Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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JORNAL DE DEBATES >

Não, obrigada

Por Mariliz Pereira Jorge em 10/11/2015 na edição 876

Há alguns meses, escrevi na Folha o texto “O feminismo precisa dos homens”. Entre outras coisas, disse que tive chefes que me deram oportunidade para poder falar sobre o que eu quisesse. Fui atacada por grupos feministas, que me acusaram de depender de homens para ter espaço para escrever.

Como é a vida. Essa semana, colunas em jornais e sites foram tomadas por textos escritos por mulheres, publicados em espaços em que os titulares são homens. É uma iniciativa da campanha #AgoraÉQueSãoElas.

Colunistas, escritores, articulistas, com as melhores intenções, cederam suas vitrines para que elas pudessem expressar suas opiniões sobre o PL 5069.

Concordo com o que tenho lido. É um retrocesso, uma violência aos direitos da mulher. Falei sobre isso no artigo Sentença de Morte para Mulheres, quando o projeto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça.

Sou a favor de tudo que beneficie, proteja, ampare, emancipe, empodere (eita, palavra feia) as mulheres. Mas a tal campanha é uma contradição.

É um tiro no pé mulheres que lutam para serem protagonistas pedirem penico aos homens para que possam deixar de ser coadjuvantes. Essa semana me pareceu um oito de março prolongado. Somos festejadas e depois tudo volta a ser como sempre.

Tive a sensação de que a intenção se resumiu a uma licença quase poética de um patriarcado modernete, como observou a jornalista Vera Magalhães (que tem sua coluna e não pede licença a nenhum homem para escrever o que quer).

Olha só, essa garota tem tanta coisa a dizer que até serve para tomar o lugar do Gregório, do Juca, do Freixo. Me causa estranheza enorme que o tal protagonismo da mulher aconteça, mas com o aval dos homens. E com hora e dia para acabar.

Não, obrigada.

Escrevo isso num espaço dedicado ao esporte porque luto para ser respeitada numa seara masculina. Não estou aqui por cota, consolação ou porque sou amiga de alguém.

Em janeiro do ano passado, bati na porta da Folha e me ofereci para escrever. Um ano depois ganhei um segundo espaço, porque me acharam capaz.

Toda semana, algum leitor descontente me manda lavar roupa, me chama de mal comida, de piranha, recebo foto de pinto. Acho pouco provável que qualquer um dos meus colegas homens tenha tratamento similar quando não agrada.

Sobreviver a isso é uma forma de lutar contra um machismo arraigado na área esportiva que, é verdade, ainda tem poucas mulheres.

Mas uma das justificativas dessa campanha é que todas as redações estão tomadas por uma maioria masculina. Mentira. Quem trabalhou na Editora Abril, por exemplo, sabe que havia redações inteiras dominadas por mulheres. Na Folha, fui chefiada quase sempre por mulheres brilhantes.

O mercado de blogs é predominantemente feminino. E não me venham discutir conteúdo ou qualidade. São garotas que estão ocupando espaço sem pedir licença a ninguém.

A intenção da campanha é boa, mas a mensagem que fica é: como fulano é bacana, ele até cedeu seu lugar para uma mulher escrever. Tadinha.

Só digo mais uma coisa: amiga, faz um blog, faz um vídeo, bate na porta de um jornal, de um site, de uma revista, e põe a boca no trombone. Você é feminista, mas precisa que um homem se solidarize e dê um pouquinho de espaço à sua voz?

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