Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > LEITURAS DA UDR

MST, vida e mídia severina

Por Gilson Caroni Filho em 30/11/2004 na edição 305

Muito se falará ainda do dia 20 de novembro de 2004. Cinco trabalhadores rurais foram executados por 15 pistoleiros encapuzados, em Felisburgo, interior de Minas Gerais. A chacina, ocorrida num acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), aciona as sirenes da grande imprensa. Mais uma vez, invertendo-se fatos para obnubilar consciências, editoriais debitam o massacre na conta da política de reforma agrária do governo e na ação do MST. Mas o impensável, porque óbvio, estava por vir. No dia 23, o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Rolf Hackbart, responsabilizou o agronegócio pelo aumento de violência no campo.

Foi o bastante para deflagrar um movimento há muito não visto nas oficinas de consenso da grande imprensa. Tomada como acinte contra o Estado de Direito, a afirmação de Hackbart foi criticada à exaustão, em telejornais e publicações impressas, por lideranças de entidades ruralistas. Os velhos recortes construídos pela mídia a respeito dos movimentos sociais reocuparam seu lugar cativo em telas e páginas. Conhecidos colunistas e editoriais inflamados trataram de azeitar casamatas e trincheiras do velho bloco histórico. O que estava em jogo era o processo hegemônico, aqui entendido como universalização dos interesses dominantes, o ‘consenso espontâneo’ dos segmentos subalternos, o controle do senso comum. O risco de perder a possibilidade de pautar a ação governamental pelo jogo recorrente. Aquele em que os elogios à condução da política econômica são feitos simultaneamente aos ataques desferidos contra setores do governo que ainda se empenham em resgatar os princípios enunciados na campanha eleitoral.

Se no passado, antes do golpe militar, a vulgata da esquerda tradicional acreditou na possibilidade de uma burguesia nacionalista disposta a confrontar o latifúndio, o século 21 começa com uma nova representação tão quimérica quanto cínica em seu processo social de construção. No afã de apoiar a modernização conservadora do campo, a mídia elevou o agronegócio (agrobusiness) à condição de estrela de primeira grandeza. Com o ministro da Agricultura à frente, nossos editorialistas criaram o latifúndio progressista. Se alguém objetar, destacando tratar-se de uma contradição em termos, um lógico da monocultura retrucará que não há paradoxo numa atividade que, supostamente, representaria 34% do PIB nacional e responderia por 42% das exportações brasileiras. E pouco importa que Romário Rosseto, coordenador dos pequenos agricultores, tenha números totalmente distintos. Afinal, O Globo, O Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo existem exatamente para que tais atores não disponham de espaço discursivo.

Movimentos sociais que se disponham a agenciar demandas de setores excluídos, a apresentá-los como sujeitos dotados de direitos são, a priori, não-notícia. A menos que sejam envoltos em prática de significação que rotule como baderneiros todos os que se apresentem como contrapoder às relações de expropriação e dominação, viabilizadas pelo ordenamento legal existente.

Como se faz a ‘modernização’

Talvez, para melhor entender o caráter classista do discurso jornalístico, o melhor seja tentar expor o que é escrito somado ao que está na área do interdito, do maldito, da realidade que deve ser falseada para reprodução mais segura do ordenamento societário. Nunca é demais repetir o que Marx tão bem assinalou: ‘A formação social que não se reproduz ao mesmo tempo em que produz desaparece’. É, portanto, como trabalho de funcionários superestruturais que os textos abaixo devem ser compreendidos. Entendamos que, parafraseando verso de Drummond, no meio da ação da mídia tinha duas pedras. Tinha duas pedras no meio da ação da mídia: Hackbart, o profano, e Miguel Rosseto, ministro do Desenvolvimento Agrário, que insiste em enxergar a linha do atraso. Eis, em sua inteireza, o editorial da Folha, publicado em sua edição de 25/11:

Os ataques verbais ao agronegócio desferidos pelo presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, em palestra proferida anteontem, não são um fato isolado no governo federal. Também o titular do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Miguel Rossetto, não tem poupado esse ‘adversário’, que ele classifica de ‘latifúndio monocultor’. No entender do ministro, não poderiam ser considerados modernos os empreendimentos agrícolas que vêm obtendo ganhos crescentes de produtividade e contribuindo de maneira decisiva para os saldos da balança comercial brasileira.

