Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1020
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No Mínimo

07/02/2006 na edição 367



CRISE POLÍTICA
Villas Bôas-Corrêa

Jobim atiça a crise entre a toga e o Congresso, 03/02/06

‘Candidato, nas dores da véspera da definição, costuma cometer os pecados veniais da pressa nos surtos de angústia. Mas, o companheiro ministro Nelson Jobim saltou a cerca dos limites para o ineditismo do gesto típico de candidato em campanha, em pronunciamento de comício, na tribuna de presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nada faltou ao ato memorável. As imagens nos noticiários das TVs, as fotos nos jornais, o flagrante histórico dos cochichos entre os companheiros da cúpula do Executivo e do Judiciário completam o texto das matérias. Na sessão solene de abertura dos trabalhos do Judiciário, o companheiro candidato à reeleição em campanha ostensiva em tempo integral, derrete-se em sussurros ao pé do ouvido do companheiro Jobim, aspirante à vaga aberta de candidato à vice-presidência.

Certamente que não faltam as explicações óbvias de que a foto registra uma banal troca de impressões, o que é evidente.

Mas, fotos têm o seu simbolismo. A do enlevado colóquio entre parceiros de uma sólida aliança provada em momentos críticos é o documento que dispensa legenda.

Ilustra e ilumina o insólito pronunciamento do companheiro Nelson Jobim, da encenada indignação do desabafo contra as críticas da imprensa à confirmação de que antecipará por três meses a despedida da toga até fim de março (por coincidência, a tempo renovar o alistamento no PMDB e de ser candidato nas eleições de 1º de outubro), o que se ajustaria, como luva em mão que pede voto, na mudança para o palanque do companheiro Lula.

A irritação trai a impaciência com as cobranças que chovem em temporal a inundar o pedaço. O advogado Ivan Nunes Ferreira protocolou no STF a interpelação ao ministro Nelson Jobim – em seu nome e de 36 ilustres signatários, entre os quais o jurista Goffredo da Silva Teles, o arcebispo de Mariana, Dom Luciano Mendes de Almeida, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azedo – para que ele declare se é ou não candidato a cargo político nas eleições deste ano. No caso afirmativo, deve renunciar imediatamente à presidência do STF e a função de ministro, sob pena de ser denunciado por crime de responsabilidade.

Um desagradável enguiço no esquema montado com cuidado e antecedência. Desde a jogada de mestre, em meados do ano passado, quando logrou a proeza, com a preciosa ajuda do então presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (que renunciou ao mandato, enrascado no escândalo do recebimento de propina do dono do restaurante que funcionava na Câmara) da aprovação fulminante, nas duas Casas do Congresso, do aumento dos salários dos ministros do STF em dose dupla: de R$ 19 mil para R$ 21.500, em 2005, retroativo a 1º de janeiro, com direito à bolada dos atrasados e, em novo salto olímpico para R$ 24.500 neste ano.

No caso, tacada com repique na tabela: o previdente articulador do reajuste para os ministros da mais alta Corte da Justiça, garantiu a aposentadoria confortável, no teto próximo da lua; afagou os seus colegas e a toda a corporação, regada pela generosidade da solicita viúva.

Antes de despir a toga, como companheiro fiel agora e em prováveis futura jornadas, o ministro Nelson Jobim prestou um serviço inestimável ao candidato Lula.

Com duas pancadas na moleira tonteou a temida CPI dos Bingos que vinha infernizando a paciência do governo e do presidente com a teimosia em apurar denúncias que arranham a porta do seu gabinete no Palácio do Planalto.

Com a concessão de duas liminares, numa impediu que a CPI quebre os sigilos bancários, fiscais e telefônico do presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, o prestimoso amigo mão-aberta de Lula, que jura que pagou do seu bolso, espontaneamente, sem o conhecimento de beneficiário, a dívida de R$ 29.400, contraída com o partido da desbotada bandeira vermelha e, noutra, dispensa o empresário Roberto Carlos Kurzweil de ser importunado com suspeitas impertinentes, como a de ter intermediado a doação da bagatela de R$ 1 milhão de empresários de bingos para a campanha do PT e ainda de alugar o carro para o transporte dos dólares em caixas de uísque, da doação de Cuba para o caixa dois petista.

Ninharias. Uma crise entre o Judiciário e o Legislativo, que envolva e respingue no governo e no candidato à reeleição é a última das trapalhadas que pode tumultuar o trecho final do primeiro mandato de Lula e elevar a temperatura da campanha à fervura da insanidade.

