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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Nem aqui, nem na China

Por Renata Noiar em 23/09/2008 na edição 504

Há alguns dias, notas divulgadas na mídia tornaram público o descontentamento do apresentador Luciano Huck em ter de dividir com Gugu Liberato o sucesso de um dos quadros mais populares de seu programa, o ‘Lar doce lar’ (Caldeirão do Huck, Rede Globo), cujo similar, ‘Construindo Um Sonho’ (Domingo legal, SBT), é um dos grandes responsáveis pelo aumento expressivo de audiência do programa do SBT aos domingos, recolocando Gugu Liberato na vice-liderança no horário. Os quadros têm como objetivo reformar a casa de um telespectador. A alegação de um possível plágio foi rapidamente rebatida pela produção do programa do SBT, afirmando serem os quadros ‘versões’ de programas veiculados em canais pagos, como o programa Extreme makeover – Home edition (People+arts/ DiscoveryBrasil).

Entretanto, mais do que provar não se tratar de plágio, a discussão levantada fez emergir questões relativas à importância da criação de televisão dentro das programações em curso hoje no Brasil. No início da década, as emissoras televisão depositaram suas fichas em formatos importados, já testados. E, atualmente, estamos reféns dessa forma de fazer televisão.

A onda de reality shows

Um dos mercados que mais cresceu no mundo, a indústria de criação de programas e formatos para televisão, trouxe um novo frescor para a teoria da aldeia global (Marshall McLuhan): ao sermos constantemente incitados pelas mesmas emoções, é difícil não se sentir parte da mesma tribo. Muito do que vemos por aqui, e pelos quatro cantos do mundo, vem das mentes criativas de funcionários das gigantes do setor FremantleMedia e da holandesa Endemol, criadora do Big Brother, que admite ter mais de 2.200 formatos inéditos – não roteizados – e mais de 200 prontos à venda em seu site.

Não há bons horizontes para aqueles cuja vocação profissional passa pela criação de televisão! Nem aqui, nem na China, que – mesmo com toda a censura – se rendeu à febre mundial dos formatos importados em 2005. O Encontro com a Beleza, primeiro reality show chinês, era um programa onde eram feitas cirurgias plásticas estéticas e de mudança de sexo, ao vivo. Depois de muita polêmica, o programa foi proibido pela administração geral de rádio, cinema e televisão – reguladora do setor – em 2007, mas sem conseguir frear a onda de realitys shows que invadiu o país.

Compra de programas e formatos

Uma rápida análise da programação disponível nas quatro principais emissoras do país deixa clara a dimensão da invasão destes importados. Começando com o precursor em consumo deste tipo de produto: Silvio Santos – que não abria e nem abre mão de trazer para sua grade fórmulas de sucesso da televisão norte-americana – é o apresentador do Topa ou não topa e o Nada além da verdade e tem ainda em sua emissora: Supernanny, Construindo Um Sonho – o quadro da discórdia!

E, em se tratando de discórdia, a irritação de Luciano Huck não foi o primeiro atrito entre emissoras por causa da compra de programas e formatos. No começo do ano, o SBT teve de amargar a perda do Ídolos para a Rede Record. O programa, criado na Inglaterra, se tornou um fenômeno na versão norte-americana. Na Record também estão O aprendiz, O Jogador, Troca de famílias, Simple Live.

Falta de criatividade

Na Rede Globo, o carro-chefe fica por conta do Big Brother, indo para a nona edição! Mas o grande consumidor deste tipo de formato na emissora é o descontente Luciano Huck, que tem nos importados o principal ingrediente de seu Caldeirão: Lar doce lar, Lata velha e Soletrando – versão brasileira do concurso norte-americano de soletração (The National Spelling Bee), cujo objetivo principal é ajudar os alunos a melhorar seus conhecimentos de ortografia, aumentar o vocabulário e aprender novos conceitos, desenvolvendo e corrigindo o inglês. Por aqui, apesar de todo o sucesso do quadro – que rendeu ao apresentador elogios e homenagens por sua preocupação com a educação – é difícil assistir à atração somente como entretenimento, sem se preocupar com a qualidade da educação que temos, quando até o apresentador deixa a desejar no quesito soletração. No mais, as outras atrações do programa se assemelham muito a tudo que já foi feito aqui e por toda parte. O melhor para o apresentador é seguir fazendo o que vem fazendo, e muito bem! Sem grandes preocupações com plágio, uma vez que nem o divertido e inovador CQC (Rede Bandeirantes) é fruto de uma mente criativa nascida em terras brasileiras: É argentino!

Oito anos depois da entrada maciça de programas e formatos importados em nossas programações, esta forma de fazer televisão se tornou tão comum, que não é difícil ter quem – como no caso de Luciano Huck – se ache dono da idéia, tomando como sua a criatividade que pode ser de qualquer emissora, desde que se pague por ela!

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A falta de criatividade na televisão foi abordada no programa Ver TV (TV Câmara) do dia 18/09/08.

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Crítica de televisão, Brasília, DF

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