Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA ESPORTIVA & MSI

O carioca é o último a saber

Por Marinilda Carvalho em 01/03/2005 na edição 318

O treinador Tite foi demitido do Corinthians na noite de segunda-feira!


– Ué, só porque perdeu de 1 x 0 do São Paulo? Não é o tal ‘time de galácticos’, mas desentrosado?

Bem, leitor, que é, é. Mas o Tite era malvisto e mal-amado há tempos pelo Kia Joorabchian, da MSI, que queria o Vanderlei Luxemburgo.


– Nossa, é mesmo? E quem é Kia Joorabchian? E o que é MSI?

Este é um diálogo imaginário com um leitor carioca. O leitor carioca está sem informação alguma sobre essa história da parceria do Corinthians com a… digamos, apátrida MSI. Quem assina o Globo, por exemplo, tem pálida idéia das implicações dessa sociedade, cujo contrato prevê duração de 10 anos.


– Dez anos? No futebol?


Bom, para entender é preciso que o assinante carioca seja ‘leitor-amante’ de esporte: tem que acompanhar o Lance! e a ESPN Brasil. Aí saberá que o clube Corinthians não manda mais no time Corinthians. Quem manda é a MSI. Ou o Kia. Sem isso, pouco entenderá da nebulosa – nebulosa não, cerrada! – ‘entidade’ chamada MSI. Que, associada ao time paulistano, foi responsável por contratações como a do argentino Tevez, dos ex-tricolores cariocas Carlos Alberto e Roger, do lateral Gustavo Nery (pobrezinho, na apresentação diante das câmeras, segunda-feira, disse ‘São Paulo’ em vez de Corinthians), entre outros menos votados. Estão em negociação (difícil) o meia Kleberson e o atacante Vágner Love. O meia Mascherano viria em julho.


– Que timão…

Isso é notícia até para torcedor do Nepal. Quanto mais carioca, não é? Não, não é. A contratação desses craques pelo Corinthians não é notícia que mereça destaque nos jornais do Rio. Então, por que cargas d’água o seria uma parceria recheada de escândalos, com uma empresa de silhueta fantasma, sediada em paraíso fiscal, criada por misteriosos fratelli eslavos, com fins… digamos, cítricos?

A origem do dinheiro


‘Sondagem’ informal entre amigos cariocas – ‘leitores-amantes’ de futebol, claro – mostra unanimidade de pensamento: o tema não interessa à mídia do Rio. Os comentários mais marcantes: ‘A imprensa do Rio nunca ligou para o futebol paulista’; ‘Essa imprensa só se interessa pelo Flamengo’; ‘A Globo é parte interessada, O Globo nem morto entraria nesse poço’; ‘A Globo quer é mais galácticos, por que O Globo contestaria?’; ‘Escândalo? Que escândalo? Sai, escândalo!’.

O ‘leitor-amante’, claro, quando procura acha informação na imprensa carioca. Como a matéria dominical da Tribuna da Imprensa (22-23/1) intitulada ‘Acordo Corinthians-MSI ainda provoca dúvidas’ (elegante, não?), na qual Antonio Roque Citadini, ‘vice-presidente eleito do Corinthians’, diz que o dinheiro que comprou os ‘galácticos’ vai dar chabu:

‘(…) O Tevez é mesmo o melhor do mundo [???] na atualidade, acontece que o jogador foi comprado na Argentina, sem que esse dinheiro passasse pelo Brasil. (…) O Kia contratou o Carlos Alberto, que estava no Futebol Clube do Porto, e também o dinheiro não passou pelo Brasil. Foi pago com dinheiro de russos diretamente ao F.C. do Porto. Como é que essas contratações, e o dinheiro delas, serão explicadas? O Corinthians será procurado, mais cedo ou mais tarde. O Kia terá que explicar a origem do dinheiro’.

