Segunda-feira, 24 de Julho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº950

ENTRE ASPAS > TAM, VÔO 3054

Necrológio colorido, informação ou sensacionalismo?

Por Ligia Martins de Almeida em 24/07/2007 na edição 443

Mais de 200 mortos, entre eles um deputado, um ex-dirigente esportivo, uma família inteira, crianças, idosos e jovens executivos e executivas em plena ascenção na carreira: foi este o saldo de mortos no acidente com o avião da TAM. Uma tragédia que, do ponto de vista da imprensa escrita, inaugurou uma nova modalidade de edição: o necrológio colorido. Em vez da lista de nomes, vimos – nos jornais e revistas – páginas e páginas com lindas fotos coloridas das vítimas, com dados sobre a vida, a carreira e, quando era o caso, os sonhos dos mortos.

Essa opção é, sem dúvida, influência de um novo jeito de dar notícia – na qual, mais do que nunca, a imagem tem uma importância crucial. Com a facilidade de obter imagens (via celular ou internet), parece não se considerar notícia os textos que falam de pessoas sem mostrar uma imagem. Sinal de novos tempos na imprensa ou influência direta das revistas de celebridade que se alimentam do trabalho dos paparazzi e do sensacionalismo barato?

Tragédia ao vivo

Não se pode negar que esse espírito fofoqueiro que parece ter tomado conta da imprensa resulta até em bom jornalismo, como no caso dos cinegrafistas que registraram o gesto obsceno do assessor presidencial, mas fico em dúvida quanto à publicação das fotos e histórias das vítimas. Será que as famílias que cederam as fotos (de que outra forma a imprensa as teria conseguido?) estão contentes em ver seus filhos, maridos, avós e netos transformados em celebridades nos jornais e revistas porque morreram tragicamente?

Será que, com tantos mortos ainda não identificados, as famílias das vítimas têm interesse em ver sua rotina transformada em história de jornal, como a matéria ‘As últimas horas antes da tragédia’ (O Estado de S.Paulo, 22/07/2007), de duvidoso interesse jornalístico?

A sensação que fica é que a imprensa escrita, incapaz de competir com as imagens da TV – que mostrou a tragédia ao vivo na noite de 17 de julho – tenta compensar os leitores com algo que eles não vêem na telinha: as fotos dos mortos.

Linha 4

Os pauteiros podem se justificar dizendo que as matérias de conteúdo humano dão alto índice de leitura ou que estão prestando uma homenagem aos mortos. Mas a sensação que fica, para quem acompanha os jornais e revistas da semana, é que acidentes vendem mais exemplares e esta é uma chance que não se pode perder.

E se não dá para competir com a força das imagens na hora do acidente, a opção pelas fotos coloridas dos mortos parece ter sido o caminho encontrado pela imprensa escrita para ganhar o seu espaço. A dúvida que fica é se essa foi uma opção jornalística ou apenas um sinal dos novos tempos – tempos em que a palavra escrita está condenada a ceder seu espaço às imagens.

O que se espera da imprensa é que o assunto, exaustivamente tratado durante a semana, não perca importância daqui para frente. Que as famílias hospedadas em São Paulo, à espera da identificação de seus mortos, continuem merecendo atenção. Que não aconteça com eles o que ocorreu com as vítimas de outras tragédias, como os moradores de Pinheiros atingidos pelo desabamento na Linha 4 do metrô paulistano: foram notícia nos primeiros dias, continuam morando em hotéis e só receberam nova atenção na data que marcou os seis meses do acidente.

Discutir as causas do acidente, os possíveis culpados e o silêncio do governo talvez seja, para as famílias das vítimas, o melhor serviço que a imprensa pode prestar. Muito mais do que publicar as fotos dos familiares mortos.

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Jornalista

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