Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > DESABAMENTO NO METRÔ

O bom senso desmoronou no buraco da Linha 4

Por Luciano Martins Costa em 23/01/2007 na edição 417

Dona Augusta, 63 anos, mãe de Reinaldo Aparecido Leite, motorista do microônibus que foi tragado pela cratera surgida na obra do metrô na Zona Oeste de São Paulo, fez ao repórteres presentes ao enterro do seu filho, na sexta-feira (19/1), as perguntas que nenhum jornalista havia até então apresentado às autoridades e responsáveis pela construção.

Ela começou contestando o modelo de negociação geralmente utilizado nas desapropriações para obras públicas, que consiste basicamente em estrangular o proprietário até fazê-lo aceitar o menor preço. ‘Por que pagar o valor venal do imóvel, se vale mais?’, perguntou, em sua simplicidade, questionando por que esses processos não consideram o valor real de mercado dos imóveis. Mais adiante, levantou a hipótese de o consórcio responsável pela obra ter negligenciado a necessidade de interditar a rua Capri aos primeiros sinais de instabilidade no terreno.

Dona Augusta compôs suas dúvidas durante o tempo que passou conversando com moradores de casas interditadas na região. Desenvolveu suspeitas, como um jornalista deveria fazer, e lançou-as ao ar quando teve a oportunidade e microfones diante de si. Iniciou sua resposta aos jornalistas pontificando sobre a simplicidade e os valores de sua família. ‘Somos pobres, mas trabalhadores, gente honesta’, declarou, e alinhou as perguntas que, segundo ela, sua família gostaria de ver respondidas.

De resto, as dúvidas de dona Augusta são muito semelhantes às questões que ficam para a opinião pública, passados mais de dez dias do acidente que paralisou a cidade e que provavelmente vai afetar a reputação da Companhia do Metropolitano, até aqui muito bem avaliada pelos usuários de transporte coletivo.

Maximizar lucros

Por trás dos questionamentos da mãe do motorista Reinaldo, sobram espaços para a sociedade discutir as relações entre a imprensa e o poder público e entre a imprensa e as empresas encarregadas das grandes obras de infra-estrutura.

No momento em que o governo federal conclui seu PAC – Programa de Aceleração do Crescimento em meio a discussões sobre o papel do governo e da iniciativa privada no financiamento de obras públicas, parece interessante analisar o comportamento da mídia diante do desastre que coloca em questão o modelo de concessão de obras no qual a presença fiscalizadora do Estado é considerada irrelevante.

Primeiramente, convém observar que, para a imprensa em geral, é quase tabu questionar a qualificação técnica do setor privado. O máximo que se constata é a alegação genérica de ‘falha humana’ ou ‘falha técnica’, como um evento circunstancial, e não como um risco altamente previsível, diante do modelo que comprime investimentos considerados não essenciais.

Como disse um engenheiro do Instituto de Pesquisas Tecnológicas ao comentar o desastre, ‘se houve falha e o consórcio admite, podemos esperar mais segurança na seqüência da obra; mas, se, como quer fazer crer a imprensa, o desastre foi resultado de uma sucessão de fatalidades como a chuva ou as falhas geológicas do terreno, melhor não andar de metrô daqui para a frente’.

Também faz sentido lembrar que o modelo de negócio em si, que o governador José Serra chamou de ‘porteira fechada’, no qual o Estado contratante descreve suas exigências e deixa tudo por conta das empresas contratadas, é aceito genericamente pela imprensa como a única forma de melhorar a infra-estrutura do país.

O noticiário dos últimos dez dias, rico em detalhes técnicos sobre a construção do túnel, apenas resvalou nos riscos inerentes a contratos nos quais o interesse público colide com o interesse privado de maximizar os resultados de investimentos – com a inquestionável tentação de reduzir custos onde for possível.

Noticiário e o ‘opiniário’

Por trás do noticiário sobre uma tragédia, pode-se notar claramente os sinais das escolhas ideológicas dos meios de comunicação. Nos últimos dez anos, consolidou-se no imaginário da imprensa a idéia de que apenas a privatização pode nos resgatar do subdesenvolvimento.

Desde os protestos diante da Bolsa do Rio, durante os leilões de privatização das empresas de telefonia e de energia elétrica, quando os manifestantes eram tratados como marginais irracionais, fixou-se na mídia a tese de que o Estado é incompetente para cuidar de si mesmo.

Evidentemente, os benefícios das escolhas de políticas públicas nunca podem ser avaliados no curto prazo, e a revolução que ocorreu no setor de telecomunicações no Brasil deve-se em grande parte aos investimentos privados, mas também é preciso considerar que a qualidade dos serviços só vem se tornando aceitável com as mudanças no sistema de monitoramento por parte do poder público e com a imposição de maior competição entre as empresas operadoras.

Há certamente um ponto de equilíbrio entre as estratégias de financiamento de obras de interesse social – seja através da concessão de direito a exploração de serviços públicos a empresas privadas, seja pela operação direta do serviço por gestores do Estado. O que não se vê, no Brasil, é um debate maduro e equilibrado sobre o tema.