Há tempo para o apelo ao bom senso e ao comedimento dos agitados pela ambição. Prazo curto, antes que o bate-boca descambe para a baixaria das acusações cruzadas.

O que não falta é munição no paiol.’



ANOS JK
Timóteo Lopes

Será mesmo o corpo de JK?, 02/02/06

‘A dúvida acende seu primeiro sinal quando os esquifes de Juscelino Kubitschek e de Geraldo Ribeiro são retirados apressadamente de duas kombis em frente à sede da revista ‘Manchete’, na Rua do Russel, na zona sul do Rio de Janeiro. É madrugada de 23 de agosto de 1976, uma segunda-feira. São poucas as pessoas que àquela hora – quase quatro horas da manhã – ainda estão ali. Parecem tensas, nervosas, estupefatas com a trágica morte do ex-presidente e do motorista que o acompanhara durante os últimos 36 anos. Mas, para se desvencilhar da presença ostensiva de policiais, quase todos à paisana, elas são rápidas e decididas: em não menos de três minutos, carregam os caixões para dentro do saguão da ‘Manchete’ e os dispõem lado a lado, em frente a uma escultura de pedras, árvores e raízes de Franz Krajcberg.

Com a justificativa de que os cadáveres ficaram completamente desfigurados, em conseqüência da gravidade do acidente na Via Dutra na tarde anterior, os esquifes de Juscelino e Geraldo estão – e irão permanecer até o sepultamento – absolutamente fechados. São exatamente iguais, até na simplicidade. A madeira de pinho envernizada de ambos é lisa, as alças, douradas. Não há um único detalhe que os diferencie. Logo, é natural que o porteiro Gileno Almeida faça uma indagação óbvia, mas adequada: ‘Em qual dos caixões está o corpo do presidente?’ Diante dos mesmos esquifes que começam a ser cobertos com cravos vermelhos, brancos e roxos, o repórter Tarlis Batista é resoluto. Afinal, só ele, entre os presentes, pode ter alguma certeza, pois, aboletado em uma das kombis, havia comandado o transporte dos corpos desde o Instituto Médico-Legal. Tarlis levanta o braço o direito e, com o dedo indicador: aponta, convicto: ‘O presidente Juscelino está no caixão à esquerda.’

Todos os que chegam fazem quase a mesma pergunta: ‘Em qual dos caixões está o corpo do presidente?’ Tudo é muito igual e ninguém parece lembrar ou tem coragem de estender uma bandeira nacional sobre o ataúde de Juscelino Kubitschek. Até às 11h45, o corpo do político mineiro é velado no edifício da ‘Manchete’ e 1.892 assinaturas são registradas nos dois livros de presença. Em seguida, sob um escaldante sol do meio-dia, um cortejo de cerca de três mil pessoas ganha as ruas do bairro da Glória, entra no aterro do Flamengo e carrega nas mãos o que deve ser o esquife do ex-presidente até o Aeroporto Santos Dumont, de onde seguirá para o sepultamento no Campo da Esperança em Brasília.

O velório de Geraldo Ribeiro, no entanto, prossegue até perto das 16h, quando pouco mais de 100 pessoas levam o caixão para o Cemitério São João Batista. Ele é enterrado no túmulo 410-B da quadra 12. Na sede da ‘Manchete’, a dúvida se instala de vez: em que detalhe ou em que diferença Tarlis Batista havia se baseado para indicar, com tanta certeza, que o ataúde de Juscelino Kubitschek fora colocado à esquerda?

Esta é apenas uma das muitas histórias que começam a emergir com a ressurreição midiática de Juscelino Kubitschek no rastro da minissérie da TV Globo e será contada por funcionários dos áureos tempos da Editora Bloch em livro que deve ser lançado em meados do ano. Além de narrar o apogeu e a decadência de um império jornalístico, a publicação – que aponta indícios e possibilidades – pode instigar ainda mais o imaginário popular sobre uma morte que ainda permanece nebulosa, enigmática, polêmica. ‘Não foi uma nem duas vezes que ouvi falar de um possível engano, uma troca despropositada’, afirma o escritor e jornalista Murilo Mello Filho. ‘Logo, o corpo de Juscelino Kubitschek poderia ter sido sepultado no Rio e o de Geraldo Ribeiro no Campo da Esperança, em Brasília.’

