Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > O GLOBO vs. PETROBRAS

No contexto da manipulação da informação

Por Mário Augusto Jakobskind em 28/11/2006 na edição 409

O Globo voltou a dar ar de sua graça. Manipulador como sempre, o jornal carioca estampou em manchete, na edição de domingo (19/11), que a ‘Petrobras favorece ONGs ligadas ao PT com patrocínio’. Repórteres ditos ‘investigativos’ foram postos para ‘decifrar o enigma’, enigma este que não depende de nenhuma investigação propriamente dita, como dá a entender o jornalão da Rua Irineu Marinho. Basta consultar o site da Petrobras para verificar que o patrocínio da empresa às entidades que atuam na área social vem sendo uma rotina.

Em um só momento o jornal coloca em questão o motivo pelo qual o Estado brasileiro deixou uma lacuna, retirando-se da ação nas áreas sociais. Por isso, as ONGs ocuparam o espaço. A Petrobras não deve ser criticada ou questionada por ‘patrocinar’ ONGs que agem na área social, mas sim a política econômica neoliberal. Esta é a chave da questão. Mas, aí, O Globo não entra, pois estaria se contradizendo em termos do que sempre fez, ou seja, a defesa do Estado mínimo. Preferem os editores maquiar o fato com uma reportagem pretensamente ‘investigativa’.

No dia seguinte à ‘reportagem investigativa’, a direita mais à direita do espectro político brasileiro, o PFL, sai em campo e ameaça investigar o patrocínio da Petrobras com uma CPI. Isto é, assim caminha a manipulação da informação que surge no horizonte com o visível intuito de enganar os incautos e fazer o jogo pode-se imaginar de quem.

Quando se trata da questão das verbas públicas na área da mídia, a história mais ou menos se repete. O posicionamento em favor da democratização das verbas públicas no setor é duramente criticado, exatamente pela mídia conservadora, que não aceita a entrada em cena na imprensa de novos protagonistas. Ou seja, dirigentes e proprietários dessa mesma mídia conservadora são os primeiros a gritar, com ressonância na Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), quando o tema entra em discussão. A história, como agora, se repete também como farsa. O Estado fortalecer as mídias públicas, comunitárias e a imprensa alternativa à grande mídia é pecado mortal para o conservadorismo, que não quer de forma alguma mudar as regras do jogo totalmente injustas. Está aí um tema que merece aprofundamento e ser discutido pela sociedade brasileira. Objetivo: exatamente aprofundar o processo democrático.

Peça de engrenagem

E ainda em relação às Organizações Globo, a TV Globo mostrou em um dos seus programas, o eletrônico de que sai sangue (como os tais jornais impressos que se locupletam com o crime) Linha Direta, o martírio de Frei Tito, religioso vítima da dura repressão nos anos de chumbo. A reportagem tentava induzir os telespectadores a crer que o lamentável episódio se insere num contexto como outros apresentados ao longo da série Linha Direta, despolitizado e voltado para o crime comum. Não é por aí: Frei Tito foi vítima da repressão política que se abateu sobre o povo brasileiro e que teve apoio de setores que hoje tentam posar de democratas desde criancinha. O delegado Sérgio Paranhos Fleury foi o instrumento utilizado em determinado momento por esta gente que continua reciclada até hoje.

No meio das, de passagem, tímidas pitadas políticas da história de Frei Tito, os editores globais cometeram mais um erro histórico, resta saber se deliberado ou não, ao se referirem ao Congresso da UNE realizado em Ibiúna, em 1968. O governador eleito de São Paulo, José Serra, do PSDB, ex- presidente da União Nacional dos Estudantes, antes de 1964, foi apresentado no Linha Direta como participante do Congresso da UNE em Ibiúna, quando em 1968 já estava no Chile. Esta pode ser encarada como mais uma comprovação de que os globais constroem a história a sua maneira e de acordo com os seus interesses imediatos.

Aliás, por que será exatamente que a Globo, a mesma Globo que silenciava diante das denúncias de torturas e apoiava o regime ditatorial, decidiu apresentar a história de Frei Tito, mesmo colocando-a como algo à parte do contexto político da ditadura? Como se o famigerado Fleury não fosse peça de uma engrenagem que hoje é até lembrada com saudosismo em portais de boquirrotos de extrema direita.

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