O ‘leitor-amante’ fica pasmo. Como isso não é notícia? Citadini continua:

‘O problema do futuro volta à tona com a apresentação, pelo deputado e conselheiro vitalício do Corinthians, Romeu Tuma Filho, de um dossiê à Procuradoria Geral da Justiça. Todas as provas prometidas por Tuma, quando questionava a parceria, estão nesse dossiê. E agora? É esperar…’

Ele avança:

‘No passado, o São Paulo F.C. foi multado pelo Banco Central. É que o clube tinha uma conta em Miami e ao contratar um jogador pagava com cheque de Miami. O Banco Central não admitia isso. Aconteceu com o Vasco, Flamengo etc. O Corinthians vai ter que explicar a origem do dinheiro e será, naturalmente, punido.’

Lei & Ordem


O leitor carioca, a esta altura, quer cancelar as assinaturas de tudo que tenha seu nome. Aconteceu com o Vasco e o Flamengo? Então, como o jornal que eu assino não associa a isso o caso do Corinthians? Citadini tem até página na internet (www.citadini.com.br/), basta ir lá conferir! Na seção ‘Alambrado’, texto dele de 9/2/05, intitulado ‘Muito além do camarote da Brahma’ (o ‘leitor-amante’ carioca, que não lê coluna social de carnaval, apenas supõe que a cervejaria tenha convidado a epifania Kia – ‘mas isso não é nome de carro?’ – para o desfile das escolas de samba), diz coisas assim:

‘A parceria Corinthians-MSI (nome fantasia de um fundo de investidores soviético) inicia seu trabalho com muitos erros e perigosas medidas. (…) Não foram poucos os que festejaram a recusa em manter a publicidade da Pepsi na camisa, uma vez que a MSI exigia 30 milhões anuais pela propaganda. Esta seria uma estratégia de quem supostamente valoriza o clube e não aceita pagamentos inferiores a 8 milhões, montante que equipes como o Corinthians recebem por publicidade em sua camisa. A notícia do ‘estratégico profissionalismo’ durou apenas 24 horas, ou seja, até o momento em que o executivo da MSI disse à Globo que os valores do contrato já estavam bons e não precisava exigir mais nada.


‘Ficamos assim num paradoxo: para a publicidade na camisa uma exigência alta a mostrar profissionalismo e audácia; para os direitos de TV, um amadorismo extremado que se contenta com a quantia já estabelecida. Contudo, tudo isso fica mais claro quando olhamos os clubes do exterior, Real Madri, Barcelona, Juventus, que cobram pelos direitos de TV de três a cinco vezes o valor de publicidade recebido pela camisa. Seria assim: da Pepsi, 30 milhões exigíveis, e, da Globo, no mínimo 90 milhões. Para a Pepsi se exigiu triplicar o valor, e da Globo contentou-se com os 24 milhões atualmente pagos.’


Espanto. Por questão de justiça, porém, cabe lembrar que os leitores da Folha de S.Paulo também pastaram muito tempo, sem informação alguma. Na Paulicéia, só Lance! e Estado de S.Paulo iam fundo no tema. De repente, surpresa das surpresas!, o editor da coluna ‘Painel Futebol Clube’ da Folha pediu demissão do jornal, para ser assessor de imprensa da MSI. Prato cheio para o sindicato. Quem manda pagar merreca a profissional? Um kiwi vitaminado chega e oferece vinte mil ao cidadão. Pronto, lá se vão editor, informação, ética…


O que a imprensa do Rio precisa entender é que o que acontece no Corinthians pode acontecer no Flamengo (er… bem, não exatamente no Flamengo atual, mas que sabe num Flamengo próximo?). Com os métodos da MSI não há segurança. O jogador que ela traz hoje ela pode levar amanhã, pois time é mercadoria. Os americanos conhecem essa canção.


O jornalista corintiano Juca Kfouri anda jururu. Não está empolgado com o Timão, sua paixão. Não pelas derrotas recentes, que ele entende de futebol e sabe que entrosamento é essencial, mas pelo desvio do eixo geomagnético do Corinthians. ‘Isso é gravíssimo para a soberania futebolística nacional’, diz. Juca fala de cadeira. Na edição do Lance! de 24 de setembro de 2004 – seis meses atrás – revelou as cinco identidades do iraniano Kia Joorabchian, e as ligações dele com mafiosos. Russos, chechenos, georgianos… parece ficção. (O que a imprensa apurou desde então?) O leitor carioca cai duro.


– Cruzes! Isso é futebol ou episódio do seriado Lei & Ordem?


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