Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > Estamos realmente em 2017?

Notícias revelam a face do obscurantismo

Por Francisco Fernandes Ladeira em 30/10/2017 na edição 964

Se retirarmos as datas referentes aos principais assuntos veiculados na imprensa brasileira nos últimos meses, os leitores, provavelmente, diriam que tais notícias não são de 2017, mas remetem há anos, décadas ou até mesmo séculos.

A impressão que temos é que as várias formas de preconceito e todos os tipos de obscurantismo resolveram sair do armário ao mesmo tempo. Questões que pensávamos já haver superado há tempos têm pautado a agenda pública da sociedade brasileira.

Paradoxalmente, as redes sociais, que representam o que há de mais moderno em comunicação humana, têm se constituído em espaços privilegiados para as posturas mais retrógradas, através de discursos nitidamente classistas, misóginos, racistas e homofóbicos.

Manifestantes na Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 19 de março de 1964 na Praça da Sé, em São Paulo. (Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã)

De uma hora para outra, os moralistas de plantão se transformaram em críticos de arte, e passaram a impedir exposições artísticas em todo o Brasil, sob o pretexto de “defender a moral da tradicional família brasileira”. Qualquer semelhança com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, uma das manifestações que contribuíram para dar um verniz popular ao golpe civil-militar de 1964, não é mera coincidência.

Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha deixado de considerar a homossexualidade como doença há mais de três décadas, no último mês de setembro um juiz federal concedeu uma liminar que abre brecha para que psicólogos ofereçam a terapia de reversão sexual, conhecida como “cura gay”, tratamento proibido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) desde 1999. Só faltam reacenderem as fogueiras da Santa Inquisição. Infelizmente, preconceito e intolerância ainda permanecem como doenças incuráveis.

Já o verbo “flexibilizar” se transformou em uma espécie de eufemismo para os retrocessos estatais. Do Palácio do Planalto vêm propostas que visam à “flexibilização” das leis trabalhistas, à “flexibilização” da fiscalização de práticas análogas à escravidão e à “flexibilização” da venda de terras produtivas a estrangeiros. Nunca o período colonial esteve tão próximo. Seria o próximo passo revogar a (duramente conquistada) Lei Áurea de 1888?

Não obstante, de acordo com propostas educacionais como o “Novo Ensino Médio” e “Escola Sem Partido”, as instituições de ensino básico não poderão mais abordar questões políticas ou tampouco a matriz curricular obrigatória do Ensino Médio deverá contar com disciplinas importantes para a formação crítica e científica dos alunos.

Por outro lado, segundo o STF, está garantido o ensino religioso confessional em escolas públicas, contrariando sumariamente o caráter laico do Estado brasileiro (uma das grandes conquistas republicanas).

Nessa “era de retrocessos”, parece que determinados fatos saíram dos livros de história diretamente para a nossa realidade. Foi-se o tempo em que a ausência de direitos trabalhistas era algo restrito aos primeiros anos da Revolução Industrial, que a escravidão era prática do século XVI, que censura era sinônimo de Regime Militar, que perseguição a homossexuais era exclusividade da Idade Média e que golpe de Estado na América Latina remetia apenas à Guerra Fria.

***

Francisco Fernandes Ladeira é mestrando em Geografia pela UFSJ e pesquisador sobre as relações entre discurso midiático e ensino de Geografia.

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