Para a imprensa, em geral, privatize-se tudo e ponto final. Para alguns protagonistas influentes, entre os quais alguns ministros do atual governo, manter tudo sob o manto do Estado é a melhor solução.

Esta é a semana em que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), marco inaugural do novo governo do presidente Lula da Silva, começa a ser destrinchado por articulistas, editorialistas, comentadores e especuladores em geral. O noticiário e o ‘opiniário’ que nos foi oferecido nos últimos dez dias à beira da cratera na Zona Oeste de São Paulo não deixa muita margem para otimismo quanto à possibilidade de sermos apresentados a um debate enriquecedor sobre nossa estratégia de desenvolvimento.

O bom senso parece ter rolado para o buraco junto com a rua Capri.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/01/2007 Cid Elias

    Continuam os éticos de plantão, leia-se apolonios, pequenos e pequenotes, com suas acusações, claramente usadas por total falta de argmentos decentes e concretos, ao ‘petismo’, ao Lula etc. Ou seja, não conseguem entender o que aconteceu com eles, com São Paulo, com a cratera da linha4, somente repetem a lenga-lenga de sempre, afinal, eles são os ‘caras’! O apolonio sabe mais que Deus, até o autor do artigo foi desrespeitado pelo mais correto e apartidário comentarista do Oi. É tão apartidário que em vez de enfiar o rabo no meio das pernas e perceber quem são os co-responsáveis por tudo isto, corre para defender os indefensáveis, discursa aquele monte de estultices e pensares paupérrimos, além de insultar os ‘petistas’ ignorantes. Agora falta apenas estes vestais do Oi, também dizer ser mentira o fato comprovado de que o Transponder do Legacy, o jato pilotado pelos dois homicidas Americanos, estava desligado. Aliás, esta revelação derruba de vez a versão que defendiam como se a única possibilidade fosse, versão politizada ao extremo pelo dines e seguidores, os informadíssimos não tucanos, os que, incontinenti, disseram mais um amém ao imprensalão. Sai da lama, jacaré.

  2. Comentou em 24/01/2007 Marcelo del Questor

    Eu não entendo nada sobre construções. Neste assunto sou ainda mais ignorante que em outros. Idem a contratos tão especializados. Mas, em meu raciocínio simples e em minha experiência não entendo como alguem pode comprar material de construção, fazer o projeto de uma casa, contratar um pedreiro e não fiscalizar se ele esta construindo de forma certa. Afinal, se vou morar na casa, a última coisa que quero é que ela caia na minha cabeça. Entendo que em uma construção desta monta, ter pessoas especializadas para a fiscalização é imprecindível. Por isso me causa estranheza o fato de o governo simplesmente aceitar este tipo de contrato, onde se exíme de fiscalizar. As pessoas que pagam impostos e salários públicos vão transitar por ali. E o que este tipo de cobrança tem haver com ideologia. Se cobrar responsabilidade do governo na construção, para que obras sejam benéficas e não motivo de tragédias e venham ceifar vidas e não atender os anseios da população que as paga é ideologia política, minha postura nesse caso é ideológica. Absurdo classificar como patrulheiro, quem cobra responsabilidades a quem é o responsável. Quer dizer que, se o governo A ou B cometer erros, não podemos cobrar pelo contexto político atual. Para não sermos patrulheiros ideológicos. E a imprensa, que é que do que se trata aqui? Como classificar seu comportamento senão de submisso, alinhado e obscuro.

  3. Comentou em 23/01/2007 ApolonioSilva

    Maurício, é evidente que quando se faz um contrato Turn-Key, a empresa contratada é responsável civil e criminalmente por tudo o que realiza, bem como pela entrega do produto segundo as especificações recebidas (do cliente!). Os contratos arroz-com-feijão prevêem fases de recebimento/testes e etc. Sendo responsáveis pelo acidente ela deve pagar por isso. Ridícula/inoportuna e profundamente desumana é a tática petralha de tentar usar politicamente as circusntâncias. Coisa de urubu. Ridícula porque se vê (como no caso desse ‘auditor’ aí de baixo que não audita nem o que escreve) que o nível de conhecimento da parte legal e operacional de grandes empreendimentos é nulo. Zero. Incluso aí o LAM. Mas todos repetem a mesma ladainha. Inoportuna e desumana porque pessoas morreram. Não é possível prever como isso acabará: claramente o jogo de responsabilidades será um empurra-empurra do corpo técnico que definiu as especificações do contrato e das empresas que executaram o projeto. O outro lado ridículo é esse escriba LAM de antemão pedir clemência da imprensa pelos PACs da vida. O que é isso? O que uma coisa tem com a outra? Que picaretagem de colagem de assuntos/texto é essa? Precisamos urgentemente de um mutirão para salvar o petismo dos petistas porque O BRASIL PRECISA DO PETISMO minha gente. Mas não essa esculhambação aí… Quequéisso…pelamordedeus!

