Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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JORNAL DE DEBATES >

Nietzsche na discussão

Por Alexander Goulart em 06/03/2006 na edição 371

O colunista eletrônico ou de jornal impresso, jornalista ou não, deve ser muito feliz. Feliz porque a ele é permitido relatar os fatos e incluir sua opinião. Ao repórter, por sua vez, cabe a objetividade, a imparcialidade. Opinião em matéria jornalística só se for de um terceiro, e ainda assim deve ser confrontada. Essa é a regra. Assim se faz jornalismo de credibilidade.

Contudo, vez por outra, um questionamento vem à tona. A matéria objetiva e imparcial não poderia ser mais afiada, provocativa, não poderia despertar a consciência e o senso crítico usando o questionamento como estratégia?

Um exemplo: nas últimas semanas, a discussão sobre a inconstitucionalidade da lei de crime hediondo vem despertando diferentes sentimentos na sociedade e ganhando espaço na mídia. A disposição do STF em permitir a progressão de regime, quando cumprido 1/6 da pena, assusta a uma parte da população e agrada a segmentos vinculados à defesa dos direitos humanos e a juristas. Mais do que uma questão legal, a polêmica torna evidentes diferentes interpretações sobre o que vem a ser a justiça e traz à tona a ambivalência que reside em cada ser humano. Pois é esse aspecto da subjetividade humana que fica de fora da abordagem jornalística. Por que não usar, por exemplo, Nietzsche na discussão?

Motivação

Justiça ou vingança? O que motiva a sociedade a exigir uma punição? O filósofo Friedrich Nietzsche afirma que a idéia de que o criminoso merece um castigo, porque teria podido proceder de outro modo, é um juízo de indução que tem sua origem na crença de que a dor é o mais poderoso auxilio da memória, ou seja, uma idéia se torna indelével na memória quando marcada pela dor. Assim, o castigo tem por base a compensação de um determinado prejuízo pela dor que sofra o autor do prejuízo, como numa espécie de contrato em que o devedor autoriza o credor a ser cruel em caso de não-cumprimento da promessa. Fazer sofrer daria prazer à parte ofendida, gerando uma reparação. Para Nietzsche, sem crueldade não há gozo e o castigo é uma festa! É algo muito primitivo.

Segundo o filósofo, com o tempo, esse instinto de crueldade, do fazer sofrer pela simples excitação do momento, ganhou um contorno moral e foi suavizado no ideal de justiça. O pacto de justiça, de boa vontade entre as pessoas de igual poder, permite viver em paz na sociedade. Aquele que quebrar esse pacto estará causando um prejuízo, violando seu compromisso, transformando-se num devedor (culpado) que permite aos seus credores castigá-lo. Assim, a justiça seria uma vingança gerada pelo ressentimento e o castigo tentaria retornar ao estado de equilíbrio, isolando o culpado. Para Nietzsche, a crença de que o castigo despertará no culpado o sentimento da falta ou remorso é quase ingênua, visto que o verdadeiro remorso é raro. O castigo doma o homem, mas não o melhora.

O intuito dessa reflexão, para a qual o jornalismo poderia contribuir, é nos fazer pensar sobre o que realmente nos motiva. Será que não usamos palavras e discursos que mascaram o que há de mais primitivo em nós e assim tranqüilizamos nossa consciência? Ir a fundo nos sentimentos que nos motivam pode nos ajudar a ser mais sinceros e a fazer nossa própria penitência. Despertar para a consciência: eis uma das missões do bom jornalismo.

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Jornalista, mestre em Comunicação

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