Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > TEMPOS MODERNOS

Mudança de plataforma e a audiência

Por Luciano Martins Costa em 07/07/2012 na edição 701

Comentário para o programa radiofônico do OI, 6/7/2012

 

Os investimentos das empresas tradicionais de comunicação em plataformas multimídia começam a dar resultados na capacidade de entregar informações e produtos de entretenimento a novas gerações de usuários.

Os grupos Abril, Estado e Folha de S.Paulo já fornecem conteúdos diversos e integrados para seus leitores das versões em papel, também no formato digital destinado a usuários de computadores e tablets. Segundo fornecedores de tecnologia que estão atendendo essas empresas, está em curso um grande esforço de atualização no sentido de recuperar o tempo perdido com projetos tímidos e conservadores.

Depois de alguns anos de resistência em aceitar o fato de que o núcleo do negócio tem que se deslocar para as mídias digitais, os gestores dessas empresas acabam entendendo que a matriz precisa mudar. Contribui para essa aceitação o desenvolvimento de novos sistemas multiplataformas que permitem fazer uma vez só o trabalho de edição, acabando com o retrabalho de editores e arquitetos de informação – o novo nome do antigo diagramador.

Por outro lado, segue vivo o desafio de modernizar e descentralizar os processos de decisão nas redações multimídia.

Tempo de exposição

Em termos de tecnologia, as opiniões convergem para a ideia de que o modelo a ser seguido é o dos tablets, ou seja, o conteúdo jornalístico deverá ser preparado para a mídia mais dinâmica entre todas as disponíveis.

Com o tempo, não apenas os computadores de mesa, mas também os portáteis e mesmo os aparelhos de televisão tendem a oferecer as mesmas funcionalidades do tablet, com telas sensíveis ao toque e conexão sem fio entre todos os aparelhos. Os profissionais que produzem aplicativos para os pequenos aparelhos móveis já trabalham com a perspectiva de chegada ao mercado da televisão inteligente da Apple, esperada para meados do ano que vem.

No entanto, segue presente nas redações um conjunto de desafios que não tem relação direta com tecnologia. O principal deles é a hipótese de que os novos sistemas de publicação multiplataformas só alcançam a melhor produtividade com processos mais ágeis de decisão. Portanto, a primeira questão que se coloca se refere à disposição das empresas tradicionais de alterar o sistema verticalizado de edição para aproveitar melhor todos os recursos que têm à disposição.

Há outro desafio tão ou mais importante: como se diz entre os gestores de mídias digitais, a beleza no retrato faz vender a moldura. Com isso, quer-se significar que as empresas precisam entregar conteúdos que tenham um real valor percebido pelo público. E essa escala de valores é muito diferente para os usuários de tecnologias dinâmicas, instantâneas e ubíquas do que era para os leitores da mídia papel ou os telespectadores da TV tradicional.

Uma das questões a serem observadas é a maior capacidade de retenção de signos em menor tempo de exposição, já observada nas novas gerações de usuários. Além disso, já é predominante entre os jovens, inclusive no Brasil, o hábito de assistir televisão ao mesmo tempo em que consultam seus smartphones ou tablets.

É sabido que, até o advento da internet, o tempo médio de atenção do leitor de jornais, revistas e livros era concentrado em ciclos de vinte minutos. A observação dessa característica determinou a mudança dos ciclos de dramaturgia, por exemplo, no cinema e na televisão, no final do século passado.

Isso estaria na raiz do rápido desenvolvimento do cinema de ação nos Estados Unidos, com ciclos de cenas rápidas, trechos mais lentos e cortes pensados para acelerar e prender a atenção dos espectadores.

Questão de qualidade

Nos novos meios que agregam texto, áudio e vídeo, o tempo médio de concentração caiu para ciclos de 9 segundos, o equivalente ao período que um peixinho de aquário consegue manter o olhar fixo num objeto. Mas ao contrário das anedotas que tal observação poderia suscitar, aumentou muito a capacidade de interpretação de signos por parte dessa geração nascida ou educada no ambiente digital.

Embora ainda haja muitas controvérsias entre os especialistas em teorias da comunicação sobre as características desse público, é sabido que o público do futuro, que já tem grande peso como alvo do mercado publicitário, possui uma capacidade de processamento de informações proporcionalmente inversa à sua disposição para observar uma mesma fonte de estímulo sensorial.

É nessa direção que apontam os investimentos das empresas tradicionais nas novas plataformas de entrega de informação e entretenimento.

A questão principal, porém, segue sendo a qualidade do conteúdo.

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