Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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JORNAL DE DEBATES >

Narrativa jornalística e teatro se encontram

Por Hélcio Magalhães em 10/05/2005 na edição 328

Lourival Sant’anna desenhou com maestria as notícias do Equador, sobre a queda de Lucio Gutiérrez. Desenvolveu a matéria de 25/4 no Estado de S.Paulo ao estilo da poética aristotélica: intercalou cenas emocionais com cenas racionais. Logo de saída, Lourival coloca o leitor na cena da partida para o exílio. Insere um clima gélido, sombrio e temeroso, à mesma maneira com que William Shakespeare abre sua magistral obra Hamlet. Na dramaturgia shakespeariana, na primeira cena, os guardas dão o clima de medo, terror, insegurança e perigo, na Dinamarca de Hamlet. Um diálogo ríspido entre os guardas revela o temor na noite gélida, uma metáfora de poder e corrupção.

O tom emocional e ao mesmo tempo racional desvenda a agonia de um presidente ‘deposto’ e as últimas horas em seu país. O nervosismo, a insegurança, as despedidas, as lágrimas rivalizam com explicação da manifestação popular, na qual morreram duas pessoas, uma por problemas cardíacos, supostamente provocados pelo gás lacrimogêneo e alguma substância química. A outra vítima caiu, acidentalmente, de um caminhão. Um telefonema do comandante das Forças Armadas que avisara que não apoiaria mais o presidente e, a visita da embaixadora americana, Kristie Kenney, para retirar-lhe o apoio.

Lourival não economizou até mesmo as cores, do negro da noite ao róseo do amanhecer que tingia o pico nevado de Cotopoxí: seu texto ganha sensibilidade mítica. A humilhação com que o presidente deposto entrou na embaixada brasileira, escondido num porta-malas. O fim da matéria guarda uma esperança, ‘o povo pobre está com você’, na mensagem de uma admiradora. É essa visão que dá vida à reportagem e contrasta com outra matéria, na mesma página, assinada por Lisandra Paraguassú. A jornalista descreve a chegada do ex-presidente a Brasília. O tom emocional também é encampado por Lisandra quando reproduz o comovente agradecimento da mulher de Gutiérrez, ‘Deus lhes pague’. A emoção da partida e da turbulenta concretização do exílio, em que até mesmo o comandante da operação ratifica: ‘Não era uma missão de guerra, era uma missão humanitária’.

Aprendizado das novas elites

Outro contraste jornalístico criado pela edição de O Estado de S. Paulo de 25 de abril estava na página A11, em outra matéria, também assinada por Lourival Sant’anna. Nela, Lourival coloca luzes sobre o novo presidente, Alfredo Palácios. É implícita a necessidade de Palácios tentar legitimar a derrubada do governo anterior e justificar sua nova posição no Equador.

A conjuntura econômica e racional dá o tom a esta página, enquanto na A8 a emoção transbordara. A preocupação em justificar as relações com os países vizinhos e afirmar que ‘o Brasil receberá o mesmo tratamento que qualquer outro país’ mostra preocupação com os investimentos brasileiros no Equador. Nas entrelinhas lê-se que as relações com os Estados Unidos, onde Palácios cursou pós-graduação, as relações serão fraternais.

A grande questão que se aponta nessa cobertura fica por conta de uma mão norte-americana, em subtexto. Por um lado retira o apoio a Gutiérrez, homem de origem humilde, e de outro apóia Palácios, representante das oligarquias tradicionais equatorianas, com formação nos EUA, enquanto Gutiérrez, militar, estudou no Rio.

No mesmo jornal, a entrevista de Marta Lagos, diretora da Latinobarómetro, explica as questões de fragilidade das democracias latino-americanas, enfatizando a necessidade de aprendizado das novas elites, pois é evidente seu grau de despreparo executivo diante do enfrentamento da opinião pública sobre democracia e satisfação popular. Para Marta Lagos os conflitos entre as novas elites e as tradicionais revelam que o povo está um passo à frente das elites, e que aprovam a democracia, mas ainda não está satisfeito com seus resultados.

