Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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JORNAL DE DEBATES >

Notas sobre uma cobertura polêmica

Por Joaquim de Carvalho em 13/06/2005 na edição 333

O jornalista que usou meias verdades para falar do caso PC Farias agora me ataca com meias palavras. Num longo texto publicado neste Observatório, Mário Magalhães não diz, mas insinua, comportamento típico de quem quer agredir sem se comprometer [remissão abaixo]. Para tanto, o jornalista se vale de interrogações. Pontos de interrogações. Pasmem, leitores: no texto que parece interminável, ele usa cinqüenta vezes o sinal de pontuação que a língua portuguesa define como expressão de dúvida.


Mário Magalhães leva aos leitores dúvidas e não respostas. Fico imaginando Ben Bradley ou Katharine Grahan diante de um texto de Bob Woodward e Carl Bernstein sobre o Watergate repleto de perguntas. Teriam eles a coragem de publicar uma linha sequer sobre o caso? A sociedade americana necessitando de respostas e o Washington Post entregando perguntas. Não seriam capazes de tamanho ato de irresponsabilidade.


Bons repórteres usam as perguntas como meio para se chegar à melhor versão dos fatos, a versão que mais se aproxime da verdade – embora aqui os critérios sejam subjetivos. Perguntas são ponto de partida, não de chegada. E, para atravessar o pantanoso terreno da apuração jornalística, é preciso fazer muitas perguntas, inclusive a fontes que não queiram ter sua identidade revelada. É assim que aprendi na escola. Mas, a meu ver, o insinuante profissional usa as perguntas não por falta de preparo, que ele tem de sobra. Mas por ardil. Pode iludir a outros, não a mim. Foi este o arquétipo da cobertura que, lamentavelmente, encontrou espaço na Folha de S.Paulo, seis anos atrás.


Crime passional


Tudo começou quando o jornal publicou quatro páginas com muitas fotos que mostram Suzana ora ao lado de PC, parecendo mais baixa, ora com saltos enormes – sozinha, sem PC ou qualquer pessoa ao lado –, ora na ponta dos pés. Uma dessas fotos – repito, uma – foi usada para a realização de exames de perícia e a conclusão do perito: Suzana teria no máximo 1m57. Ela aparece de corpo inteiro e o cocuruto está abaixo do topo da careca de PC.


Pergunte-se às mulheres mais altas o que costumam fazer no momento da fotografia quando namoram homens mais baixos: elas relaxam o corpo para não parecerem mais altas. Pergunte-se aos baixinhos o que fazem no mesmo momento: enrijecem a coluna, estufam o peito, para ganhar alguns centímetros. Na nossa sociedade, a tradição reza que os namorados sejam mais altos do que as namoradas. Há exceções, é claro, mas se o baixinho puder ganhar alguns centímetros e a mulher, perder outros, melhor para os dois.


Portanto, não é prudente que a fotografia de Suzana ao lado de PC seja usada para a definição da altura de nenhum deles, como não é prudente que qualquer trabalho envolvendo Fortunato Badan Palhares seja, direta ou indiretamente, revisto por Ricardo Molina de Figueiredo. Seria o mesmo que entregar a Mário Magalhães meu livro, o Basta!, para ser resenhado por ele. Num caso como no outro, teria um vício de origem: a falta de isenção e, por conseguinte, de credibilidade.


A comunidade acadêmica da Unicamp sabia que, na ocasião da perícia da foto, Ricardo Molina travava no interior da universidade um embate com Fortunato Badan Palhares. A história desse embate merece ser contada, mas em outro momento. O que nos cabe aqui é registrar o resultado dessa disputa: Molina foi demitido da Unicamp e se mantém vinculado à universidade por medidas precárias da Justiça. O processo administrativo da Unicamp revela atos de desonestidade por parte de Molina. Fiquem atentos, leitores: qualquer hora dessas, aparece algum aventureiro para insinuar que a instituição fundada por Zeferino Vaz demitiu Molina por estar mancomunada com a turma de Augusto Farias. Com gente dessa estirpe, todo cuidado é pouco.


Pois bem: não era só a comunidade acadêmica que sabia da briga de Molina com Badan. Também era do conhecimento de muitos jornalistas e, ao que tudo indica, das autoridades alagoanas encarregadas de re-apurar o crime da casa da praia de Guaxuma. A mim, causa perplexidade o fato dos delegados terem escolhido um foneticista para fazer exames de imagens, justamente imagens que envolviam trabalho de Badan Palhares, em franca divergência com Ricardo Molina, diferenças que os dois tentam resolver na Justiça.


