Terça-feira, 24 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº983
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JORNAL DE DEBATES > CASO ISABELLA

Multidões integradas ao espetáculo

Por Eugênio Bucci em 25/04/2008 na edição 482

Há 14 anos, em artigo para a revista Imagens, então publicada pela Unicamp, usei pela primeira vez a expressão ‘fator Leo Minosa’. Recorri a ela para designar um efeito específico que as coberturas sensacionalistas podem causar na audiência: o de promover a aglomeração de multidões nos locais onde um crime ou uma tragédia aconteceram – ou onde um assassinato é apurado, debatido ou julgado. Agora, nesta semana, ‘folheando’ a internet, encontrei outra vez essa mesma expressão, desta vez invocada por outros que não eu, a propósito da intensa mobilização popular em torno da morte da menina Isabella Nardoni – fatalidade sobre a qual o leitor já está mais do que informado.


Surpreendido pelo reaparecimento do fator Leo Minosa, volto eu também a ele. Não porque haja algo que me caiba falar sobre o assassinato de uma garotinha de 5 anos de idade, mas pelo que o episódio reitera sobre o estatuto das multidões, grandes ou pequenas, em sociedades integradas por meios de comunicação de massa, eletrônicos ou não. É curioso observar como a internet – que, ao menos em tese, contribuiria para dissolver a antiga categoria da massa em múltiplos agrupamentos menores, cada qual com sua predileção – não revoga as marcas e as leis naturais mais profundas da comunicação… de massa. A despeito de tantas inovações, ainda somos, ao menos em parte, uma sociedade regida por velhos padrões de comunicação – e o sensacionalismo é uma afirmação enfática dessa verdade incômoda.


Embora as novas possibilidades tecnológicas da internet tenham acentuado a autonomia individual e propiciado o fracionamento do público numa gama virtualmente infinita de temáticas e focos de interesse, as massas, as velhas massas, às vezes voltam a ganhar a cena pública, exatamente como há 15, 30, há 60 anos. Como para avisar que não morreram. É o que o fator Leo Minosa nos mostra.


A condução do circo


Esse nome, Leo Minosa, vem do personagem de um filme clássico de Billy Wilder, lançado nos Estados Unidos em 1951, A Montanha dos Sete Abutres (The Big Carnival). O próprio Wilder assina o roteiro, em parceria com Lesser Samuels e Walter Newman. Kirk Douglas interpreta Charles Tatum, um repórter sem escrúpulos que, já em declínio, consegue um posto de repórter num jornalzinho da pequena cidade de Albuquerque, no Novo México. Mesmo ali, no seu pequeno fim de mundo, ela espera que surja uma grande história para projetá-lo nacionalmente e elevá-lo ao estrelato da imprensa. Sua chance de ouro aparece quando, num lugarejo ali perto, um jovem fica preso dentro de uma caverna, com as pernas soterradas por um desmoronamento. O jovem passa bem, mas só se conseguirá safar se alguém retirar as pedras que pesam sobre suas pernas.


A caverna fica numa montanha considerada sagrada pelos indígenas e já há os que acreditam que o rapaz ficou preso ali porque os espíritos queriam vingar-se dele. Tatum logo reconhece o imenso potencial sensacionalista da situação. Habilidoso, o jornalista consegue retardar o resgate e, em questão de dois dias, a história se converte em comoção continental.


O xerife local começa a ver vantagens na exposição do caso e se alia a Tatum. Repórteres de todos os cantos do país chegam à Montanha dos Sete Abutres. Com eles vem a multidão sedenta de sensações, pronta para seguir de perto os lances mais emocionantes. Tatum conduz seu circo de modo calculado, submetendo a seus planos o destino do rapaz aprisionado. O nome do rapaz é Leo Minosa (vivido por Richard Benedict) e o show está apenas começando.


Fazer acontecer


Voltemos ao Brasil dos nossos dias. As imagens de centenas de manifestantes no meio da rua cantando ‘Parabéns a você’ para Isabella no dia em que ela completaria 6 anos, com bolo de aniversário e tudo, trazem de volta, com exatidão, a trama de Billy Wilder. Não que exista um cérebro maquiavélico regendo a seqüência das revelações. Não que exista alguém à beira da morte, como Leo Minosa. Hoje, o que temos é a lógica automática do espetáculo conduzindo o reality show a céu aberto. Não há maestro, mas há, sim, uma partitura sendo executada.


De sua parte, a multidão não foi atraída pelo suspense de saber se uma pobre alma soterrada sobreviverá ou não, mas, movida pela fome aparentemente sagrada de justiça, grita para apressar o desfecho da novela. Ela reivindica o clímax a que julga ter direito. O que agoniza em praça pública não é mais a vítima da violência, mas a reputação dos suspeitos. As massas querem sangue – físico ou moral, tanto faz. Elas não amam ninguém – não amam Isabella nem amavam Leo Minosa. Elas amam alucinadamente o êxtase das tragédias.


