Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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JORNAL DE DEBATES >

Mobilização social e o poder do boicote

Por Valério Cruz Brittos e Ary Nelson da Silva Júnior em 30/10/2007 na edição 457

Os processos de significação de códigos e símbolos transcorrem essencialmente via meios de comunicação, o que é mais forte ainda no Brasil, sendo sua função, idealmente, além de entreter, promover o debate público, estimular a diversidade e incentivar condutas louváveis, afirmando valores positivos, como justiça, solidariedade e fraternidade. Os jornalistas e a mídia, enquanto instituição, desvendam e tornam públicos assuntos de grande importância para a nação, informações que guiam a população, gerando debate e repercussão, dinâmica facilitada pelo agudo mecanismo de interação estabelecido com a sociedade. O óbice é que as organizações promotoras e captadoras de tais dinâmicas desenvolvem tais movimentos preferencialmente de acordo com objetivos próprios, relacionando-se com a sociedade como parte do mercado e visando, como meta, ao lucro. O mais importante, o conteúdo, fica em segundo plano.


Neste quadro, por exemplo, o lançamento da campanha do Ministério da Saúde sobre os (grandes) problemas causados pelo excesso de bebida alcoólica gerou apenas notas curtas na mídia hegemônica. Não é absurdo relacionar a baixa divulgação ao maciço investimento do setor, especialmente das cervejarias, em publicidade. Em outras palavras, a pseudo-omissão não pode deixar de ser lida em conexão com os interesses diretos das emissoras, que certamente estão envolvidas com o estímulo ao consumo de bebida alcoólica, na medida em que têm excelente retorno econômico com este negócio. Mas e o papel social do jornalista, onde fica? O assunto em causa é de interesse público e merece ser debatido amplamente pela sociedade, já que o abuso de bebidas alcoólicas causa tragédias constantes.


Um passo importante


Esta é a realidade da comunicação e uma mudança mais substancial passa por muita mobilização social, o que não é uma tradição no país mas vem paulatinamente aumentando. Nesse quadro, há algo de imediato que pode ser feito, requerendo a participação da cidadania também de forma direta: o poder do boicote. O boicote é um direito da população, uma reação do povo diante do que contraria o todo social. Atingindo o lucro das empresas pode-se mudar gradativamente a postura dos meios de comunicação, o que, se não resolve o problema, pelo menos o atenua.


Foi através do boicote que Martin Luther King liderou o movimento pelos direitos dos negros na sociedade estadunidense. O ato de abster-se de usar ou comprar algo é uma forma de protesto, uma resposta contra as organizações que não têm responsabilidade social. Manifesta-se carência de consciência na hora em que se prestigiam empresas que usam o Brasil apenas como balcão de negócios, independentemente dos resultados públicos.


Deve-se ter consciência na hora que o consumidor está com o poder de compra e, para isso, é preciso, acima de tudo, coerência e determinação de cada um, embora se saiba que tal poder é relativo, já que as técnicas de criação de desejos e sedução de vendas envolvem a todos. Mas com passividade o futuro será pior, com mais desigualdade social e sem expectativas de melhora. Não obstante, se a pretensão for avançar qualitativamente o rumo da história, deve-se, urgentemente, usar o poder popular, inicialmente lançando mão do boicote ao que não serve de exemplo, o que, de alguma forma, incentiva aqueles que cercam seus negócios de uma tábua de referências positivas, já que serão beneficiados com o agregado de público (via aquisição direta e publicidade). Essa medida não encerra a questão, mas pode ser um passo importante para o avanço social.

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Respectivamente, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA; e graduando em Comunicação Social – Jornalismo na Unisinos, onde é bolsista de iniciação científica

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