A escolha de Molina não é o único ato estranho cometido pelas autoridades judiciárias. Um juiz criminal de Alagoas decidiu realizar um segundo laudo sobre a morte de PC e Suzana. Até aí, nenhum problema. Se o juiz considerar que tem dúvida, pode requerer tantos exames quanto julgar que sejam necessários. Mas, na cobertura sobre os atos do juiz, nunca ninguém se perguntou que critérios Sua Excelência usou para escolher os peritos. Eram todos – repito, todos – oponentes do professor Badan Palhares. Estavam em lados contrários em outros processos e na política que se trava nos bastidores da indústria dos pareceres de que trato em meu livro.


O juiz poderia ter solicitado indicação da Sociedade Brasileira de Medicina Legal ou da associação de peritos criminais. Mas não fez isso, talvez porque a Sociedade Brasileira de Medicina Legal acompanhou o primeiro laudo e o presidente da associação dos peritos também tenha estado em Maceió e dito o que pensava: era um crime passional. Por conta dessa escolha aleatória de peritos para o segundo laudo, não é estapafúrdia a idéia de que o que se quis foi produzir um trabalho de contestação. Mais uma vez, faltou isenção por parte do grupo da segunda perícia.


Em áudio e vídeo


Magalhães diz que eu abracei a tese de Badan Palhares e o que faço é repeti-la. Equivoca-se mais uma vez o jornalista. O primeiro erro: o laudo que recebeu o nome de ‘laudo do Badan’ é assinado por mais nove peritos, de instituição tão diferentes como a Unicamp, o Instituto de Criminalística de São Paulo, o Instituto Médico Legal de São Paulo, o Instituto Médico Legal de Alagoas e o Instituto de Criminalística de Alagoas. Fico imaginando os dez especialistas em torno de uma mesa combinando o que fazer para manipular o laudo. Para fazer isso, teriam no mínimo que se corromper e, para tanto, sinais da corrupção deveriam aparecer. E investigação para localizar esses sinais não faltaram.


Foi aberto um inquérito em Alagoas. Uma CPI do Congresso Nacional quebrou os sigilos bancário e fiscal de todos eles e não encontraram um único movimento suspeito. No caso das pessoas que estavam na casa da praia de Guaxuma, também houve investigação. Na maioria dos casos, não havia nem sigilo a quebrar. Os funcionários da casa de Guaxuma – alguns ficaram desempregados – nunca tiveram conta em banco ou renda a declarar. Nove anos depois do crime, continuam tão pobres como eram. Basta ir lá e conferir: tem analfabeto, um segurança anda de bicicleta, outro faz um bico como camelô.


A vida deles é modesta, a escolaridade é baixa, mas existe um traço na biografia dessas pessoas expostas ao Brasil como suspeitos que me causa admiração: a firmeza de caráter. Submetidos a interrogatórios na Polícia por diversas vezes e, mesmo debaixo dos gritos das fontes de Mário Magalhães na CPI do Narcotráfico – Pompeu de Souza e Robson Tuma, principalmente –, nunca mudaram uma vírgula da versão que contam desde o primeiro dia sobre o crime.


Alguns seguranças já foram até presos – e não mudaram a versão. Ok, se estavam mentindo, era de se esperar que fossem pegos pela CPI ou pela polícia. Mas, nada. Até o sigilo de duas torres da companhia telefônica foi quebrado para verificar telefonemas suspeitos. E nada. Equivoca-se Mário Magalhães ao dizer que eu abraço ‘a tese de Badan Palhares’. Para mim, não é uma questão de tese. É uma questão de fatos e de versões. E se existe uma versão que realmente me convence é a da dona Marisa e do seu Leonino, o casal que morava na casa de Guaxuma com um casal de filhos.


O que eles contam é cristalino, conciso, convincente. Para mim, a verdade cabe em poucas palavras – palavras, bem entendido, não meias palavras. A despeito disso, dona Marisa passou a tomar calmantes cedidos por um posto de saúde depois que, num macarthismo às avessas, a onda enfurecida da cobertura jornalística alcançou a vida dela.