Bloch monta pelotão de resgate

Quase trinta anos depois, Murilo Mello Filho lembra, como se vivesse hoje, aquela madrugada tensa e confusa de agosto de 1976. Ele assinala que, desde que o Chevrolet Opala verde que trazia Juscelino Kubitschek para o Rio de Janeiro invadiu a contramão do quilômetro 162,5 da Via Dutra batendo de frente contra uma carreta Scania que trafegava no sentido oposto e se transformou num amontoado de ferros retorcidos e vidros espatifados, a morte do ex-presidente é tratada com a irresponsabilidade dos boatos e a dramaticidade dos mistérios.

Murilo Mello Filho era um dos principais colunistas políticos da revista ‘Manchete’ na época e rememora detalhes de uma noite singular em sua vida. Enquanto se discutia se o acidente poderia ter sido uma circunstância trágica de estrada ou um crime político, era também necessário tratar das cerimônias fúnebres. ‘Estava decidido que o velório seria realizado no Museu de Arte Moderna, mas Adolpho Bloch não se conformava’, afirma o escritor e jornalista. ‘Ele queria que Juscelino fosse velado na sede da ‘Manchete’, onde o ex-presidente tinha seu escritório no décimo-segundo andar.’

O dono da Editora Bloch tinha suas razões. Alegava que muitos dos que deram as costas a Juscelino Kubitschek em anos de ostracismo queriam naquele momento se apossar de seu cadáver e que a ‘Manchete’ havia seu único e último refúgio. Foi, então, que teve a idéia de organizar uma espécie de pelotão de resgate com a missão de desviar o trajeto dos dois corpos que, por volta de 3h da madrugada, eram esperados pela diretora Niomar Muniz Sodré Bittencourt no Museu de Arte Moderna. Pediu que Murilo Mello Filho, o escritor Carlos Heitor Cony e o repórter Tarlis Batista, entre outros, partissem para a tarefa – um vale-tudo. ‘Foi muito difícil’, conta Mello Filho. ‘O motorista só aceitou mudar de percurso quando lhe demos uma boa gorjeta.’

Com o passar do tempo, um outro protagonista da missão de resgate – o escritor Carlos Heitor Cony – passou a vasculhar mistérios e estranhezas que até hoje cercam o fim do ex-presidente. Escreveu ‘JK – Como nasce uma estrela’ e foi um dos autores de ‘O Beijo da Morte’, em que sugere que as mortes de Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda foram ações perpetradas pela Operação Condor – organização secreta criada em 1974 pelas ditaduras militares do Cone Sul para eliminar inimigos. (Procurado por NoMínimo, o escritor informou, por meio de sua secretária, que está de férias até o final de fevereiro, embora sua coluna continue saindo diariamente na ‘Folha de S. Paulo’.)

Na única vez em que escreveu algumas linhas sobre as cerimônias fúnebres, Carlos Heitor Cony não menciona o suborno revelado por Murilo Mello Filho, mas também reforça a desordem e a possibilidade dos restos mortais de Juscelino Kubitschek não estarem repousando no Memorial JK, em Brasília. ‘Quem não acreditar que não acredite’, diz ele na crônica intitulada ‘Coisas que acontecem’, publicada em 4 de junho de 2005 na página dois da ‘Folha’. A sua memória do episódio mistura realidade e ficção. Escreveu: ‘Do lado de fora, vi um rabecão saindo da garagem do instituto, com o Tarlis Batista ao volante, no banco da frente, pedindo ao povo que abrisse caminho. Meia hora após, o velório teria início com gente aos prantos, no saguão da ‘Manchete’.’

Um repórter cheio de histórias

O comandante da improvisada missão de resgate, o repórter Tarlis Batista, foi um jornalista que construiu quase toda sua carreira na Editora Bloch. Era uma figura muitas vezes folclórica, um repórter obstinado. ‘O Tarlis tinha a fama de se enredar em matérias fáceis e de conseguir reportagens impossíveis’, recorda um de seus companheiros na ‘Manchete’.

Os exemplos são inúmeros. Nenhum outro jornalista brasileiro conseguiu se aproximar do cantor Frank Sinatra, em 1980, quando ele aqui desembarcou para uma lendária apresentação no estádio do Maracanã. Só Tarlis Batista. ‘O Sinatra gostou tanto dele que, além de abrir seu camarim, posou para várias fotos a seu lado’, conta outro de seus colegas da Editora Bloch.

