Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > PESQUISA LATINOBARÓMETRO 2007

Mídia e poder na América Latina

Por Venício A. de Lima em 04/12/2007 na edição 462

Foram recentemente divulgados os resultados da pesquisa Latinobarómetro 2007 que é realizada há 12 anos pela Corporación Latinobarómetro, uma ONG chilena com sede em Santiago que pretende medir ‘as percepções dos latino-americanos a partir de sua realidade econômica e social’. Este ano foram feitas 20.212 entrevistas, entre 7 de setembro e 9 de outubro, cobrindo uma amostra representativa da população de cada um dos 18 países da região (exceto Cuba), cerca de 527 milhões de habitantes.

Dos relatórios anuais, em geral a grande mídia divulga os resultados da avaliação comparada dos presidentes da região, os índices de apoio à democracia, à iniciativa privada e à intervenção do Estado na economia. Por exemplo: o índice de apoio à democracia caiu de 58% em 2006 para 54%, em 2007.

O Latinobarómetro 2007 incluiu também uma alentada avaliação sobre o inédito ciclo eleitoral que está acontecendo no continente: onze eleições presidenciais realizadas entre novembro de 2005 e dezembro de 2006, seguidas em 2007 pelas eleições da Guatemala e da Argentina e, em 2008, pelas eleições no Paraguai (abril) e na República Dominicana (maio). O que chama atenção, no entanto, é a estranha ausência de qualquer referência sobre o papel da mídia nas características identificadas como centrais em todos esses processos eleitorais.

Quem exerce o poder?

Já comentei neste Observatório o livro lançado em agosto passado pela Fundação Friedrich Ebert (FES), na Colômbia [Se nos rompió el amor – Elecciones y medios de comunicación, América Latina 2006, disponível na íntegra aqui], exatamente sobre o papel da mídia nessas mesmas onze eleições presidenciais realizadas entre 2005 e 2006 (ver ‘Mídia e eleições na América Latina‘). A principal conclusão dos estudos apresentados no livro é que, em seis dessas eleições, saíram vencedores os candidatos a presidente que enfrentaram a cobertura jornalística adversa majoritária da mídia em seus respectivos países – Bolívia, Chile, Brasil, Nicarágua, Equador e Venezuela.

Se o tema mereceu a organização de um livro financiado pela FES, reunindo o trabalho de quinze pesquisadores, é de se supor que seja relevante. Afinal, a mídia ocupa uma posição de centralidade nos processos políticos das democracias contemporâneas. Ou não ocupa?

O longo relatório ‘A Democracia na América Latina – Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos’, preparado sob a coordenação do ex-chanceler argentino Dante Caputo para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e publicado no final de 2004 (ver aqui), traz os resultados de uma preciosa pesquisa, realizada entre julho de 2002 e junho de 2003, com 231 líderes latino-americanos. Esse relatório não teve, pelo menos no Brasil, a divulgação que merecia.

Foram ouvidos ‘líderes políticos que detêm ou detiveram o poder em seu máximo nível institucional, em chefias partidárias, parlamentares, funcionários de alto escalão ou prefeitos; protagonistas sociais em um amplo espectro que inclui líderes sindicais, empresários, acadêmicos, jornalistas, religiosos e dirigentes de movimentos ou organizações sociais; e membros das Forças Armadas’, entre eles 41 presidentes e vice-presidentes, no exercício do cargo ou anteriores. Em outras palavras, foi ouvida a elite econômica, política e intelectual da região.

Entre os obstáculos à consolidação democrática existentes na América Latina, a pesquisa do PNUD revela uma tensão entre os poderes institucionais e os poderes de fato. Os líderes consultados apontam, então, três poderes de facto que representam os riscos principais à consolidação democrática na região:

1. limitações internas decorrentes da proliferação de controles institucionais inadequados e da multiplicação de grupos de interesse que funcionam como poderosos lobbies, e externas oriundas do comportamento dos mercados internacionais, das avaliadoras de risco (de investimento) e dos organismos internacionais de crédito;

2. a ameaça do narcotráfico; e

3. os meios de comunicação.