No seu ataque a meu trabalho, Magalhães mencionou diversos jornalistas que cito no meu livro. São jornalistas maduros o suficiente para se defenderem, se julgarem necessário, e a simples menção aos nomes deles me parece a atitude de um colegial que, acovardado diante de um colega, tenta reunir uma turma para enfrentar o oponente na saída da escola.


Diz Magalhães que não ouvi o outro lado. Devo lembrá-lo que relato situação que vivi e, felizmente, existe um tipo de jornalismo que prescinde do declaratório – vide Günter Wallraff, autor de Cabeça de Turco, Gay Talese e alguns outros. Na reportagem que fiz no meu livro, não me coloco como alguém no Olimpo ouvindo A e B. Até porque nós jornalistas sabemos que ouvir A e B não é suficiente para obter a melhor versão. No meu livro, me coloco na história. Afinal, estive em Alagoas na época em que os crimes aconteceram.


Foi nessa época que nós, repórteres, ouvimos pela primeira vez menção à altura de Suzana. Ela nunca foi descrita como mulher de baixa estatura. Alguns a mencionaram com mais de 1m70. Basta conversar com um dos homens que a conheceram na intimidade para ouvir a expressão ‘mulherão’.


Os peritos também discutiram nesta época a altura de Suzana: 1m67. Isto está gravado em áudio e vídeo. Qualquer um pode conferir. O médico Gérson Odilon, que fez a primeira necropsia, respondendo a uma pergunta de Badan Palhares, diz: ‘1m67, 1m68’. Em outro momento, é o perito Nivaldo Cantuária que responde: ‘1m67’. Há mais uma situação em que altura é mencionada: ‘1m67’. São registros da gravação em vídeo feitas pela equipe de Badan Palhares, a mesma gravação que Magalhães usa para dizer que, em nenhum momento, o professor da Unicamp aparece com fita métrica para medir o corpo de Suzana, depois da primeira exumação. Maldade. Não é necessário fita métrica quando a mesa da necropsia é dotada de uma régua centimetrada. É só olhar para ela e anotar a medida. Foi assim que fizeram Gérson Odilon, na primeira necropsia, e Badan Palhares, na segunda. Uma agenda com as anotações de Badan foi entregue à Polícia Federal para perícia. Esta agenda foi analisada pelo vice-procurador geral da República antes de decidir pelo arquivamento do caso.


Exemplo de Zola


1m67. Esta também foi a medida encontrada pelo legista Daniel Muñoz depois da segunda exumação do corpo de Suzana. Está no seu laudo: 1m67. Medida encontrada da ponta do crânio até o calcanhar. Depois, a equipe dele preferiu a medição indireta, a partir dos ossos da perna. E, mais tarde, justificaria a opção com um argumento curioso: no caixão, o esqueleto poderia ter se distendido. Uma distensão de dez centímetros. Numa interpretação rudimentar, mas válida: morta, Suzana teria crescido dez centímetros. O vice-procurador-geral da República não engoliu essa. Mas Magalhães escreveu que o 1m67 anotado por Muñoz era um erro de digitação. Não sei se ele quis defender o adversário de Badan Palhares, mas o fato é que a informação, impressa na Folha de S.Paulo, é uma mentira. Informação mentirosa, com conseqüências que, a meu juízo, não são fruto da ingenuidade nem da imperícia.


Magalhães se mostrou ofendido com esta conclusão de minha parte. Mas não encontro outra palavra para definir a atitude dele. Define o Aurélio: ‘Mentira. S. f. 1. Ato de mentir; engano; impostura; fraude; falsidade’. Magalhães diz que eu me engano quando trato por jornalista alguém que publica informação mentirosa. Diz ele: ‘Quem publica informação mentirosa é mentiroso. Jornalista mentiroso é uma contradição em termos. Ou se é jornalista, ou se é mentiroso.’ Ele próprio dá uma definição sobre jornalista que publica mentira, ao tratar de Jean Manzon – citado em meu livro apenas com intuito de ilustração, não de homenagem ou coisa que o valha. Diz Magalhães que esse tipo de profissional é ‘cascateiro’


Magalhães aponta que, em meu livro, em alguns trechos Ana Luísa, irmã de Suzana, aparece grafada como Ana Carolina. E o perito Domingos Tochetto é tratado com legista, embora seja formado em Biologia e Direito. São erros, não há dúvida. Mas que não trazem como conseqüência a destruição da biografia nem de Ana Luísa nem de Tochetto. Ao contrário do que aconteceu com as meias verdades da cobertura que envolveu Badan Palhares e alguns de seus colegas, como Antonio Francisco Bastos, um homem honrado – repito, honrado –, ambos jogados na vala comum de narcotraficantes e ladrões de carga. Atirados nesta vala sem que houvesse nenhuma evidência de ligação deles com qualquer crime.