Moderno, na sua opinião, é ‘terra bem distribuída’.

É sintomático – e escandaloso – que Hackbart se sinta à vontade para afirmar que o Incra e o MDA ‘têm lado’. Ou seja: os dois órgãos públicos federais defendem o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) contra o agronegócio.

O ministro do Desenvolvimento Agrário e o presidente do Incra cumprem hoje duas funções essenciais. De um lado, administram a tutela do movimento sem-terra por parte do governo. De outro, promovem a instrumentalização da máquina pública com vistas a ‘acumular forças’ para uma futura ‘revolução’ rural.

O ‘modelo’ agrário com que sonham poderia ser descrito como uma espécie de cooperativismo nostálgico envolto em harmonia cristã. Quanto a isso, não se pode esquecer a contribuição que o presidente da Pastoral da Terra, dom Tomás Balduíno (também sempre a pregar contra o agronegócio), tem oferecido ao arcabouço doutrinário de seus colegas do Incra, do MDA e do MST.

Não há dúvida de que o desemprego no campo e na cidade constitui um gravíssimo problema e que a reforma agrária deveria cumprir o papel de promover a inclusão social, colaborando para oferecer alternativas econômicas às famílias rurais que não encontram meios de sustento.

Nada disso, porém, justifica a posição regressiva e reacionária que o MST e seus auxiliares governamentais e clericais têm assumido em relação ao agronegócio.

Ao que parece, a Folha se despiu de veleidades progressistas e pretende subtrair do Estadão seu leitor de extração mais conservadora. Escandaloso não seria se um ministro com militância de esquerda não percebesse mais quem é seu adversário no embate ideológico? E quem disse que o MST é contra o agronegócio? Não fosse a deliberada vontade de distorcer os fatos, o editorialista poderia ter recorrido à revista Caros Amigos, de 18 de setembro de 2003. Lá , com todas as letras, João Pedro Stédile, um dos coordenadores nacionais do MST, diz em entrevista concedida a Marina Amaral:

‘Se você quiser distribuir renda e fazer com que o agricultor aumente sua renda, tem de levar a agroindústria para o meio rural e de forma cooperativada. Por isso é que a reforma agrária tem que ser feita com agroindústria, democratização da educação e um pacote tecnológico que desenvolva e fomente técnicas agrícolas adaptadas ao meio ambiente, adaptadas á região e ao tipo de estrutura produtiva.’

Stédile diz ainda que ‘o modelo atual, além de altamente concentrador, pretende controlar a agricultura através de sementes transgênicas’. E mais: ‘Das grandes agroindústrias brasileiras só sobrou a Sadia, todas as outras foram desnacionalizadas. O controle do comércio agrícola está nas mãos da Cargill, Bunge e Monsanto’. E conclui com uma informação preciosa: ‘Vou dar um exemplo que me foi contado por Carlos Lessa (então presidente do BNDES): um dos últimos projetos que o banco financiou, na gestão passada, em 2002, foi para a Nestlé modernizar a captação de leite em Minas Gerais. Pois bem, antes do início do projeto, a Nestlé tinha 58 mil famílias de pequenos agricultores integradas vendendo leite. Quando terminou a ‘modernizaçao’ sobraram 12 mil famílias. Ou seja, a modernização excluiu 30 mil famílias usando dinheiro do FAT, o Fundo de Amparo ao Trabalhador’.

Latifúndio e redenção

Será esse o modelo que a Folha defende? Todos sabemos que os complexos midiáticos são estruturas empresariais que vão além do campo noticioso. Será, e a indagação é legítima, que a Folha estaria associada a algum grupo que não esteja interessado em ‘cooperativismo nostálgico envolto em harmonia cristã’? Mas se o editor do diário paulista tivesse se dado ao trabalho de ler também o artigo de Ronaldo Caiado, no site da UDR, certamente notaria semelhança entre as premissas dos dois textos. Vejamos o que escreveu o deputado do latifúndio:

Ficou então nítido que o que movia o MST e os demais movimentos a ele coligados e ao PT não era o aspecto social da questão agrária, mas, única e tão-somente, seu conteúdo político-ideológico. Durante bom tempo, o furor do MST foi contido, porquanto essa garantia constitucional passou a existir, o Judiciário expedia ordens para garanti-la e os governos costumavam cumprir tais decisões, como convém, aliás, a um legítimo Estado Democrático de Direito.