Além disso, a primeira resposta à pergunta ‘quem exerce o poder na América Latina?’ dada por 79,8% dos entrevistados foi ‘os grupos econômicos/empresários/o setor financeiro’; e a segunda resposta, oferecida por 64,9% dos entrevistados foi ‘os meios de comunicação’.

Percepção dominante

Pergunto: não haveria, em muitos casos, superposição entre esses dois poderes de facto? Por exemplo: os grupos Televisa, no México, e Globo, no Brasil, não seriam ao mesmo tempo poderes econômicos e de mídia?

Além disso, o relatório afirma textualmente, com citações de políticos, jornalistas e sindicalistas:

‘Os meios de comunicação são caracterizados como um controle sem controle, que cumpre funções que excedem o direito à informação. `Formam a opinião pública, decidem as pesquisas de opinião e, conseqüentemente, são os que mais têm influência na governabilidade´ (político). `Atuam como suprapoderes, […] passaram a ter um poder que excede o Executivo e os poderes legitimamente constituídos, […] substituíram totalmente os partidos políticos´ (político). A maioria dos jornalistas consultados vê o setor econômico-financeiro e os meios de comunicação como os principais grupos de poder. Os meios de comunicação têm a peculiaridade de operar como mecanismo de controle e/ou limitação às ações dos três poderes constitucionais e dos partidos políticos, seja quais forem os proprietários desses meios. `A verdadeira vigilância que se exerce é a da imprensa´ (jornalista). Além disso, reconhecem que atuam como uma corporação que define os temas da agenda pública e que até traça a agenda presidencial. Em geral, os consultados consideram problemática a relação entre os meios de comunicação e os políticos. `Aqui a classe política os teme. Porque podem fazer desmoronar uma figura pública a qualquer momento´ (sindicalista). `A forma através da qual se construíram as concessões e os interesses com os quais se teceu toda a estrutura dos meios de comunicação os converteram em um poder´ (político).’

Se esta é a percepção predominante entre a elite da região sobre a mídia e seu poder, uma avaliação do ciclo eleitoral que se desenrola na América Latina não deveria contemplar o seu papel no processo democrático?

A elite latino-americana, certamente, faria esse reparo ao Latinobarómetro 2007.

******

Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor/organizador, entre outros, de A mídia nas eleições de 2006 (Editora Fundação Perseu Abramo, 2007)

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/12/2007 Marcelo Ramos

    Senhor Apolonio Silva, não tentei estabelecer nenhuma estrutura hierárquica, pois seria ridículo tentar isso num ‘lugar’ como esse. Mas tenho consciência de que, por estar pesquisando e filtrando informações há mais tempo, em meu caminho pessoal em busca da verdade, tenho tido acesso à informações que a maioria das pessoas não tem, talvez, exceto, os jornalistas do OI. Parte dessas informações (históricas) estão em meu último post. Se o senhor quiser fazer uso delas, ótimo, senão, faça como preferir. E se minha opinião lhe soa como um axioma, acho que o senhor deveria trazer hipóteses diferentes e tentar refutar. A pesquisa enfocada pelo professor Venício não deixa margem para dúvidas. No meu caso, a pesquisa apenas confirma, como mencionei antes, fatos dos quais eu já possuia percepção muito clara. Deixar de olhar esses fatos para apontar outros não é um argumento válido nem uma hipótese razoável. Também não faço defesa de Cuba e China, apenas eles não fazem parte da pesquisa. Inclusive, a discussão, no nível de Estados, não é ideológica no sentido romântico. USA comercia com China, Cuba e Venezuela. Essas discussões que abundam por aqui servem apenas para nos ‘entreter’.

  2. Comentou em 10/12/2007 Max Suel

    ‘…Governada por uma elite corrupta, que vendia o petróleo a preço de banana para os USA, também era usada como quintal de prostituição e jogatina. Logo que assumiu, Chavez entrou para a OPEP e ativou uma política de preços altos.’ ……. Pelo que me consta a Venezuela faz parte da OPEP muito antes do pres Chaves assumir o poder. E também: ‘ativou uma política de preços altos’ é uma inverdade total. O preço do Petróleo está alto não por causa de política da Venezuela e sim por muitas outras causas que não têm nada a ver com a Venezuela.