Bastos, precocemente, morreu. De infarto. Dizem os amigos que por desgosto. Andava deprimido. Ao escrever o livro, tinha em mente o papel que desempenhou um jornalista francês no século 19, Émile Zola, que denunciou a imprensa e juízes no célebre artigo ‘Eu acuso’. Com a atitude, ele forçou a revisão de erro judicial que havia levado à cadeia o militar francês Alfred Dreyfus, injustamente acusado de traição à França. Ao contrário do que diz Magalhães, meu livro não reproduz ‘a tese de Badan’. O que eu procurei fazer foi demonstrar um massacre, um linchamento.


Um único tiro


Magalhães faz uma homenagem a um de seus parceiros na cobertura do caso PC, Ari Cipola. Conheci Cipola, uma pessoa afável. Mas a forma como Magalhães o descreve distorce fatos. Colocá-lo na condição de perseguido se encaixa no perfil preconceituoso que a imprensa do eixo Rio-São Paulo usa para descrever Alagoas, estado que deu ao Brasil três presidentes da República – goste-se ou não deles, foram presidentes – e juristas de renome.


No perfil preconceituoso, Alagoas seria a terra de foras-da-lei que transformou a vida de um apaixonado pela reportagem num inferno. A evidência apontada por Magalhães é o fato de Cipola ter sido recebido por um ministro da Justiça, que teria providenciado sua proteção pessoal, e das manifestações de apoio que obteve de grupos de direitos humanos. Magalhães omite o fato de que, depois que assinou as reportagens sobre a investigação das mortes de PC e Suzana, Cipola foi nomeado duas vezes secretário de Estado de Alagoas, na gestão do governador Ronaldo Lessa, e, por indicação de senadores, atuou no Sebrae, em Brasília.


Ao se tornar autoridade do estado, Ari Cipola fez companhia ao promotor que denunciou os seguranças de PC e teve entre outras atribuições cuidar da implantação de um banco popular. Definitivamente, não é o perfil de um perseguido. Cipola nunca apontou um fato concreto sequer que significasse ameaça e morreu jovem, num camarote VIP de uma festa badalada. O diagnóstico: parada cardíaca.


Magalhães pergunta – ele sempre pergunta – por que, em meu livro, não mencionei o caso envolvendo um tal de ‘Baía’, ligado a Augusto Farias, grampeado numa gravação sem pé nem cabeça. Resposta: porque, como jornalista, procuro me ater a questões centrais, não a intrigas ou a questões laterais. Não dei ouvidos a macumbeiros, videntes, familiares ressentidos e outros que usaram o caso para vinganças pessoais ou a outros propósitos menores. Procuro me ater ao fogo, não à fumaça. E, no caso específico, encontrei as respostas necessárias.


Para alguém matar outra pessoa, é preciso identificar o motivo, o instrumento e a oportunidade. Suzana tinha o motivo – são fartas as evidências de que estava sendo abandonada por PC. Suzana tinha o instrumento: ela comprou arma, assinou o cheque, comprou munição, assinou o cheque, treinou tiro ao alvo, e foi para o derradeiro encontro com PC levando o revólver na bolsa. Suzana teve a oportunidade: PC estava bêbado e dormia. Um único tiro matou o tesoureiro de Collor, projétil que atingiu região não fatal, próximo das axilas. Não foi obra de pistoleiro. Suzana deixou na caixa postal de um dentista do ABC que vira poucas vezes um recado que é equivalente a um bilhete suicida. Disse Suzana que encontraria o homem na eternidade, no além.


Últimas palavras: peço desculpas à família de Ari Cipola por ter sido obrigado a falar dele neste artigo. Porque meu propósito não é tratar de jornalistas que já morreram. Nem atacar ninguém individualmente. Se menciono nomes, é para retratar algo que é estrutural em grande parte da imprensa: denunciar o tratamento de espetáculo que se dá à notícia. Em outras palavras, meu propósito é falar de jornalistas vivos. Aliás, muito vivos.

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