Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

JORNAL DE DEBATES > IDENTIDADE CULTURAL

Nem tudo o que é bom para eles é bom para nós

Por José Carlos Aragão em 03/08/2004 na edição 288

De uma entrevista publicada no Jornal do Brasil (26/7/04):

‘Diante da perspectiva de viver longe da Globo, ele [o ator, diretor e produtor Daniel Filho] começou a investir também em teatro. ‘Já comprei os direitos sobre duas peças americanas’, avisa.’

Parece que a dramaturgia brasileira não está com nada, realmente. Tirando os chamados ‘processos colaborativos’, que parecem ter, sempre, a unanimidade da crítica e – claro – de grupos que os adotam, não restou pedra sobre pedra depois de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos. Ou Ariano Suassuna, para não dizer que não falei dos vivos.

É o que parece.

Quando um artista de peso como Daniel Filho se sente, de repente, excluído da TV – onde construiu uma respeitável carreira profissional ao longo de décadas – e decide se bandear para o teatro, a primeira coisa que ele faz é estufar o peito e dizer que vai montar duas peças… de autores americanos!

Funesto modelito

O que quererá dizer com isso? Que não há autores brasileiros de teatro com talento suficiente, a quem o risco de associar seu prestígio e renome de diretor e produtor se justifique? Ou que a razão para não se arriscar é apenas uma opção de marketing e bilheteria?

Melhor seria, então, que mergulhasse no questionável processo colaborativo e – a exemplo de honrosas exceções entre apologistas e adeptos desse método, como o Grupo Lume, de Campinas –, investisse esforços e recursos na busca de uma nova dramaturgia original brasileira, uma nova linguagem, uma nova estética.

Virou uma praga: produtores, diretores e até atores que querem produzir sua própria peça vão duas ou três vezes por ano a Nova York e voltam com direitos adquiridos de algum sucesso de meia-colher off-Broadway para emplacar na nossa pátria-amada-salve-salve! Acreditam que, assim, o sucesso de lá se repetirá aqui. Ficam um, dois, três anos convencendo marqueteiros de grandes patrocinadores a financiar seu projeto faraônico, que vai ser capa de segundo caderno e ganhar entrevista no Jô (que sempre dá os nomes da empresa que paga para ter seu logotipo no programa ou cartaz da peça). Quando conseguem captar recursos – geralmente via leis de incentivo –, grande parte da grana tem que cobrir as próprias despesas de captação: lobbies, viagens, jantares e mimos de convencimento, assessorias de imprensa que assegurem visibilidade ao projeto mesmo na fase das meras intenções…

E o funesto modelito já tem dado crias fora do eixo Rio-São Paulo. Outras capitais, que chegaram a importar montagens cariocas ou paulistas ou já começam a freqüentar as salas nova-iorquinas para garimpar possíveis campeões de bilheteria.

Apenas brasileiro

Enquanto isso, pobres dramaturgos nacionais, atolados e esquecidos no pântano do ostracismo, sem ninguém que ouse bancar sua modesta versão da realidade brasileira ou seu mirabolante delírio tropical para os palcos tupiniquins!…

Enquanto isso, pobre da dramaturgia brasileira que não se renova, não inova. (Não inova por que não se renova, ou não se renova por que não inova?)

Porque ninguém quer correr riscos e, acreditam eles, ‘o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil’. (Falta pouco para incluírem ovos com bacon no café da manhã, trocarem os passos de samba pelo sapateado na Sapucaí, e invadirem o Iraque.) Porque – a despeito do que nos deram os modernistas de 22, o Jeca Tatu, a Inconfidência Mineira, o Cinema Novo, a seleção do Telê, a Bossa Nova, Chiquinha Gonzaga, o Tropicalismo, Guimarães Rosa, Luiz Gonzaga – essa gente parece ter um corrosivo menosprezo pela cultura nacional.

Gente assim é que permitiu que Hollywood, ao longo de quase 100 anos, ocupasse, sem qualquer resistência, a maior parte das salas de cinema do nosso país.

Defendo todo intercâmbio entre culturas e não sou xenófobo, mas brasileiro, apenas. E, se não fizermos nada agora, corremos o sério risco de que nos engula uma cultura alienígena que já começa a invadir os palcos brasileiros na forma de grandes musicais pré-moldados, com seus tentáculos gosmentos apinhados de diretores, técnicos, engenheiros e vasta parafernália de luz, som e efeitos especiais.

Dramaturgos: uni-vos!

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Jornalista, escritor e dramaturgo, Belo Horizonte (http://naoeumabrastemp.zip.net)

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