Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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Nem sempre temos respostas

Por Afonso Caramano em 19/04/2011 na edição 638

Nem sempre temos respostas para tudo – e isso não parece muito reconfortante. Há quem diga que mais importante que respostas são as perguntas certas, capazes de despertar reflexões mais aprofundadas, a partir das quais se pode alcançar, então, uma dimensão mais lúcida de determinados fatos, ou ao menos cercá-los e delineá-los em perspectiva para possíveis explicações, nem por isso definitivas.

Fatos como o de Realengo, em que o excesso da violência cometida contra crianças e adolescentes excede a razão, abrem um verdadeiro buraco negro de indagações múltiplas, precipitando-nos a todos, e principalmente os meios de comunicação na busca por explicações razoáveis, por alguma compreensão, embora a ânsia por respostas não possa aplacar a dor dos familiares ou tampouco esgotar os questionamentos de uma sociedade perplexa.

No entanto, a precipitação por respostas – seja de especialistas de áreas diversas ou pela espetacular cobertura, que não raras vezes excede os limites dramáticos na exposição das vítimas e familiares – na tentativa de maior abrangência do fato, acaba por seguir tão-somente a lógica jornalística de esgotamento do assunto diante das premências diárias ou, o que é pior, diante de uma nova tragédia ou pauta – incapaz, portanto, de dar a dimensão exata dos acontecimentos e suscitar discussões relevantes sobre temas delicados e complexos para a sociedade.

Existência insuportável

E se vivemos uma época de excessos e superexposição, a imprensa também opera nos limítrofes, senão no vórtice, dessa convulsão própria da vida contemporânea, enfim, na rede de informações imediatas e acontecimentos simultâneos – sendo o seu papel ‘mediar’, não apenas na reverberação de discursos prontos, movida por interesses privados ou partidários, mas sim, com responsabilidade social e coragem de enfrentamento.

As respostas nunca serão fáceis e certamente vão nos obrigar a olhar o emaranhado das inter-relações sociais e o mal-estar de muitas coisas não resolvidas ao longo de nossa história, na escamoteação de desigualdades arraigadas, no ranço escravocrata subjacente aos preconceitos cada vez mais evidentes, no ódio que sobrepuja, na eloquência raivosa (como a que veio à tona, por exemplo, nas últimas eleições), nas fobias, no medo social, campo propício para o radicalismo de ideias ou religioso e oportunistas de plantão em busca de algum lucro, enfim, nas frustrações da vida cotidiana, premida pela visibilidade extrema, pela gerência mercantilista das relações, pelo consumismo excessivo – reflexos de um mundo fragmentário, dissoluto, em que o humano perde a face, o próprio rosto, talvez como o assassino de Realengo, numa confusão mental doentia, que paradoxalmente busca punir no outro, no caso, crianças, em sua maioria meninas, o próprio deslocamento, a incomunicabilidade a que se pode chegar, interrompendo, com um ato de brutalidade (na linguagem da violência excessiva, única capaz de captar toda a atenção) o contínuo da vida como se isso pudesse juntar os cacos, o descontínuo de qualquer existência, no caso desse jovem, uma existência insuportável, que só poderia encontrar significado na morte/punição/redenção.

Amadurecimento necessário

Isso não ameniza qualquer sofrimento. Pelo contrário, expõe todas nossas contradições e fragilidades. Ingressamos de vez nas neuroses contemporâneas, pagando o tributo em vidas, sem que se possa alegar inocência, senão admitir que, embora tenhamos acertos, são inúmeros os erros – e neste momento a responsabilidade de todos, que é também a dos meios de comunicação e da imprensa, deve ser a franca discussão dessas difíceis questões, principalmente em relação a políticas públicas capazes de responder às transformações sociais, com especial enfoque ao papel fundamental da escola em qualquer sociedade desenvolvida.

Isso certamente passa por um amplo planejamento (que deve envolver governos federal, estadual e municipal) e pela coragem (apartidária) para uma mudança real de paradigmas, numa visão menos fragmentária da educação e das políticas de saúde (mental, inclusive), de cultura, de esportes etc. – uma pauta que deve ser recorrente nos noticiários.

Esse é um amadurecimento necessário e dele dependerá o tipo de nação e sociedade que realmente desejamos construir e perpetrar, com valores democráticos e de liberdade, menos doentia, ainda que possa soar um tanto utópico.

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Funcionário público, Jaú, SP

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