Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > ARQUIVOS VIVOS

O caso Mengele: novos mistérios

Por Deonisio da Silva em 23/11/2004 na edição 304

Os papéis esquecidos na Polícia Federal, em São Paulo, que levaram à descoberta de mais documentos sobre o criminoso de guerra Joseph Mengele, que morreu afogado em Bertioga, em 1979, sem jamais prestar contas de seus atos, levantaram mais um dos muitos véus que cobrem a atuação dos nazistas na América do Sul, especialmente no Brasil, na Argentina e no Paraguai.

Nos próximos dias e nas próximas semanas, enquanto o assunto está quente, seria de bom tom que os editores pautassem bons repórteres para aprofundar o quadro. São alarmantes os indícios de que documentos reveladores de verdades terríveis jazem em escaninhos insólitos. Ainda insuficientemente estudados, demandam pesquisas sérias. E a imprensa tem função inescapável de mexer no abelheiro. Certamente também haverá quem agora possa falar o que tanto tempo calou.

Quem sabe, como ocorreu a Uki Goñi, jovem repórter do Buenos Aires Herald, jornal dedicado à comunidade britânica, que se interessou por entender os mecanismos e o modo de operar da ditadura militar argentina, algum repórter venha a desencavar os fios que faltam para esclarecer enigmas restantes.

Goñi alude a 304 campos de detenção na Argentina, responsáveis pelo desaparecimento de 8.956 pessoas, entre as quais 1.296 de etnia judaica. Isto é, mesmo sendo pequena comunidade – os judeus eram menos de 1% da população – eram judeus 12% do total de desaparecidos, eufemismo demoníaco para aglutinar sob a rubrica pessoas mortas sob tortura ou simplesmente executadas, às vezes à revelia de ordens superiores, outras vezes a mando cifrado.

Goñ trabalhou seis anos compulsando arquivos em dois continentes. Dos 480 criminosos de guerra que chegaram à Argentina, ele identificou quase 300 deles. (Ver A verdadeira Odessa, Editora Record, R$ 59,90).

São igualmente imperdíveis as matérias da Folha de S. Paulo dos dias 21 e 22 deste novembro. O leitor tem o direito de ficar assustado com o que pode ser concluído: uma rede de cúmplices, muito eficiente, permitiu que um criminoso de guerra somente viesse a ser identificado depois de morrer afogado em Bertioga. E assim mesmo graças a um esforço descomunal de busca da verdadeira identidade. Ainda que – sublinhemos – paire alguma controvérsia sobre se aquele era de fato o cadáver de Joseh Mengele. Mas quem teve competência para o ato inaudito certamente não praticou exclusivamente a tarefa de ocultar Mengele.

Escrevi um romance sobre o tema do neonazismo no Brasil meridional Orelhas de aluguel (Editora Siciliano) – e sempre guardei comigo a secreta convicção, nascida da intuição de ficcionista, que havia mais coisa em certos bastidores ainda indevassáveis nos anos oitenta, quando escrevi o romance. O texto de Ana Flor e Andréa Michael, pela gravidade do que traz, merece releitura e reflexão mais demorada. Aguardemos os desdobramentos. O assunto é pertinente e quentíssimo. Não será surpresa se encontrarmos nos arquivos dos anos pós-64 ligações que esclareçam certas pendências ainda muito obscuras.

Segue o texto da Folha de S. Paulo (22/11/2004).

Após viver 26 anos longe da Europa, 14 deles no Brasil, o médico nazista Josef Mengele quase retornou para a Áustria em 1974. A tentativa de voltar para perto da família e de seu país -não concretizada e que fez o médico ficar no Brasil até sua morte por afogamento, em 1979- pode ser percebida nas cartas recebidas por Mengele e que foram apreendidas entre os 85 documentos esquecidos na sede da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo.

Os documentos, cuja existência foi revelada ontem pela Folha, mostram detalhes inéditos sobre Mengele, chefe do serviço médico do campo de concentração de Auschwitz (Polônia) de 1943 a 1945. No campo, Mengele usou prisioneiros como cobaias em experimentos pseudo-centíficos.

A maior parte das mais de 20 cartas escritas a Mengele apreendidas pela PF são do amigo Wolfgang Gerhard, cujo nome Mengele usava no Brasil. Austríaco, Gerhard esteve nos quadros do partido nazista. Nunca foi um fugitivo de guerra, mas decidiu morar no Brasil após a Segunda Guerra Mundial por não concordar com a política imposta pelos aliados.