  3. Comentou em 10/12/2007 Fabio Passos

    A pesquisa do latinobarometro tem credibilidade suficiente para repercutir na The Economist… para os colonizados, fãs da mídia nacional, deveria funcionar ao menos como um ‘se toca’ para evitar escrever tolices. Incrível como a ‘grande’ mídia nativa não repercute. Por que será? Não é notícia? Ou a notícia não interessa aos oligarcas? É lamentável a falta de simancol dos papagaios de Willian Bonner… não entendem lhufas, mesmo com realidade tão evidente e a um palmo do nariz. Defender as manipulações grosseiras de Globo e Veja? Na frente de todo mundo? Tem toda razão aqueles que identificam parte da classe média como curral eleitoral dos grupos econômicos e da mídia. A classe média não foi educada… aparentemente foi adestrada.

  4. Comentou em 10/12/2007 Fabio Passos

    A pesquisa do latinobarometro tem credibilidade suficiente para repercutir na The Economist… para os colonizados, fãs da mídia nacional, deveria funcionar ao menos como um ‘se toca’ para evitar escrever tolices. Incrível como a ‘grande’ mídia nativa não repercute. Por que será? Não é notícia? Ou a notícia não interessa aos oligarcas? É lamentável a falta de simancol dos papagaios de Willian Bonner… não entendem lhufas, mesmo com realidade tão evidente e a um palmo do nariz. Defender as manipulações grosseiras de Globo e Veja? Na frente de todo mundo? Tem toda razão aqueles que identificam parte da classe média como curral eleitoral dos grupos econômicos e da mídia. A classe média não foi educada… aparentemente foi adestrada.

  5. Comentou em 09/12/2007 eustáquio fernandes

    Bela, no lugar de ter pena, reforce seus argumentos. Eu te pergunto: eu repito discurso da Globo e você, genial que é cria os seus, é independente e livre. Será isto? Ou você repete o que os partidos de esquerda produzem e seu professor de sociologia repercute?
    Faço a você, Bela, o mesmo desafio que fiz aos demais esquerdistas: miinha sugestão continua de pé: Por que você não vai comentar as notícias que relatam as dificuldades de jornalistas e da liberdade de expressão na China e na Coréia do Norte. Neste exato momento têm três notícias neste site sobre estes países. Vai lá e leve o CID junto ( e o Marco e a Bela) ; leiam e comentem e tentem convencer alguém que neles existe mesmo liberdade, que eles vivem democracia por lá e que aqui e na França e quem sabe nos EUA vive-se oprimido pela burguesia. E, parafraseando o próprio CID, duvido que ele acesse e comente notícias assim… Vê se acordam as pessoas fogem dos paraísos socialistas que vocês defendem e vão para o inferno capitalista…
    Vá lá, Bela, e acrescente algo de útil ao debate no lugar de escolher adjetivos que desqualifiquem os debatedores (coisa típica da esquerda: adjetivar por falta de substantivos… Seria fácil adjetivá-la com alguma coisa como esquerdista jurássica ou pré-cambriana, porém prefiro mostrar o atraso de suas idéias, por exemplo mostrando que muitos países as abandonaram por ineficientes)

  6. Comentou em 05/12/2007 Marcelo Ramos

    Prezados camaradas Wladimir Marcuse e Eustáquio Fernandes, olhar para um país como Cuba ao invés de olhar para o fato indicado na pesquisa equivale, citando a Bíblia, a olhar o argueiro no olho do outro deixando de ver a trave sobre o vosso olho. Essa atitude denota algo que os psicólogos chamam de… birra de criança. O artigo versa sobre mídia na mão da iniciativa privada e os desvios políticos/ideológicos, não da mídia estatal. A propósito, há canais de TV estatais em diversos países ditos ‘democráticos’ (França, Inglaterra, Itália). Os senhores também querem saber algo sobre o funcionamento destes canais? Ou só desejam fazer birra? A proósito novamente, esses canais funcionam muito bem, obrigado, e ninguém questiona se há liberdade de expressão nesses países. Novamente, a propósito da França, lá o presidente também pode se re-candidatar quantas vezes quiser… e ainda não vi nenhum dos senhores protestar contra Sarkozy, esse ‘ditador tirânico’. Qual é, acorda pessoal. Vamos dialogar, não vamos apenas ‘papagaiar’.

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