Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > UM FILÓSOFO NO PELOURINHO

Não há diálogos quando se impedem os monólogos

Por Alberto Dines em 06/03/2007 na edição 423

Quando o filósofo Renato Janine Ribeiro admitiu, num artigo de jornal, ter desejado a morte dos assassinos do menino João Helio porque cometeram um crime contra a humanidade, não poderia imaginar que seu dolorido desabafo suscitaria um debate mais profundo do que o quadro de violência e crueldade no país.


O rancor dos politicamente corretos que desabou sobre o filósofo desvenda uma das mais perigosas facetas das elites brasileiras: hipocrisia combinada com prepotência. Agarrados a totens e tabus, incapazes de encarar e escancarar suas angústias e convicções, os bem-pensantes-mal-falantes preferem recorrer ao linchamento moral de alguém que, por sua natureza e ofício, não pode compactuar com o fingimento e a mentira.


É legítimo desejar a morte dos assassinos de João Hélio ou dos facínoras que liquidaram a facadas os ativistas de direitos humanos franceses. Mas não é legítimo transformar em verdugos os que tiveram a coragem moral de confessar este sentimento. Renato Janine não pediu a pena de morte: tocado por aquela morte brutal, revoltou-se contra a impunidade.


Situações-limite


É falso o dilema de que a luta contra a impunidade significa baixar a maioridade penal. Os governadores do Rio, São Paulo e Minas têm mostrado que maior o rigor na aplicação das penas não significa uma alteração nas cláusulas constitucionais ou no artigo 121 do Estatuto da Criança e do Adolescente.


Existem inúmeras e legítimas opções para tornar mais rigorosa a punição dos crimes cometidos por menores. Mas ao confundir maliciosamente a questão da impunidade com a da maioridade penal tenta-se interromper o fluxo dos questionamentos capazes de dar à sociedade brasileira um mínimo de discernimento sobre tópicos cruciais como crime & castigo e delitos & penas. Transferir tais temas para a esfera dos juristas é uma forma de abdicar da soberania racional e privar a sociedade da sua capacidade de rever-se e reformar-se.


Os fundamentos da nossa economia podem ser excepcionais, mas nossa desumanização chegou a padrões insuportáveis. Sobretudo porque estamos construindo um sistema de comunicação que só funciona em situações-limite: muito barulho ou silêncio absoluto. Muitos decibéis ou nenhum. Já não há lugar para reflexões e monólogos mais profundos. E quando somem as condições para o exercício de monólogos, desaparecem os diálogos.


Discussão acesa


Naquela véspera de Carnaval, o filósofo Renato Janine Ribeiro pretendeu dar um sacolejo na sociedade brasileira, relembrar a brutalidade de Auschwitz para trazê-la para perto do cotidiano brasileiro. Queria dizer o indizível, vencer os preconceitos, expor o seu sofrimento. Pagou o preço de ter dito o que muitos sentiram, mas tiveram medo de abrir a boca.


A Folha de S.Paulo merece o reconhecimento daqueles que pretendem uma sociedade verdadeiramente aberta, inconformada e questionadora. Há três domingos consecutivos o jornal mantém em discussão um tema inconfortável, mas candente.


O filósofo filosofou em público e o jornal cumpriu o seu papel de induzir os leitores a fazer o mesmo.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/06/2007 Israel Granville

    Aproveitarei os toques restantes. Acho que o Senador não vai resistir. Deverá renunciar. Não tem outra saída. É o conselho que deu a mais velha raposa do Congresso Nacional, o senador Pedro Simon. As provas que ele trouxe para se defender são todas pifias, sem nenhum consistênca. Este seria o tema da semana,caros diretores, apresentadores do programa. Israel.

  2. Comentou em 08/03/2007 Paulo Mora

    Publicado pelo Nassif: ‘Segundo confessou a amigos comuns, o grande arrependimento do filósofo Renato Janine não foi com as críticas recebidas: foi com as demonstrações de apoio. Nunca julgou que ficaria um dia em semelhante companhia.’ Ops…

  3. Comentou em 08/03/2007 Fábio Carvalho

    Prezado Apolônio, não misture as coisas. Os integrantes do MST costumam morrer, não matar. Nas ocorrências de homicídio, são vítimas. Não vou nem discutir a reforma agrária, tampouco as investidas da Via Campesina. O direito de propriedade e a função social da terra estão definidos na Constituição Federal (artigo 5º, cláusulas pétreas). O senhor acha certo integrantes do MST serem assassinados? Por favor. João Hélio é vítima. Os cadáveres do MST também são vítimas. Vítimas de homicídio são vítimas.

