Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > LULA EM CUBA

O ano que mal começa

Por Alberto Dines em 26/02/2010 na edição 578

Foi desastrosa e reveladora a declaração do líder cubano Raúl Castro aos repórteres que acompanham o presidente Lula a Cuba. Embora a greve de fome que levou à morte do dissidente Orlando Zapata tivesse começado há 85 dias, e o seu estado de saúde tivesse se agravado há 10 dias, o sucessor de Fidel não esperava que o desenlace pudesse coincidir com a vista do presidente brasileiro acompanhado por uma comitiva de jornalistas de Brasília.


Geralmente tranqüilo, desta vez Raúl Castro parecia nervoso e estressado. Nem esperou pelas perguntas, foi logo falando e meteu os pés pelas mãos.


Culpou o embargo imposto pelos Estados Unidos, esquecido de que dias antes haviam começado as negociações diretas entre os dois países. E sequer recorreu ao bordão de que Cuba goza de ampla liberdade; ao contrário, admitiu claramente a censura ao afirmar que ‘aqui não há máxima liberdade de expressão, mas se os Estados Unidos nos deixarem em paz, poderá haver’.


E não contente investiu indiretamente contra os jornais ali representados condenando aquela imprensa que ‘só publica o que os donos querem’.


Ano novo


O presidente Lula é um sortudo e, além disso, sabe melhor do que ninguém como reverter uma situação incômoda. Desta vez, também ele foi envolvido pela maré negativa produzida pela morte do dissidente cubano.


Prova disso foi o áspero editorial publicado na quinta-feira (25/2) pelo importante diário espanhol El País criticando nosso governo pela condescendência com que trata o regime cubano, principalmente na área dos direitos humanos. O jornal acrescenta que o episódio representa um teste decisivo para o presidente brasileiro.


Se o ano no Brasil só começa depois do carnaval, este 2010 anuncia-se cheio de surpresas.


***


Raúl Castro admite que não há plena liberdade de expressão em Cuba


Emerson Penha, de Porto Mariel (Cuba) # Agência Brasil, 24/2/2010


O presidente cubano, Raúl Castro, admitiu que não há plena liberdade de imprensa no país, ao comentar a morte do pedreiro e dissidente político Orlando Zapata, preso há sete anos e que estava em greve de fome, desde dezembro, em protesto por sua detenção. A fala de Castro ocorreu ao final da solenidade de visita às obras do Porto Mariel, em companhia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


Quando Lula e Castro visitavam o lugar, onde o porto está sendo construído, os jornalistas brasileiros pediram para falar com Lula. Em vez disso, foi Castro quem se aproximou e falou. Começou perguntando o que os jornalistas achavam do ‘inverno’ em Cuba, entre outras amenidades.


Os jornalistas disseram que queriam falar com ele. Castro disse: ‘Posso imaginar. Vocês querem perguntar sobre o preso que morreu. Nós o levamos a vários hospitais, aos melhores. Mas, lamentavelmente, ele morreu. Aqui em Cuba não se tortura ninguém’.


Um jornalista disse: ‘Não é o que dizem os organismos de direitos humanos’.


Castro respondeu: ‘Porque são como a imprensa. Desde que Gutenberg inventou a imprensa, publica-se o que querem os patrões’.


Outro jornalista questionou: ‘Colegas cubanos não estão aqui’.


Castro, sem tomar conhecimento, continuou: ‘Reconheço que aqui em Cuba não temos plena liberdade de expressão. Mas, se os Estados Unidos nos deixassem em paz, se nos deixassem seguir com nosso desenvolvimento, isso poderia mudar’.


A rápida entrevista do líder cubano ocorreu durante uma visita às obras do novo porto, a 50 quilômetros de Havana, capital cubana. A obra será executada pela construtora Odebrecht, ao custo estimado de US$ 800 milhões. Deste total, cerca de US$ 500 milhões serão financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/02/2010 Carlos N Mendes

    Desculpe, caro Sandro. Meu comentário sobre o TERNUMA foi feito no escopo de um comentário muito maior, que por algum motivo, acabou não saindo. Assim o debate fica truncado. Um abraço.

