e particularmente do jornalista Alberto Dines, não concordo com as colocações que ele faz nesse artigo.
    Acho que as as acusações de João Paulo à imprensa são compreensíveis e completamente cabíveis. A imprensa precisa reconhecer que é parcial. Aliás, todos somos parciais. E jornalistas, apesar de pretenderem o contrário, não são diferentes. Todos somos reféns de nossas ideologias e preconceitos e isso nos denuncia quando emitimos nossas opiniões. Não vejo isso apenas como ‘um desequilíbrio entre o destaque conferido às acusações e o espaço concedido à defesa’. É tentativa de manipulação mesmo.
    Não sei, por exemplo, como a imprensa poderia ser mais enfática com relação à indignação pela absolvição de João Paulo Cunha ou de outros deputados. Pelo menos todos os jornais que li na época deram manchete ao fato e o trataram com ironia, fazendo referências a ‘pizzas’ e relembrando a dança da deputada Ângela Guadagnin. Os jornalistas têm ‘torcido’ pela condenação dos deputados acusados e quando esses não são condenados ficam irados e tentam traduzir essa ira em protestos contra a absolvição. Por outro lado não vi nenhuma indignação quando o Arthur Vigílio e o ACM Neto ameaçaram esmurrar o Presidente. Pelo contrário…
    Com relação à afirmação de que o PT teria recebido deferências muito especiais da mídia no último quarto de século, considero haver aí um certo exagero. De fato, o surgimento do PT, no ocaso da ditadura militar, foi recebido por parte da mídia como um fato auspicioso, mas logo que esse partido passou a se colocar como uma alternativa de poder político as coisas mudaram. Acho que não dá para negar que a maior parte da imprensa apoiou os candidatos anti-petistas, a partir de 1990, quando o PT começou a disputar as eleições para presidente da República.
    Reconheço que a imprensa hoje se constitui um poder e que não foi ela que inventou a opinião pública, mas não sei com que direito alguns jornalistas emitem suas opiniões e expressam seus desejos parciais e preconceituosos (como são também os meus), tentando passar aos leitores que aquela é a ‘opinião pública’ e o desejo da ‘sociedade’. Afinal de contas o que é a ‘opinião pública’? Se alguém quer opinar, fale por si. Não dei procuração a nenhum jornalista para falar em meu nome.
    Esclareço que não sou do PT, embora a atuação parcial da mídia e da direita raivosa fez com que minha admiração por Lula e pelo seu partido crecesse.

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