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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & IDEOLOGIA

O avanço da agenda conservadora e as redes sociais

Por Jorge Alberto Benitz em 05/05/2015 na edição 849

O mundo internetês tem certas peculiaridades que, pelo menos nestes primeiros momentos, contribuem com propostas conservadoras e até reacionárias. É logico que o contexto de crise mundial do sistema capitalista se reflete. A crise identitária gerada por esta crise conjuntural do capitalismo, certamente, está na raiz destes problemas. Na hora em que a insegurança bate, o sujeito menos aparelhado de consciência crítica busca apoio no que está mais a mão, mais próximo. Nada mais próximo do que os valores do contexto social e cultural em que está envolvido. Valores permeados pelo senso comum conservador onde o que destoa, o que é diferente, surge como ameaça.

Acontece que no mundo de antes, no mundo anterior às mídias sociais, este “ranger de dentes” dos que são adeptos de uma solução conservadora para os problemas sociais e políticos não tinha espaço público para extravasar como o propiciado pelas mídias sociais. Tanto isso é verdade que as pessoas com este perfil ideológico faziam parte da chamada maioria silenciosa. Dá para contar nos dedos as suas manifestações públicas. A Marcha com Deus pela Pátria, Família e Liberdade teve o destaque que teve em 1964 não só pelo tamanho que tomou a manifestação, mas porque arrebanhou um tipo de gente avessa ao espaço público. Espaço público que era dominado pela esquerda até então.

Antes do advento das mídias sociais, por exemplo, escrever em algum lugar qualquer era para quem sabia, pelo menos, escrever um texto com “pé e cabeça”, isto é, com um mínimo de familiaridade com o vernáculo, como diziam nos tempos de antanho. Não estou entrando no mérito se era ou não bem escrito, se seus argumentos eram válidos ou não. Apenas estou dizendo que quem não conseguia uma capacidade expositiva clara e bem alinhavada de seu pensamento nem se arriscava a escrever algo mesmo em um jornal de colégio ou bairro. Hoje foi abolida, para o bem e para o mal, esta precondição para falar no espaço público que representam as mídias sociais. Liberou geral. Qualquer um pode dizer o que quer, da maneira que quer, sem preocupação alguma. Preocupação, aqui, significa também não ter senso do ridículo. Neste particular, o espetáculo de grosseria e analfabetismo político dado na manifestação de 12 de abril de 2015 chegou a um patamar impressionante. Teve “de um tudo”, como dizia Guimarães Rosa.

O sentimento de repulsa ao PT

O que isso tem a ver com o mundo internetês? Tudo. Nele se potencializou como nunca um discurso que se sabia que existia, mas se tinha vergonha de expor por várias razões, entre elas o fato de que não era de bom tom posar de tosco e atrasado politicamente. Por exemplo, o racismo que sempre existiu só se manifestava de modo cauteloso e, muitas vezes, cochichado entre conhecidos com igual perfil conservador, portanto, nunca sem antes tatear o terreno para ver se havia condições para extravasar ideias contrárias à hegemonia do pensamento progressista e democrático. Merece destaque pela importância na potencialização do discurso do senso comum conservador, replicado nas mídias sociais, o papel da grande mídia, que abandonou teses liberais que defendia até ontem na questão dos costumes. Teses que, se não defendia, pelo menos não atacava. Tudo em nome da tática de fazer “sangrar” o inimigo comum. No caso, o governo. Mais precisamente, o PT.

A vergonha que desapareceu dos que não têm mais escrúpulos de defender as teses mais bizarras e disparatadas. Desapareceu quando estes perceberam que suas ideias têm eco e ressonância nas mídias sociais. Para usar uma linguagem do feicebuque: elas são curtidas. Daí a linha direta entre o avanço conservador tanto nos costumes como na política que começa na crise econômica, avança com as contradições entre o discurso de antes e depois do PT chegar ao poder e desemboca no ataque sistemático feito em uníssono pela grande mídia à politica, aos políticos e ao Estado, atendendo os preceitos da bíblia neoliberal do documento Consenso de Washington. A gota d’água para fazer se espraiar de vez o sentimento de repulsa ao PT na classe média tem a ver menos com a corrupção do que com os avanços sociais ocorridos que advieram do programa Bolsa-Família, dos programas de financiamento para o filho do pobre fazer universidade, do programa Mais Médicos com médicos cubanos, da redistribuição de renda que permitiu pobre frequentar sacrossantos lugares, como aeroportos, shoppings etc…

Falta amadurecimento e qualificação

Como disse Bresser Pereira em entrevista na Zero Hora de domingo, 26 de abril de 2015: “A classe média era progressista no começo dos anos 80. O que aconteceu? Houve um grande esforço de combate às desigualdades sociais neste período. O gasto social, que era de 11% do orçamento em 1985, hoje é de 22%. Ora quem se beneficiou desse gasto, financiado pelos impostos, foram os pobres. Esse investimento social não retorna (para a classe média). A classe média está nervosa e virou para a direita. (….) Quando se redistribui renda, se reduz a diferença entre as classes. De repente, a classe média viu os aeroportos invadidos por pobres. E a herança escravista das elites é muito violenta. O preconceito é muito grande.”

Aqui, o dito de Bresser Pereira se alinha no diagnóstico à análise feita por Christian Dunker – vide link https://www.youtube.com/watch?v=WkOpY4CiWY4 – que utiliza o conceito de condomínio e todo o seu arsenal de ferramentas para separar uma elite social da realidade. Por exemplo, o pessoal do condomínio percebeu os perigos que corre com a vitória de um síndico, pela quarta vez, que não era da sua preferência. Agregue toda esta insatisfação da Casa Grande aliada à classe média, que pode não ser de direita mas hoje encampou o discurso da direita como já disse em outro artigo, com a possibilidade de externar o descontentamento em um espaço público, como o oferecido pelas mídias sociais, e temos um Febeapá versão 2015 (Festival de Besteiras que Assola o País) nunca dantes visto na história da República, se se considerar a possibilidade de exposição que as ferramentas tecnológicas de hoje permitem. O Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), se estivesse vivo, ia ter material como nunca para o seu quadro de humor político e social.

Vamos torcer para que, com o tempo, haja um amadurecimento e uma consequente qualificação dos participantes das redes sociais, em especial a direita, que até agora oferece um espetáculo deprimente neste sentido. Parece até que não existe nada razoável vindo deste lado do dial ideológico.

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Jorge Alberto Benitz é engenheiro e consultor

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