  2. Comentou em 27/02/2010 Paulo de Allmeida

    Valeu Dines! Pensei que a morte do cara passaria em branco. Os fins justificam os meios… E pelo texto do Lúcio Flávio Pinto aqui no OI os meios… se justificam mesmo pelo fim…

  3. Comentou em 26/02/2010 Sandro Vaia

    Me ocorreu algo,como diz o Carlos Mendes: as pessoas que aplaudem o presidente Lula por não se interessar pela vida de um dissidente cubano para não se intrometer nos assuntos internos de outro país são as mesmas que aplaudiam o Itamaraty quando este deixou que a embaixada brasileira em Honduras fosse ocupada e transformada num circo por um ex-presidente deposto constitucionalmente pela Justiça e pelo Congresso do seu país depois de tentar se perpetuar no poder.O que é a vida,não?

  4. Comentou em 26/02/2010 Sandro Vaia

    Me ocorreu algo,como diz o Carlos Mendes: as pessoas que aplaudem o presidente Lula por não se interessar pela vida de um dissidente cubano para não se intrometer nos assuntos internos de outro país são as mesmas que aplaudiam o Itamaraty quando este deixou que a embaixada brasileira em Honduras fosse ocupada e transformada num circo por um ex-presidente deposto constitucionalmente pela Justiça e pelo Congresso do seu país depois de tentar se perpetuar no poder.O que é a vida,não?

  5. Comentou em 26/02/2010 Carlos N Mendes

    Por quê ninguém vende para Cuba? Caro Cesar Augusto, a coisa funciona assim : digamos, a Siemens, sueca, venda equipamento para Cuba. No dia seguinte, os EUA anunciam o fim de todos os contratos que tem com a empresa. A Shell, anglo-holandesa, decide explorar o petróleo do pré-sal cubano. No dia seguinte, a mais importante concessão texana explorada pela Shell é cassada. Ninguém quer perder dinheiro, e se o governo americano decide que você vai perder dinheiro, você está acabado. Talvez você possa imaginar algum outro motivo para Cuba ainda usar carros da década de 50, mas é esse o modus operandi da coisa.

  6. Comentou em 26/02/2010 René Amaral

    Só falta agora o El País olhar o próprio rabo ( e o o do stablishment) e cobrar atitude veemente de seu próprio governo e de outros que achar conveniente sobre a Prisão de Guantanamo e outras atrocidades cometidas pelos Estados Unidos e pela OTAN mundo afora, inclusive exigindo sanções da ONU contra Israel e EUA pelas políticas segregacionistas! Mas aí é querer demais né? Então deixe o Brasil e suas escolhas em PAZ!

  7. Comentou em 26/02/2010 Ibsen Marques

    Guantânamo é a melhor definição para o : The American way of life.

  8. Comentou em 26/02/2010 Paulo santhos

    LuLa, Fidel, Armadnejad , Hugo Chaves e toda a patuleia comunista anda assassinando dissidentes pelo mundo afora. Assassinam no Iraque, no Afeganistão, na Palestina. Devem ser eles, em encarnações, anteriores que assassinaram Jesus Cristo, condenaram judeus ao cativeiro e quem sabe até enviaram aquele astro gigante que causou a extinção dos dinossauros. É risível o desespero do PiG!! Só fica a pergunta quem paga para todos agirem como ovelhinha clonada? Mesmo não concordando com o PiG eu acredito que la existe vida inteligente, que infelizmente se emburrece por motivo financeiros.

  9. Comentou em 26/02/2010 Marcelo Ramos

    Esse Obama é metido a esperto mesmo. O Tibet foi invadido em 1959 e hoje, apenas por questões comerciais, ele fica tentando provocar a China dando status ao Dalai. Sou a favor da causa tibetana e o Dalai tem que aproveitar para fazer propaganda de sua causa. O Brasil tem que fechar acordo com a China sobre o Irã. Quanto à Fidel, o PIG já o matou tantas vezes que penso estar vendo fantasmas toda vez que o PIG o mostra mais uma vez em fotos recentes. O Lula devia fazer como Michael Moore, ir até Guantânamo e mostrar o que acontece ali com os dissidentes da ‘democracia’ americana. O Lula também poderia invocar aquelas comissões de direitos humanos que visitam todo mundo… menos os USA.

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