Em uma carta de quatro páginas escrita em novembro de 1974, Gerhard, que havia voltado para a Áustria em 1971, aconselhava Mengele a fazer o mesmo o quanto antes, ‘antes que esteja muito velho para a viagem’. O amigo dizia ainda que, na Europa, Mengele poderia se tratar e ser operado.

Segundo biografia publicada em 1986, Mengele ficou doente em 1972. Por causa da tensão de estar em constante fuga, ele desenvolveu o hábito de morder a ponta do seu bigode. O costume fez com que uma bola de cabelo obstruísse seu intestino, que lhe causava grande dor. Mengele chegou a procurar um hospital no Brasil, apesar do risco.

Na carta, Gerhard relatava ainda com detalhes a doença da mulher, Ruth, que sofria de câncer. Escreve sobre dificuldades financeiras e de uma viagem de tratamento feita a Beirute (Líbano).

A longa explanação sobre a falta de dinheiro parece ser uma forma de explicar ao amigo no Brasil a razão da impossibilidade de lhe enviar dinheiro. Nesta época, segundo cartas enviadas por Mengele, o médico já vivia uma difícil situação financeira.

Gerhard conheceu Mengele no Brasil. Antes de voltar para a Europa, deixou com o nazista seus documentos de identificação. Mais tarde, teria voltado ao Brasil para renovar os documentos.

Gerhard chegava a dizer a Mengele que a ida para a Áustria não era tão difícil como poderia imaginar, e que insistia na idéia porque ‘jamais daria um conselho que prejudicasse o amigo’.

Gerhard quase sempre começava suas cartas referindo-se ao médico como ‘Lieber Alter’ (querido velho), expressão que mostra a proximidade dos dois.

Dos quatro laudos produzidos pela polícia na época, o de número 09516 assinala a análise dos registros manuscritos e mecanografados encontrados entre os pertences de Mengele. Na página 35, está a confirmação da autoria das cartas que o nazista recebeu do amigo Wolfgang Gerhard.

O laudo informa que ‘a identificação [dos escritos encontrados entre os pertences de Mengele] se deu graças aos exames preliminares realizados entre as assinaturas constantes nos documentos (carteira de identidade para estrangeiro, carteira profissional e carteira Nacional de Habilitação) apreendidos, em nome de Wolfgang Gerhard, adulterados quanto às fotografias neles constantes, que serão objeto de laudo próprio, e aquelas lançadas nos documentos (missivas) com os números 16, 23 e 28, possibilitando, assim, a individualização gráfica do punho de Wolfgang Gerhard também para os documentos com os números 15, 17 a 22, 24 a 27, 29 e 30, bem como lançamentos manuscritos apostos nos documentos mecanografados de número 40’.

Vida abastada

Durante quase toda a vida, Mengele viveu longe de apertos financeiros. Seu pai, Karl, era dono de uma empresa de equipamentos agrícolas. Quando, em 1948, Mengele decidiu sair da Alemanha, foi seu pai quem teve a idéia mandá-lo para a Argentina.

Com bons contatos no país sul-americano, Karl viu a possibilidade de Mengele ser seu representante nos negócios, o que deu ao nazista uma vida confortável para um fugitivo. Anos depois, no Paraguai, Menguele já não dispunha de recursos como antes. Sua situação tornou-se crítica no Brasil, por volta de 1974, quando precisou vender o apartamento que tinha em São Paulo -e cujo aluguel era vital- para comprar documentos falsificados.

A partir da mesma época, as quantias que precisava pagar pelo silêncio de quem conhecia sua verdadeira identidade passaram a ficar mais pesadas. Anotações de 1976 em excertos de um diário manuscrito mostram que Mengele passou por momentos em que faltou dinheiro para pagar a gasolina necessária para uma viagem de carro ao Rio de Janeiro.

Sua volta para a Europa, em uma provável tentativa de se esconder com Gerhard na Áustria, era ainda mais difícil. Além dos documentos falsificados de maneira bastante imperfeita, havia a falta de dinheiro para a viagem. (Ana Flor e Andréa Michael, Sucursal de Brasília.)

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/11/2008 paulo roberto silva

    rio,19/11/08-conheci o sr.jm por volta do ano de 1972, eu tinha 20 anos. por leitura comhecia a historia dos lideres nazistas. fiquei frente a frente com ele, sem saber, quem era. só apos a noticia da sua morte, pelos jornais, reconheci com dificuldade a sua fisionomia. o mais importante é que havia um grupo de pessoas que davam cobertura a sua permanenciia no rio. inocentemente, escrevi ao sr simon (caçador de nazistas) em bruxelas, nunca tive resposta.hoje mais velho entendo melhor tudo aquilo. sob regime militar é claro que as republiquetas latinas seriam o local ideal para o pouso das águias.

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