Tem outras histórias. Amigo de Edson Arantes do Nascimento, ele resolveu contar a vida de descasado do rei do futebol na reportagem ‘Minha liberdade vale ouro’. No dia da sessão de fotos para a capa da revista, Tarlis escolheu algumas modelos para serem fotografadas ao lado de Pelé. Fisgou uma delas para apresentar ao rei. Era Xuxa Meneghel que, naquele dia, recebeu seu passaporte para o estrelato.

Não só ela. Ao conhecer uma atriz iniciante que chegou ao Brasil para interpretar um pequeno papel no filme ‘Feitiço no Rio’, Tarlis Batista convenceu-a de que suas chances em Hollywood aumentariam se ela aceitasse posar de top-less nas areias da Barra da Tijuca. A atriz aceitou e, logo em seguida, se transformou num furacão de sensualidade nas telas de cinema. Era Demi Moore.

Até falecer, há três anos, Tarlis Batista sempre desconversava quando alguém lhe indagava da possibilidade de ter se enganado ao indicar em qual dos ataúdes estava o corpo de Juscelino Kubitschek. ‘Ele mudava de assunto ou procurava transformar a dúvida em troça’, declara outro de seus colegas de redação. E, assim, a história de que os restos mortais de Juscelino Kubitschek poderiam estar repousando no Cemitério da Paz, em Belo Horizonte – para onde os familiares de Geraldo Ribeiro os transferiram em 1981, certos de que eram os do motorista – é um prato cheio para todos os que acreditam em teses conspiratória e costumam desconfiar das versões oficiais dos fatos.

Um episódio repleto de enigmas

Autor de ‘Brasília Kubitschek de Oliveira’, obra de referência da minissérie ‘JK’ que está sendo apresentada na Rede Globo, o escritor Ronaldo Costa Couto não tocou nem passou perto da hipótese. No livro de 402 páginas, ele dedica apenas seis linhas ao velório no saguão da ‘Manchete’, ressaltando apenas que Adolpho Bloch chorava como criança. Costa Couto acredita que – como muitas teorias conspiratórias – esta também é fantasiosa. ‘São muitos os exemplos’, diz ele. ‘Já disseram que Adolf Hitler não havia se suicidado em 1945 e estava vivo no interior do Paraguai.’

A verdade é que, muitas vezes, a morte de personagens públicos transforma-se em num acontecimento repleto de mistérios e interrogações. Logo, as versões conspiratórias surgem e se propagam como fogo em gasolina. Ninguém esteve mais no olho dos furacões do que a família Kennedy. Por muito tempo, o escritor Truman Capote sustentou que o presidente John Kennedy não morreu no atentado de que foi vítima em 1963, mas sobrevivia numa ilha da Indonésia, cercado por um intransponível aparato de seguranças. As incertezas não param por aí. Marilyn Monroe teria sido assassinada por saber demais sobre os bastidores do poder. John Lennon teria sido morto pela CIA. Jim Morrison – o libertário líder da banda The Doors – ainda estaria vivo num país do Oriente…

O mundo político brasileiro também é um terreno fértil para as teorias conspiratórias. As mortes de Paulo César Farias, Pedro Collor de Mello, Luiz Eduardo Magalhães e a do prefeito de Santo André, Celso Daniel, são as que despertam mais suspeitas em capítulos recheados de inveja, disputa, vingança e corrupção. Nenhuma, no entanto, esbanja tanta nebulosidade quanto a de Juscelino Kubitschek. ‘Ele foi assassinado pela ditadura’, afirma Serafim Melo Jardim. ‘Não foi acidente. Foi um crime político.’

Serafim Melo Jardim foi secretário particular de Juscelino Kubitschek até as 17h55min de 22 de agosto de 1.976 – hora e dia em que o ex-presidente morreu na Via Dutra. Recolhido em Diamantina, Serafim reuniu uma série de certezas para escrever ‘Onde está a verdade?’, livro em que enumera detalhes, coincidências, interesses e interessados no desaparecimento de seu chefe e amigo. Lembra aqueles tempos em que o regime militar usava e abusava de sua rígida musculatura para afastar, constranger e até torturar inimigos, desfiando uma série de fatos estranhos que testemunhou antes, durante e depois do velório de Juscelino Kubitschek e Geraldo Ribeiro. ‘Prefiro acreditar que a troca de corpos seja um exercício de imaginação, uma fantasia’, diz ele.