A incongruência da imposição

No conjunto informativo sobre o caso Equador, a entrevista de Sérgio Paulo Rouanet, por Marcos Augusto Gonçalves, sobre sua conferência intitulada ‘A modernidade pós-nacional’, proferida na Turquia no colóquio organizado pela Academia da Latinidade, oferece luzes sobre o amadurecimento das democracias da América Latina, dentro do processo de mundialização e os desdobramentos econômicos, políticos e culturais, no bojo desse fenômeno (Folha de S. Paulo, 27/4/2005).

Na entrevista, Rouanet aponta a União Européia como um caminho realista no engendramento institucional da nova escala global, ao mesmo tempo em que afirma a temeridade da desconstrução da idéia de Estados nacionais. A entrevista de Rouanet demonstra a utopia da procura de uma sociedade política universal, acentuando que a sociedade mundial idealizada em termos de fraternidade é algo impalpável, pois a mundialização se estrutura em termos de poder, e não de fraternidade.

Rouanet acentua a questão dos Estados nacionais como defesa segura contra os ‘tsunamis’ imperialistas norte-americanos. Para ele, a defesa da idéia de Estado nacional é diferente do nacionalismo ideologia, e amplifica ainda a sua tese afirmando que o imperialismo norte-americano é alimentado por um supernacionalismo.

Na afirmação de que a democracia não pode ser imposta pelo uso das armas, embute a idéia do valor universal de liberdade. A propósito dessas colocações de Rouanet e no foco central da construção da democracia no continente latino-americano, o dramaturgo e diretor teatral Gerald Thomas estreou, no teatro do Sesc-Pinheiros, dia 30 passado, o espetáculo Um circo de rins e fígados, com a interpretação de Marco Nanini. O espetáculo, metafórico e metalingüístico, discute exatamente essa questão.

Thomas põe em cena, de maneira visceral, a incongruência da imposição democrática pela força. Uma democracia fictícia, como o teatro, uma representação. No espetáculo um ator recebe caixas provenientes de um tal de João Paradeiro, que é um autor teatral desaparecido desde 11 de setembro. As caixas guardam documentos da CIA que implicam os EUA na derrubada dos regimes da América Latina e na instituição das ditaduras militares, nos anos 60/70. Coloca em cheque a deposição do ditador Saddam Hussein para a defesa do povo iraquiano e a construção de um regime democrático.

Caminho realista

O ator metaforiza a imposição norte-americana, em cena impressionante, na qual o personagem pratica sodomia em cadáveres do Instituto Médico Legal. Essa idéia de poder totalitário, que avilta o indefensável, é a imagem máxima de um ‘estupro de democracia’ com o objetivo do gozo particular, individual e egoísta, que não divide, mas aproveita, que impõe pela força a sua vontade de roubar o prazer.

A imagem por Gerald Thomas, no Sesc-Pinheiros, expõe a farsa do imperialismo, que faz a sua democracia, mas não a dos outros. Os seus interesses estão à frente de quaisquer outros e, a pretexto da defesa do ideal democrático, mata, estupra rouba e destrói; corrompe a própria liberdade, o ideário democrático.

É nesse sentido que Rouanet, em sua entrevista à Folha, vê a experiência da União Européia como um caminho realista para a construção de um novo desenho institucional, no processo de globalização, em oposição à idéia de imposição democrática pelas armas, que estão muito mais a serviço do supernacionalismo norte-americano do que de ideal humanitário de liberdade, como todas as matérias comentadas sobre o caso Equador apontam uma mão imperialista em suas entrelinhas. Reveladas pela ação da embaixada norte-americana, o comando militar e a postura das elites tradicionais encarnadas em Palácios.

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Jornalista, artista, publicitário e produtor cultural, coordenador de Comunicação Social do Sesc-Pinheiros e pesquisador de Comunicação e Cultura do Programa em Integração da América Latina (USP)

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