  4. Comentou em 07/03/2007 João Nilson Dias

    Alteraração da maioridade penal, pena de morte e aborto são temas polêmicos e cujos respectivos debates nunca são convergentes. Todavia, é facultado a qualquer cidadão o direito de opinar, de manifestar seu ponto de vista, procurando, porém, fazê-lo de maneira educada, baseando suas opiniões em argumentos lúcidos e fundamentados, ao invés de querer arvorar-se em dono da verdade. Foi o que faltou no artigo do filósofo Renato Janine Ribeiro e o que sempre falta nos textos do sr. A. Dines.

  5. Comentou em 07/03/2007 Apolonio Silva

    Sai do armário Teo Ponciano. Você é a favor de arrastar crianças de 6 anos pelo asfalto por quilômetros? O Dines é contra. Este é o ponto.
    Você acha normal que crianças sejam assassinadas no colo de seus avós? Você sente prazer quando assiste uma família ser incinerada viva dentro de um carro para não reconhecer um bandido? Ou não sente prazer mas se delicia ao ‘entender’ que quem fez isso foi a ‘sociedade capitalista’. Ah…quanta sensibilidade! Como é bom ser tão inteligente e ver um ser-humano ser trucidado e entender os porquês…e está tudo tão bem explicado nos livrinhos do MST. Tudo é tão lógico. Tinha que ser assim. Não precisamos fazer nada. A fila vai continuar andando….sai do armário meu filho…

  6. Comentou em 07/03/2007 Teo Ponciano

    Sai da sombra do Janine Dines:
    1. Vc é contra ou a favor da pena de morte?
    2. Vc acha justo a tortura de presos?
    Eu sou contra os dois.

  7. Comentou em 07/03/2007 Hélcio Lunes

    Dines> provavelmente todos os políticos tenham hoje um pouco de marqueteiros> Afinal nosso Presidente, Lulla, é useiro e vezeiro no uso do Marketing, nem sempre honesto (como no caso da propaganda do programa de agricultura familiar, onde se mostrou uma propriedade privada como sendo obra do governo). Sanguessugas como o ex-Ministro Pernambucano (que esta indiciado pelo Procurador Geral da República) nem concorreram nas últimas eleições, pois com seu histórico, perderiam.
    Já no Rio Grane do Sul, destruído pelos sucessivos governos Petistas, não há mais risco, o PT não ganha mais nem para sindico da massa falida.
    Esse e o problema do Marketing, as vezes da certo, as vezes não!

  8. Comentou em 06/03/2007 Odailson Elmar Spada

    Não li o artigo do filósofo Renato Janine. Apenas o comentário do Alberto Dines. O que me chamou a atenção foi a constatação de ‘uma das facetas perigosas das elites brasileiras’.
    Isso me fez lembrar de um episódio que presenciei à cerca de 20 anos, na Praça da República, na capital paulista. Um ‘trombadinha’ tentou arrancar a carteira do bolso da calça de um idoso, derrubando-o. O neto, de 17 anos, que acompanhava o idoso, vendo-o contorcendo de dor no chão, talvez com alguma fratura, saiu em disparada atrás do ladrão, alcançou-o e deu uma boa surra.
    Momentos depois, vários engravatados que trabalhavam nos escritórios dos prédios das proximidades, apareceram e… (pasmem) imobilizaram o rapaz e o entregaram à polícia, como se ele fosse o criminoso. O ‘trobadinha’ pode sair dali calmamente, sem que ninguém o molestasse.
    Afinal, até quando estaremos invertendo valores em nome do ‘humanismo’ dos direitos humanos? Não é esse mesmo ‘humanismo’ que tem criado os canais da impunidade em nosso Brasil?

