Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & CORPORATIVISMO

O colega é a notícia: blecaute total

Por Gilberto Marotta em 22/04/2008 na edição 482

O mundo da imprensa é um mundo estranho. Estranho demais. Pois não é estranho que a atividade responsável por levar informações às pessoas seja justamente aquela que mais silencia quando o assunto é ela mesma?

Vejam o caso da adulteração de uma fotografia, patrocinada pela revista IstoÉ, para retirar um ‘Fora Serra’ que não interessava à revista. Que eu saiba, só a Folha de S.Paulo deu, e assim mesmo muito timidamente, e assim mesmo para propagandear que a foto original era sua. Quem mais? Você viu esse vexame do nosso jornalismo estampado em algum telejornal, com direito a leitura em tom de reprovação e cara feia do apresentador?

Mais recentemente, a prisão de Roberto Cabrini. Com que destaque foi noticiada? Quase nenhum. Pense que, ao invés de Cabrini, fosse uma grande modelo, uma Gisele Bündchen. Ou uma atriz, Sônia Braga. Ou fosse um ator, Rodrigo Santoro, ou um esportista, um Felipe Massa, um Guga, um Ronaldinho.

Enfim. Citei esse pessoal porque de certa forma estão no topo e, certamente, mereceriam uma cobertura incessante da imprensa, em todos os canais, veículos e horários, se fossem presos sob a acusação de traficarem drogas. Então a pergunta: porque não com Cabrini? Sim, Roberto Cabrini é uma espécie de celebridade do jornalismo brasileiro, acho que ninguém duvida disso. Começou no jornalismo aos 16 e aos 17 foi contratado pela Globo, tornando-se o mais jovem tele-repórter do país. Foi correspondente internacional da emissora em Londres e Nova York, tendo trabalhado também nas outras grandes: Band, SBT e Record, nesta última tendo chegado recentemente, já fazendo barulho.

Silêncio total

Em 28 anos de carreira, Roberto Cabrini ganhou os principais prêmios como repórter investigativo (APCA, Líbero Badaró, Imprensa e Vladimir Herzog). Cobriu seis guerras internacionais, cinco Olimpíadas e cinco Copas do Mundo, realizando coberturas em mais de 50 países. Seu maior momento, em outubro de 93, foi quando conseguiu uma exclusiva com o ex-secretário do Tesouro do governo Fernando Collor, Paulo César Farias, o PC, então fugitivo, em Londres. Também foi Cabrini quem noticiou, ao vivo, pela Globo, a morte de Ayrton Senna, em maio de 94. Cobria o GP de Ímola, na Itália e, num plantão da emissora, entrou ao vivo dizendo: ‘Morreu Ayrton Senna da Silva! Uma notícia que a gente nunca gostaria de dar! Morreu Ayrton Senna da Silva!’ Quem não se lembra?

Por tudo isso, parece tão estranho que, apenas no caso do repórter Roberto Cabrini, uma cobertura que normalmente é exagerada, sensacionalista, opressiva, sufocante, tenha se tornado dócil e apenas burocrática. E nisso, Cabrini, como notícia – ou ausência dela – conseguiu um marco único, pioneiro: uniu todo tipo de jornalismo, das grandes empresas de imprensa aos blogueiros ditos independentes de plantão.

Em coberturas desse tipo (uma celebridade presa, acusada de um crime grave como o tráfico de drogas, e que ainda por cima se diz vítima de armação), é quase instantâneo que o noticiário seja inundado de perfis do réu e das vítimas, de declarações bombásticas dos envolvidos, de cenas da biografia do ‘meliante’, de tentativas de reconstituição do ‘crime’, da opinião dos ‘especialistas’ e de outros nem tanto. Seria lícito imaginar que, neste caso, a proximidade, as fontes de conhecimento, muito mais amplas, facilitariam enormemente o trabalho dos jornalistas. Inúmeros jornalistas, que aí estão todos os dias discorrendo com galhardia sobre N assuntos diversos, trabalharam e trabalham, conviveram e convivem, diariamente, com Cabrini. Conhecem-no bastante e, certamente, têm dele muitas informações e opiniões. Surpreendentemente, silêncio total. Pela primeira vez, o suposto criminoso foi claramente poupado. Ou será que, apenas dessa vez, os poupados fomos nós?

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Jornalista, Salvador, BA

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