  4. Comentou em 23/01/2007 Jorge Rhizkhallah

    Concordo que o ‘core business’ do governo estadual não é abrir buracos, mas os buracos abertos pela Cia. do Metrô estão todos aí, estáveis e seguros. Já os da iniciativa privada…
    Eu moro na Vila Sônia e estava todo feliz com a iminente chegada do metrô. Agora eu acho que é melhor continuar no onibão mesmo, que a última coisa que eu desejo é ser sepultado vivo.

  5. Comentou em 23/01/2007 yuhka ferrari

    Este é o resultado do choque de gestão que o PSDB promove em SP. Gostaria de saber se o consorcio que produziu este buracão doou algum dim dim para a campanha do Serra/Alckmin (SangueSugas comprovados). Se a obra fosse federal esta imprensa medíocre e golpista brasileira estaria caindo em cima do LULA.

  6. Comentou em 23/01/2007 Simone Nascimento

    A questão é: o papel da imprensa diante de fatos que envolvem grandes empresas privadas. Qualquer um é capaz de perceber isto. Onde fica o jornalismo investigativo nestas horas? Daí a defender esse tipo de concessão…questão de opinião.

  7. Comentou em 23/01/2007 Ruy Acquaviva

    A proposição de que obras sob contrato do tipo ‘turn-key’ precindem de fiscalização é falsa. De fato não é necessário se preocupar com os gastos, pois o valor a ser pago é fixo. Mas é necessário preocupação e muita fiscalização em relação à qualidade da obra.

    Assim sendo, mesmo estritamente sob o ponto de vista do erário, a fiscalização sobre a qualidade do produto entregue é fundamental. Principalmente porque qualidade envolve não apenas aquilo que aparece em uma inspação final de entrega, mas também em relação a fundações, infra-estrutura e tudo aquilo que só se pode verificar duante a construção.

    Do ponto de vista da segurança então, a questão adquire aspectos dramáticos. Qualidade envolve segurança. Uma estrutura inadequada de um túnel, uma obra de drenagem que não foi realizada, um único aspecto referente à qualidade, pode comprometer a segurança dos passageiros e dos cidadão. No caso da tragédia foram uma série de erros que não só poderiam mas DEVERIAM sim, ser fiscalizadas de perto pelo estado.

    E a prefeitura? É dela a obrigação de fiscalizar a segurança das edificações. Também aí houve uma omissão mais que criminosa, mas verdadeiramente monstruosa.

  8. Comentou em 23/01/2007 Ruy Acquaviva

    A proposição de que obras sob contrato do tipo ‘turn-key’ precindem de fiscalização é falsa. De fato não é necessário se preocupar com os gastos, pois o valor a ser pago é fixo. Mas é necessário preocupação e muita fiscalização em relação à qualidade da obra.

    Assim sendo, mesmo estritamente sob o ponto de vista do erário, a fiscalização sobre a qualidade do produto entregue é fundamental. Principalmente porque qualidade envolve não apenas aquilo que aparece em uma inspação final de entrega, mas também em relação a fundações, infra-estrutura e tudo aquilo que só se pode verificar duante a construção.

    Do ponto de vista da segurança então, a questão adquire aspectos dramáticos. Qualidade envolve segurança. Uma estrutura inadequada de um túnel, uma obra de drenagem que não foi realizada, um único aspecto referente à qualidade, pode comprometer a segurança dos passageiros e dos cidadão. No caso da tragédia foram uma série de erros que não só poderiam mas DEVERIAM sim, ser fiscalizadas de perto pelo estado.

    E a prefeitura? É dela a obrigação de fiscalizar a segurança das edificações. Também aí houve uma omissão mais que criminosa, mas verdadeiramente monstruosa.

  9. Comentou em 23/01/2007 Mauricio Pinheiro

    Comentando o texto e o comentário acima, de fato o modelo de contrato tipo Turn-Key é uma das poucas saidas gerenciais para a contratação de serviços e equipamentos por parte de grandes comglomerados (e também o Estado). O modelo é mais do que válido e testado, porém não exime a Contratante de uma rigorosa fiscalização e medição do que foi contratado e é ai que a porca torce o rabo. O problema começa no modelo do contrato que nunca é abrangente o suficiente para cobrir todas as necessidades e termina na miopia geral tanto do contratante como do contratado em analisar sériamente certas deficiencias técnicas que entram nas partes nebulosas desses contratos. No final a conta é paga pelo pessoal que faz a obra, nem sempre qualificado o suficiente para avaliar os riscos e critérios empregados nos projetos. Falo isso com conhedimento de causa. Meu dia a dia é obra.
    O comentarista acima fala algo que é muito verdadeiro! A sociedade tem o direito sim de criticar também a iniciativa privada. Se comentem grandes absurdos técnicos em obras por esse pais. Os riscos nunca são avaliados de forma integral e o planejamento da obra tende a omitir osdetalhes que poderiam onerar o contrato. A solução sempre aparece encima da hora e normalmente é tomada pelo pessoal de campo e a fiscalização. Nem sempres estes são técnicamente capacitados para tal decisão.

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