A partir de então, a ênfase da luta ideológica do MST e da esquerda centrou-se na tentativa de contornar ou mitigar o alcance, ou a real eficácia e implementação, da garantia constitucional da terra produtiva.

Seu método operacional, aplicados alunos que são dos manuais políticos de Antonio Gramsci, é recorrer a expedientes democráticos para, pela infiltração silenciosa na intelectualidade, na educação da juventude e nos meios de comunicação, e também pelo suborno e pelo aliciamento de parlamentares e lideranças políticas, quando isso se faça necessário, ir solapando as vigas estruturais da democracia até um ponto em que, em termos reais, se esteja em presença de uma ditadura travestida de democracia.

Desnecessário falar do uso totalmente indevido de Gramsci. Mas a similitude entre o texto de Caiado e o editorial da Folha impressiona. O ‘método operacional’ atribuído a integrantes do governo no artigo do ex-presidente da UDR e o ‘acumular forças para uma futura revolução rural’, vislumbrado no texto do jornal, não são expressões da mesma lavra ideológica? E então? Quem assume uma ‘posição regressiva e reacionária’? O MST ou a mídia que procura detratá-lo? A título de curiosidade reproduzimos o desfecho do artigo do parlamentar goiano.

‘É hora de reagir. Onde não houver escolha senão entre a covardia e a violência, aconselharei a violência. Essa frase não é minha. É de Mohandas Karamchand, que o mundo conheceu como Mahatma Gandhi.’

Agora o leitor do Observatório sabe quem norteia a ação da UDR: Gandhi. Nada como o tempo para que revelações surpreendentes apareçam.

Outro texto selecionado foi um pequeno trecho da coluna de Dora Kramer, publicada na edição de 26/11: ‘Como Hackbart disse o que disse não por acidente retórico, mas por convicção ideológica, visão de mundo e concepção de trabalho, a irritação e o pensamento do presidente da República não alteram o fato: na prática, aceita a assessoria de detratores do desenvolvimento nacional’. Por silepse entende-se que o latifúndio virou sinônimo de redenção nacional na argumentação da jornalista.

Nem uma linha

O MST, movimento de maior expressividade na América Latina, não aparece no noticiário com a magnitude dos seus feitos. Silencia-se o trabalho pedagógico feito em acampamentos e assentamentos de todo o país. Um processo que absorve cerca de 160 mil alunos e quase 4 mil educadores em 23 estados, possibilitando o surgimento de 1.800 escolas de ensino fundamental. Milhares de famílias incluídas, êxitos incontestes apesar da timidez de uma política efetiva de créditos

O Ministério do Desenvolvimento Agrário não conseguiu assentar as 115 mil famílias previstas para 2004. A meta não será cumprida, segundo João Paulo Rodrigues, da direção nacional do MST, porque o Ministério da Fazenda não quis liberar recursos para a reforma agrária. No início do ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu acrescentar R$ 1,7 bilhão ao orçamento do MDA, fixado em R$ 1,4 bilhão. Até novembro, apenas R$ 600 milhões tinham sido liberados. O restante foi bloqueado por decisão do Ministério da Fazenda para garantir o superávit primário de 4,5% do PIB para 2004.

Enfim, ainda vivemos uma estrutura fundiária forjada na triste Lei das Terras, de 1850. Os que a ela se opõem não dispõem de uma estrutura informativa sólida e ampla.

Não será com empresas familiares de jornalismo em conluio com interesses transnacionais que o patrimonialismo e o atraso serão combatidos. O caminho é longo e penoso, como mostram os fatos recentes. Cecília Meirelles continuará diagnosticando com precisão a sina da iniqüidade. Os versos do agronegócio tão apreciado por colunistas de economia e consultores de grandes bancos.

‘Toda vez que um justo grita

um carrasco o vem calar.

Quem não presta fica vivo,

quem é bom mandam matar.’

E não sai uma linha nos melhores jornais do ramo. Nem um mísero editorial, um artiguete que seja.

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Professor-titular de Sociologia da Facha-RJ

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