Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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JORNAL DE DEBATES > VIOLÊNCIA E MENTIRAS

Mosaico de mundos e de significados

Por Marcilene Forechi em 01/02/2005 na edição 314

‘A violência não existe nem pode existir por si só; está, invariavelmente, entrelaçada com a mentira.’

Não tinha conhecimento do escritor russo Aleksandr Soljenitsyn, autor da frase acima, até ler um texto do jornalista e professor universitário Manoel Carlos Chaparro, no portal Comunique-se (www.comunique-se.com.br), no qual ele mostra como a mentira está associada à violência. Sob o título ‘A violência viceja na mentira da mídia’, Chaparro fala de como a Rede Globo usa a competência do seu jornalismo para vulgarizar e teatralizar o discurso da violência no programa Linha Direta.

Partindo da análise do professor – que aponta dois tipos de violência, urbana e política –, levanto algumas questões sobre as mentiras presentes na mídia e questiono se não seriam elas, ainda que não diretamente ou no sentido clássico, atitudes de violência contra o bom senso e a postura crítica que o cidadão deve adquirir ao longo de sua vida.

Em seu texto, Chaparro explica de que forma podemos perceber a mentira entrelaçada na notícia e de como é difícil percebê-la, partindo da suposição de que a informação publicada ou veiculada em meios de comunicação é a representação de um fato. Como bem lembra Pedro Goergen, poucas vezes nos damos conta de que a leitura de um jornal é sempre a leitura de uma leitura. Segundo ele, a realidade, os acontecimentos são apresentados previamente selecionados, lidos, interpretados. ‘Algo é retirado de um determinado contexto, moldado e transferido para um outro, no qual ganha novos sentidos e relevâncias’.

Duas reportagens publicadas com dois dias de intervalo no jornal A Gazeta servem bem para ilustrar o tipo de mentira a que me refiro. Na primeira delas, publicada no dia 24 de julho de 2004, o título lembra algum programa assistencial de governo que trata de inclusão social: ‘Jovens aprendizes do crime atacam mais residências e lojas’. Logo abaixo, no ‘olho da matéria’, a informação de que cresceram em 64% os casos de roubos, arrombamentos e furtos praticados por adolescentes. Dois dias depois, 26 de julho, a pergunta dá corpo ao título: ‘Você tem medo de quê?’, alusão não mais a jovens assistidos por programas assistenciais, mas a uma música do grupo Titãs.

Ao contrário da outra matéria, não há dados estatísticos no olho, mas a informação de que os proprietários de imóveis com melhor poder aquisitivo lançam mão de alarmes e sistemas de segurança capazes de inibir a ação de criminosos. Uma analise superficial deixa a impressão de que na primeira reportagem mostra-se o problema; na segunda, aponta-se a solução. O problema: os jovens infratores que aterrorizam a população; a solução: equipamentos de segurança que mantenham os infratores (criminosos) a distância.

Mentiras e imaginário

Simples e óbvio, as duas reportagens levam a crer. Mas é exatamente nesta simplicidade e na aparente falta de relação entre elas que reside a mentira da informação publicada. Partindo da idéia de que a leitura que fazemos é sempre a leitura da leitura que alguém já fez, poderia afirmar que também a interpretação que faço encontra-se entrelaçada a muitas outras. Posso dizer que não há comunicação na leitura de uma informação veiculada no jornal; há uma tomada de consciência, uma vez que o indivíduo passa a fazer parte daquele fato deslocado e apresentado sob a forma aparente de uma verdade absoluta e inquestionável.

O fato é que os comerciantes têm medo dos jovens ‘delinqüentes’ e procuram se defender instalando mecanismos de segurança e contratando segurança particular. Não há nenhuma relação explícita entre as duas reportagens. Não há também, em nenhuma das reportagens, menção a outras questões ligadas à segurança pública e à violência, tampouco à origem desses jovens ou à competência do Estado nas suas atribuições de prover o bem-estar social. Ao contrário, o assunto é tratado como se fosse natural que jovens sejam aprendizes do crime e natural que a população de melhor poder aquisitivo lance mão dos recursos que pode para resolver um problema da qual ela não é apenas vítima.

Nesse caráter meramente descritivo ou na forma como a violência é percebida pelos jornalistas, principalmente quando há crianças e adolescentes envolvidos, reside uma série de mentiras, que passam, uma vez publicadas, a povoar o imaginário da sociedade.

