Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FORA DE CONTEXTO

Monteiro Lobato não precisa de buzinadas

Por Julio Ottoboni em 03/03/2011 na edição 631

José Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté em 1882, Vale do Paraíba paulista e importante centro da economia cafeeira. Mas logo trocou de nome por causa de uma bengala e passou a assinar por José Bento, nome do pai que tinha as iniciais gravadas no cabo da peça. Herdou uma imensa fazenda de café na região da Serrinha do Buquira (atual cidade de Monteiro Lobato), a propriedade conhecida como São José do Buquira, ou Fazenda do Visconde ou ainda Sítio do Pica-pau Amarelo. Ele odiava o lugar, era um ser urbano, com pensamento cosmopolita, nascido em um berço oligárquico cafeeiro e criado para o mundo.


Monteiro Lobato era um gênio, não só para sua época, como para a atualidade. Ele ainda é insuperável na literatura, particularmente, infantil. Para esse jornalista brilhante, promotor público e um dos maiores expoentes da literatura nacional, nada pior que conviver com os serviçais caipiras e negros oriundos deste ciclo econômico numa fazenda no meio do nada, onde chovia demais e o acesso era péssimo. Confinado num imenso casarão – situação essa que possibilitou o surgimento de sua obra infantil aclamada em todo o planeta – não faltou oportunidade para blasfemar contra o universo ou criar obras fantásticas.


País hipócrita


Analisar o preconceito e os arroubos inflamados de Lobato fora do contexto de sua época é, no mínimo, um erro absurdo. Facilmente cometido, sem a menor cerimônia, num país hipócrita que se esconde sob rótulos. Colocá-lo como ‘bom escritor’ é então ignorar sua genialidade e os transtornos que essa condição lhe envolveu. Um ‘língua solta’, desmedido no que dizia, postura essa que o fez ser marginalizado por diversas vezes em sua própria época. Como ser impedido de ingressar na Academia Brasileira de Letras por duas ocasiões e ser preso por Getúlio Vargas. E isto não foi por seu preconceito racial, mas pela acidez de seus comentários e observações.


Lobato é muito mais um preconceituoso social – algo comum no Brasil, particularmente no final do século 19 e em grande parte do século 20, até a chegada do ‘politicamente correto’, e se esgueira nas entranhas de nossa pátria até o século 21. Ele trata tanto o branco ‘Jeca Tatu’ como o negro recém-saído das senzalas com a mesma voracidade. Basta ler o belíssimo trabalho dos pesquisadores Carmen Lucia de Azevedo, Marcia Camargos e Vladimir Sacchetta, publicado pela editora Senac, sob o título ‘Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia’. O melhor estudo feito sobre Lobato e sua intrincada personalidade, mas que em nenhum momento lança julgamentos sobre o pai de Narizinho e Emília sob os valores atuais. Pois seria um erro grosseiro e injustificável, como os cometidos desde que encontraram traços de preconceito racial na obra infantil do escritor.


Julgamento sem defesa


Não cabe a mim a defesa do pensamento lobatiano e suas transgressões, pois ele adorava uma polêmica e ironias, mas um alerta sobre o que é dito apenas nas entrelinhas das análises atuais – e que não se comece agora um julgamento sem direito a defesa. O Brasil é um país recalcado e mal resolvido em diversas frentes, e canalizar a Lobato a fúria de centenas de anos de preconceito e intolerância racial é burrice, é consolidar a hipocrisia como um valor da cultura nacional.


Com certeza, se Lobato estivesse vivo, apimentaria essa história. Isto era de seu espírito irrequieto, polemista e colecionador de admiradores e inimigos. Porém, não se colocaria disposto a ser buzinado por Chacrinhas ou as grosserias de Faustões. Afinal, se existia algo que ele não se ombreava era com a mediocridade. Isto é muito da nossa atualidade e realidade, coisa para essas celebridades instantâneas forjadas em Big Brothers. Como Tom Jobim, outro gênio brasileiro, afirmou: ‘No Brasil, o sucesso é ofensa pessoal.’

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/03/2011 Ricardo Camargo

    A questão não é varrer para debaixo do tapete o racismo de ‘Caçadas de Pedrinho’ – e, por sinal, chego a transcrever em artigo para o número 632 do OI passagens que mostram que a acusação é, no mínimo, precipitada -, mas sim a incidência em uma verdadeira falácia de ênfase, ao se reduzir a obra lobatiana a uma simples questão racial, esquecendo que ela se volta, muito mais, a questões como a do combate a pseudo-técnicos que insistiam em dizer que não existia petróleo no Brasil (Lobato foi preso pelo Estado Novo por ter escrito, dentre outros, precisamente O poço do Visconde, no qual contrariava os interesses dos trustes do petróleo), a da valorização da criança como um potencial em si mesmo e não como um simples papel em branco à espera de que Deus ou o Diabo nela escrevesse à vontade, a da possibilidade de uma relação entre adultos e crianças que não se fundamentasse no binômio terror/culpa, a da falibilidade do julgamento humano e a tendência natural dos maus juízes a propenderem para o mais forte, como se o mais fraco o fosse por uma verdadeira maldição divina.

  2. Comentou em 06/03/2011 Marcia Silva

    Olá Julio,
    Gostei de ler o seu texto, contudo tenho discordâncias quanto ao seu posicionamento a respeito desta ‘polêmica’ acerca do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Em primeiro lugar, dizer que ele era mais um preconceituoso social não é correto, visto afirmações do próprio de ser a favor da eugenia – tanto negros quanto os pobres estavam em sua mira nesta questão – ele chegou a fazer parte de clubes relacionados com esta temática, que visavam ‘acabar’ com a ‘raça negra’, pois consideravam que a mistura seria uma degeneração. Este pensamento não era só dele, isto é fato, havia outros sujeitos ilustres de mesma opinião. Mas o que quero destacar é que o preconceito racial nele era forte sim. Ele chegou a afirmar em cartas a um amigo que a escrita era a forma dele de eugenia. Ora, isto não seria preocupante, visto que os livros dele tem como público alvo as crianças? Gostaria ainda de ressaltar a história do livro ‘O presidente negro’ com uma história, que me perdoem, é revoltante, ok? Acho importante também colocar que a obra não será censurada, e aqueles que ficam ostentando uma mentira como essa, na minha opinião, querem é jogar a discussão sobre o racismo deste texto para debaixo do tapete. O que se trata é acrescentar uma nota ao livro. Isto é tão ofensivo assim? Já há uma nota referente a caça de onças no livro.

  3. Comentou em 03/03/2011 Mauro Malin

    Arnaldo Bloch publica hoje frases tiradas da correspondência de M. Lobato que vão muito além do racismo usual brasileiro. A primeira: ‘Mulatada, em suma (…) País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Kan é país perdido para altos destinos. (…) Um dia se fará justiça ao Klux-Kan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca — mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva’. Carta para Arthur Neiva, Nova York, 1928. Tem outras frases do gênero.

  4. Comentou em 03/03/2011 Sabrina Guerghe

    O maior problema é a leitura de Monteiro Lobato entre crianças de 6 a 12 anos que ainda não formaram senso crítico o suficiente, até porque não possuem instrumentais para tal, e, portanto, não conseguem realizar análises como o autor desta coluna.
    Nós, adultos, entendemos o conceito de alteridade e conseguimos observar e perceber o contexto da escrita, os motivos que influenciaram e circundaram Monteiro Lobato, o ethos.
    Acho que o foco da discussão está distorcido. É de suma importância pensar quem é o receptor de tais informações e observar quais os impactos disso.

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