Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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JORNAL DE DEBATES > VIOLÊNCIA NO RIO

Não deu no jornal

Por Muniz Sodré em 08/02/2005 na edição 315

Moacir e Marinaldo, pais de família, corretos, trabalhadores, eram porteiros há mais de 10 anos num prédio da Zona Sul do Rio de Janeiro. Cerca de duas semanas atrás, regressavam de motocicleta, à noite, da casa do irmão de um deles, localizada no bairro do Caju, início da grande Avenida Brasil. Haviam recebido o pagamento naquele dia e, possivelmente, foram vistos manuseando dinheiro. Nas imediações da ponte Rio-Niterói, Moacir foi derrubado com um tiro de fuzil no peito, e Marinaldo, o carona da moto, agredido e fuzilado de tal maneira que seu rosto tornou-se irreconhecível para a própria família. Saqueados do dinheiro, dos sapatos e das próprias roupas, os corpos chegaram nus ao Instituto Médico Legal.

Até mesmo para quem já está tristemente habituado à crônica diária da violência no Rio, o episódio teve um impacto singular. Os moradores do edifício ficaram literalmente aturdidos com a brutalidade do acontecimento, enquanto alguns funcionários relatavam o fato à beira das lágrimas. Moacir e Marinaldo eram muito queridos. E agora há uma mobilização geral para doar alimentos às famílias, muito pobres, dos desaparecidos.

Esta história comparece aqui precisamente por sua ausência da imprensa: nenhum jornal noticiou o fato. Ora, poderá dizer um outro observador, a imprensa não conseguiria dar conta de todas as ocorrências dessa natureza numa grande cidade como o Rio, ou São Paulo. Admitindo-se que isso seja verdade, é possível também concluir que a imprensa não está necessariamente exagerando, com segundas intenções sensacionalistas, quando clama aos céus por providências quanto à calamidade da insegurança pública. Na verdade, o jornalismo carioca (e paulista) não comunica por inteiro a magnitude do horror que se tornaram as nossas ruas. Morre muito mais gente do que o noticiado.

O episódio de Moacir e Marinaldo é emblemático. Permaneceu desconhecido do grande público porque, primeiro, ocorreu no ‘além-túnel’, isto é, fora do perímetro da Zona Sul. Uma tese de doutoramento recente (‘Tráfico, mídia e violência’, de Jairo Santiago, apresentada no Programa de Pós-Graduação da ECO/UFRJ) demonstra estatisticamente que as notícias de crimes nos jornais de maior prestígio privilegiam em termos absolutos o espaço da Zona Sul, o mesmo ‘vendido’ como imagem típica do Rio pelas telenovelas e pela publicidade de turismo. Segundo, porque as vítimas eram pobres e anônimos.

Pauta de compromisso

O conceito de ‘acontecimento jornalístico’ emerge aqui como um problema. Era isto o que procurava discutir no Fórum Social de Porto Alegre, dias atrás, o professor e escritor português Manuel Rebelo, que durante 16 anos trabalhou no Le Monde e ocupa atualmente uma cátedra no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em Lisboa. Para ele, uma ocorrência torna-se acontecimento segundo o seu potencial de atualidade, mas também segundo os potenciais de relevância de pregnância que ele puder manifestar. Relevância: ‘quando provoca uma ruptura no nosso quadro de vida’; pregnância: ‘quando nos incita a reconstruir esse nosso quadro de vida momentaneamente perturbado pela ocorrência inesperada’.

O episódio brutal de Moacir e Marinaldo tinha certamente atualidade, mas nenhum potencial de relevância ou pregnância, devido à condição social das vítimas. Sempre foi assim, na realidade. Casos como este podem eventualmente figurar em pequenas notas, a depender da paginação do jornal, mas jamais entram na ‘economia da atenção’ mobilizada pela mídia. No Rio, a criminalidade só se tornou um verdadeiro problema quando foi ficando cada vez mais próxima dos habitantes da Zona Sul. A morte brutal de um membro da plebe não provoca ‘ruptura no quadro de vida’ tão intensa quanto um mero caso de assalto a uma figura do mundo do espetáculo ou a um cidadão de alta renda.

Jamais se punirão os assassinos, nem se saberão das exatas circunstâncias da morte dos dois porteiros. Para os condôminos do prédio, foi obra de bandidos; a arraia-miúda, os empregados, boqueja suspeitas sobre as blitzes policiais no local. À noite, a região do Caju é terra de ninguém, ‘zona conflagrada’, no dizer de um conhecedor dessas questões. A divisão das opiniões por classe social é, em si mesma, tema pertinente para uma pauta jornalística mais comprometida com a realidade inteira da cidade. A imprensa escrita talvez deva sair imediatamente de frente da telinha da televisão.

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