  9. Comentou em 06/03/2007 Kleber Carvalho

    Nelson Rodrigues disse e eu repito, toda unanimidade é burra, por isto parabenizo os 36 comentários lúcidos sobre o filósofo e o seu rompante de algoz da violência brasileira, viva o contraditório, abaixo o pensamento ùnico do Dines, viva a contestação.

  10. Comentou em 06/03/2007 Kleber Carvalho

    Nelson Rodrigues disse e eu repito, toda unanimidade é burra, por isto parabenizo os 36 comentários lúcidos sobre o filósofo e o seu rompante de algoz da violência brasileira, viva o contraditório, abaixo o pensamento ùnico do Dines, viva a contestação.

  11. Comentou em 06/03/2007 Marco Costa Costa

    A medicina no Brasil será que é tão atrasada assim. Como homem politizado e tucano de carteirinha, deveria saber qual o órgão do corpo essa triste doença ataca.

  12. Comentou em 06/03/2007 Lica Cintra

    Geralmente gosto dos textos de Renato Janine Ribeiro mas o que escreveu sobre a tragédia João Hélio não me agradou, achei rasteiro, óbvio, conservador. Não creio que houve linchamento e sim falta de jogo de cintura para lidar com polêmicas. Os que escreveram contra as idéias do filósofo, o fizeram com a mesma contundência que Renato Janine Ribeiro usou em seus artigos. Discordar é saudável. PS – Não acho que sou hipócrita e prepotente por criticar as idéias dos textos em questão.

  13. Comentou em 06/03/2007 Joana Balesteros

    Somos todos petistas, aloprados e, agora, hipócritas e prepotentes.
    Só não é hipócrita e prepotente quem fez de tudo para esfriar a discussão a respeito do buraco do Alckmin e do Aerosserra. Cada texto do Alberto Dines é uma azeitona na empada do Mino Carta. Tucanizados! Não passam disso: meros tucanizados. Não vou chamá-lo de hipócrita, senão a censura do OI não publica meu comentário. Nós somos hipócritas sr. Dines. Nós somos. E o sr. Janine é a Hebe Camargo da vez…

  14. Comentou em 06/03/2007 Marco Costa Costa

    Sr. Rogerinho, primeiro peça autorização para o pseudo criador deste planeta, pois não devemos usar o nome de quem quer que seja para falar inverdades. O senhor para não fugir a regra também sofre da doença capitalista chamada desvio burguês. Procure um esquerdista especialista em desalienar conciências despreparadas para julgar o que é bom ou ruim, certo ou errado, verdade ou sofisma e situações similares.

  15. Comentou em 06/03/2007 Paulo Mora

    Quem criticou o filósofo é prepotente e hipócrita ?

  16. Comentou em 06/03/2007 nelson perez de oliveira junior

    Sr. Alberto Dines, hipocrisia e prepotencia são dois artigos que o senhor entende como ninguém, pois, é justamente com esses 2 pecados que o tenta soterrar quem não concorda com o senhor, seus adversários ou ambos. Quando a senhora Mantega, ainda sob impacto de ter sofrido um crime, registrou, pensou ( como o senhor gosta) ou monologou (como o senhor gosta), o que fez o senhor? Linchou e difamou a pobre vítima, mas, quando um intelecualzinho metido a besta filosofou a respeito de um crime do qual não foi vítima nem tem parentes vitimados, e teceu comentários misantropos, admitiu ter ganas e vontade de vê-los mortos, o que para mim configura incitação ao linchamento de verdade e não uma metáfora que o senhor Dines gosta de usar quando vê suas posições serem acuadas por seus opositores.
    O senhor é um grande exercitador da hipocrisia e prepotência, e não aceitarei o cerceamento da minha opinião sob alegação de violação das regras do OI, pois, me senti diretamente agredido pelos seus comentários. Há limites legais e éticos para o exercício da filosofia e do livre pensar. Se o senhor acha o senhor Janine digno de ser chamado de filosofo, eu não. Ele foi um infeliz articulista que resolveu dar pitaco em um assunto em que deveria refletir profundamente antes de opinar. O senhor Janine é um lamentável burocrata do intelecto e m açodado articulista, é moda palpitar mais rápido.

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