Ao lado disso, ou acima disso, amam a sensação de ser aceitas no espetáculo, um amor infantil. Seguram o bolo para Isabella diante das câmeras com a mesma convicção com que abrem um cartaz onde se lê ‘me filma, Galvão’ num estádio de futebol. Num caso, expressam-se com lágrimas. No outro, às gargalhadas. A finalidade é a mesma.


Charles Tatum sabia disso muito bem: a presença da platéia eleva a dramaticidade do sensacionalismo, mas é preciso ter os elementos certos para invocá-la e chamá-la à cena. As multidões, nesse caso, não conduzem a história (com H maiúsculo ou minúsculo, tanto faz): entram como figurantes nos roteiros automáticos. Figurantes essenciais, mas figurantes.


Há algo de perturbador na constatação, como se ela retirasse dos comuns do povo a condição de tomar a iniciativa, de fazer acontecer ou, como diz o refrão, de ‘fazer a hora’. Não obstante, muitas vezes é disso mesmo que se trata. Onde muitos vêem ‘protagonismo’ das massas, há somente isto, o fator Leo Minosa.

******

Formado em direito e jornalismo pela Universidade de São Paulo, é doutor em Ciências da Comunicação pela mesma universidade e autor de alguns livros, entre eles Sobre Ética e Imprensa (Companhia das Letras, 2000); foi presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/08/2009 barbara cassará

    Olá,

    Eu gostaria de saber para onde eu mando um press-release falando de lançamento de livro, que possa interessar a redação.

    Obrigada,
    Barbara

  2. Comentou em 25/04/2008 George Costanza

    Caro Bucci, pensei exatamente no mesmo filme quando vi as manifestações nos locais por onde o casal acusado passou. Questões sérias, de âmbito nacional, como a alta dos juros e preços dos alimentos, greves no setor público e eleições municipais, e internacionais, como a crise econômica e as eleições dos EUA, a guerra no Iraque, a questão tibetana, são todas tratadas como ‘notas de rodapé’, em jornais televisivos dominados pela ‘morte da menininha’ e ‘sumiço do padre voador’. Interessante notar que as notícias importantes ‘não dão ibope’. O filme ‘A Montanha dos Sete Abutres’ também não deu boa bilheteria.

  3. Comentou em 25/04/2008 Marco Antônio Leite

    Vivemos no circo Romano, o famoso Coliseu em plena arena onde dois irmãos se digladiam, o mais forte espeta a espada assassina no coração do adversário jogando-o ao chão todo ensangüentado. Após esse sinistro acontecimento leva a platéia ao delírio, aplaudindo de pé o vencedor da contenda, já o perdedor é coloca no lombo de um burro e é levado para a vala cumum dos perdedores. E assim caminha a humanidade! O caso do edifício London é o coliseu modernoso, cuja arma utilizada para liquidar o frágil adversário foi à queda-livre de 20 metros de altura, ocasião em que a platéia foi ao delírio delirante!

  4. Comentou em 25/04/2008 Baltazar Tavares Sobrinho

    Eu quero o 0800 prá votar!

    Meu caro observador, o texto é magnifico! Nesse novo espetáculo, fica um quê frustração pois já sabemos quem vai ganhar o prêmio: a Polícia.

    A Polícia, como sempre, está partindo do criminoso (suposto) para o crime, muito embora a Constituição determine o caminho inverso. Não importa que a gente perceba que quem está pautando as investigações são as redações.

    Uma pergunta? As crianças vítimas de homicído nestes dias, aqui no Pará um em outras paragens desse Brasil, não mereceriam do Estado a mesma diligência nas investigações?

  5. Comentou em 25/04/2008 Dante Caleffi

    Curioso, ‘abutres , é como chamamos domesticamente os ‘jornalistas’ das edições do complexo ‘Globo’:CBN,Globo News e a própria TV Globo.
    Governo Lula e ‘caso Isabella’, a técnica empregada é a mesma.
    Nesta os ‘organizadores do espetáculo’, podem contar com as imortais
    ‘macacas de auditório’,que garantem a mórbida coreografia a que os espectadores assistem. Naquela , produção dispendiosa,não impede,o insucesso dos seus objetivos, ainda que as ‘macacas’, sejam substituídas pelo Congresso.

  6. Comentou em 25/04/2008 Dante Caleffi

    Curioso, ‘abutres , é como chamamos domesticamente os ‘jornalistas’ das edições do complexo ‘Globo’:CBN,Globo News e a própria TV Globo.
    Governo Lula e ‘caso Isabella’, a técnica empregada é a mesma.
    Nesta os ‘organizadores do espetáculo’, podem contar com as imortais
    ‘macacas de auditório’,que garantem a mórbida coreografia a que os espectadores assistem. Naquela , produção dispendiosa,não impede,o insucesso dos seus objetivos, ainda que as ‘macacas’, sejam substituídas pelo Congresso.

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