No entanto, faz algumas ressalvas. Aos ataúdes exatamente iguais e absolutamente fechados como foram velados e desceram às sepulturas, o secretário particular adiciona mais um detalhe inusitado: a exumação realizada em 12 de setembro de 1981 – quando os restos mortais de Juscelino foram transferidos para o Memorial JK – não foi presenciada por nenhuma pessoa do círculo íntimo do ex-presidente, nem familiares nem amigos. Por isso, toda vez que alguém lhe apresenta indícios de que os corpos de Juscelino Kubitschek e do motorista Geraldo Ribeiro podem ter sido trocados involuntariamente no velório, a dúvida acende mais um sinal. Falando pelo telefone, de Diamantina, Serafim Melo Jardim entrincheira-se na cautela e dispara uma interrogação: ‘Num episódio repleto de enigmas como o da morte de Juscelino Kubitschek, por que não se poderia acrescentar mais este?’’



JK NA GLOBO
Zuenir Ventura

Teorias conspiratórias, 31/01/06

‘É mais intrigante achar que a princesa Diana ainda está viva, que John Lennon foi executado a mando da CIA, que Marylin Monroe foi assassinada, e que o Titanic não naufragou, foi tudo uma montagem. As teorias conspiratórias são fascinantes porque às vezes fazem mais sentido e têm mais lógica do que a realidade, já que são construídas com base na imaginação e na fantasia. Elas representam um ato de recusa da versão oficial dos fatos. Para seus criadores, o que importa não é o que aconteceu de verdade, mas o que, segundo eles, deveria ter acontecido.

A mais recente teoria conspiratória que me chegou explica em detalhes as razões pelas quais a TV Globo lançou agora a mini-série ‘JK’. Baseado em alguns antecedentes, o autor da hipótese conclui que, com a obra de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, começou a campanha de Geraldo Alckmin para presidente da República.

Na campanha de 89, ele argumenta, o Jornal Nacional colocou os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. ‘No final todos sabemos o que deu’. Em 94, o mesmo JN fez uma série de reportagens mostrando a força do Real. ‘Deu FHC na cabeça’. Em 98, a Globo lançou uma novela em que um nordestino semi-analfabeto chega a ser eleito prefeito, vencendo o outro candidato, que tinha estudos. O prefeito eleito só fez lambança e acabou deposto. ‘Deu FHC de novo’. Em 2002, o JN fez uma série de reportagens mostrando a vida sofrida dos nordestinos em São Paulo. ‘Lula é eleito’.

Em janeiro de 2006, depois de Lula se comparar a Juscelino, foi lançada a mini-série, o que leva o autor da teoria a tentar descobrir ‘o que há por trás dessa idéia de homenagear JK’. Ele coloca algumas questões:

1. Por que não fizeram esta série em 2002, ano do Centenário de nascimento do JK?

2. Vocês já perceberam que um dos amigos do JK era o avô do hoje governador de São Paulo Geraldo Alkimin (sic)?

3.Vocês já pararam para pensar que a trajetória de Geraldo Alkimin é igual ao do ex-presidente JK, já que batalhou para ser um médico, sofreu bastante?

4. Não será por que a série quer mostrar que JK não é igual ao Lula e sim Alkimin?

5. Por que uma série num ano eleitoral, cujo um dos grandes amigos de JK era o avô dele? O que há por trás de tudo isso?

Sem considerar o fato de que José Maria, o mineiro, era Alkmin e não Alckmin, como o paulista, e que um não é avô do outro, faço uma revelação: se há conspiradores nessa história, os principais suspeitos são os jornalistas Elio Gaspari e este que vos escreve. Conto tudo. Em março de 2004, num jantar na casa de Edla Van Steen e Sábado Magaldi, cobramos de Maria Adelaide:

– Depois de ‘Um só coração’, sobre São Paulo, você está nos devendo uma série que tenha o Rio como pano de fundo.

– Mas sobre o quê?’ – ela perguntou.

– Sobre JK, claro! – um de nós respondeu.

Maria Adelaide ainda ficou meio assim, mas Elio animou-a dizendo que poria à sua disposição todo o material de seu arquivo. O tempo passou, eu já tinha me esquecido da conversa, quando há alguns meses li uma entrevista em que a novelista contava o episódio, nos dando o crédito da idéia.

Sei que a versão do leitor é muito mais rica e inventiva do que a minha, mas a realidade às vezes é assim mesmo, sem graça, tão sem graça quanto um picolé de chuchu.’



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