Mitos reforçados

Estudo denominado ‘Balas perdidas’, desenvolvido pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) no período de 1º de junho de 2000 a 30 de junho de 2001, mostra que, apesar de seguir evoluindo na qualidade das reportagens que produz, o jornalismo ainda está longe de ser parceiro da sociedade no enfrentamento da violência quando há crianças e adolescentes envolvidos. Entre as conclusões apontadas pelo estudo está a de que a violência não é tratada como fenômeno social pelos meios de comunicação, mas como uma mera sucessão de casos. Os boletins de ocorrência (BOs) dominam a pauta dos noticiários diários e o tema é tratado como caso de polícia, tendo como principais fontes delegados, policiais e parentes das vítimas ou dos agressores.

De todo o material analisado na pesquisa, pôde-se constatar que 80% das matérias surgiram a partir dos BOs. Constatou-se ainda que 80% das inserções apresentaram enfoques descritivos dos crimes, e menos de 8% descreveram as causas do ato violento, sendo que um terço dos 8% apresentou algum tipo de solução ou apontou algum caminho para resolver o problema. A pesquisa da Andi aponta ainda os três mitos existentes na imprensa sobre juventude e violência: hiperdimensão da delinqüência, periculosidade e impunidade do adolescente. Esses mitos, por serem repetidos e nortearem as coberturas jornalísticas, acabam por contribuir para moldar formas de pensar e de agir da sociedade.

A grande maioria dos atos infracionais praticados por jovens, cerca de 75%, é de crimes contra o patrimônio, e não homicídios. Esta, no entanto, não é a realidade que aparece nos jornais, de acordo com o ‘Balas perdidas’. Reforçando o mito da periculosidade, a pesquisa constatou que 30% das reportagens sobre violência envolvendo adolescentes referem-se a casos de homicídios. Os furtos aparecem em apenas 2% das inserções. O mito do hiperdimensionamento decorre da descontextualização das notícias sobre criminalidade. Os adolescentes são responsáveis por 10% do total de delitos praticados e cerca de 60% deles ocorrem sem ameaça de violência.

Nas páginas, outros mundos

A falta de contexto oferece uma realidade que poderia ser chamada de falsa. Uma mentira que tem no uso inadequado das palavras – o emprego de roubo e furto como sinônimos, por exemplo – aliado poderoso e eficaz. Parece não haver critérios para que se diga quem é jovem, quem é adolescente, quem é menino/menina, quem é menor, estudante etc.

Ciro Marcondes Filho, ao traçar um panorama do jornalismo desde o seu surgimento, no livro O espelho e a máscara: o enigma da comunicação no caminho do meio, fala dos lugares que a mídia tem ocupado na sociedade. Ele afirma que, apesar de ser bem mais velha, a imprensa passou a ocupar lugar de destaque após a Revolução Francesa. Para ser um cidadão ativo, não bastava votar – como não basta até hoje; era preciso estar bem-informado. Vem daí, diz Marcondes Filho, o status da imprensa como espaço inalienável da democracia. Vem desta época também o mito do jornalismo como espelho da sociedade.

O jornalismo passou a ocupar, segundo ele, um ‘campo intermediário em que o real era embalado e vendido como ficção’. Ao fragmentar os fatos, como nas duas reportagens citadas acima ou como aponta o estudo ‘Balas perdidas’, e remontá-los de forma aleatória nas páginas dos jornais, são construídos outros mundos que competem com os mundos individuais de cada um. Não é possível conceber que um jovem de classe média leia e interprete a informação dos jovens aprendizes do crime da mesma forma que um outro que more na periferia e dependa de um programa assistencial do governo para freqüentar a escola.

Discurso seletivo

A verdade passa a ser um atributo da atividade jornalística, e não do que ocorreu num determinado momento e contexto. A imprensa, ao pretender uma objetividade e imparcialidade que escondem os mecanismos de sua rotina de produção e de sua intencionalidade, age de forma a dificultar a compreensão do todo, deixando apenas insinuar o que há por trás das versões que apresenta. Há que se perguntar não mais o tipo de influência que a comunicação exerce sobre as pessoas; é preciso perceber o que as pessoas fazem com as informações que recebem.

Não tenho ilusões de que estas reflexões possam, em curto prazo, chegar a fazer parte da agenda da mídia ou da pauta da educação. Mas não tenho dúvidas de que é urgente pensar a comunicação e a informação como algo mais do que um sistema ou instrumento. E a relação sociedade-mídia muito mais do que uma relação de consumo, no sentido em que a notícia é vista como um produto, que tem preço e vida útil curta. Deve ser consumida rápido, antes que se esgote o prazo de validade.

Talvez, num ato de extrema ousadia ou de irresponsabilidade, poderia dizer que a imprensa, assim como a ciência, se constitui num discurso regular que seleciona, organiza e redistribui verdades. Os fragmentos de um fato, relatados de modo a pretender dar conta de sua totalidade, podem ganhar diferentes usos dependendo dos atores que os consomem e do momento em que o fazem.

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Jornalista e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Ufes, Vitória

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