Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

JORNAL DE DEBATES > LIBERDADE DE EXPRESSÃO

O contrabando ideológico

Por Washington Araujo em 26/08/2010 na edição 604

Se existe um assunto que absolutamente não me apetece é essa conversa de que no Brasil se encontram ameaçadas a liberdade de expressão, liberdade de opinião e liberdade de imprensa. Primeiro porque a confusão é grande e nem o editorialista nem o comentarista designado para o mister faz o menor esforço para separar uma de outra, é tudo jogado no mesmo saco das intenções veladas.


Para aproveitar o bordão presidencial, tomo a liberdade de, solene como sói acontecer, declarar que nunca antes na história deste país se usufruiu de tanta liberdade – opinião, expressão, imprensa – como nos dias atuais. E nem se precisa ir muito longe para autenticar essa minha percepção já que se trata de algo facilmente verificável.


Se o leitor desejar fazer uma amostragem na seara das revistas semanais de informação, basta acessar o acervo digital de Veja ou de Época e, em rápido cotejo, verificará diversas matérias de capa ora condenando o presidente, ora o seu governo, ora o seu partido, ora a sua coligação. Algumas das recentes edições do carro-chefe da Editora Abril trouxeram na capa, sempre carregando na cor vermelho-escarlate, chamadas como ‘Lula, o mito, a fita e os fatos’ (edição 2140), ‘O monstro do radicalismo’ (edição 2173), ‘Ele cobra 12% de comissão para o PT’ (edição 2156) ou ‘Caiu a casa do tesoureiro do PT’ (edição 2155).


E até o mensalão candango, que engolfou a última cidadela governamental do Democratas em fins de 2009, mereceu capa que longe de trazer à mente o partido demista fazia nada sutil remissão ao partido do presidente. Oportuno recolher a desfaçatez com que vistoso colunista da revista Veja (26/11/2009) se referiu à candidata governista. Seu texto abria assim: ‘A fraude que virou candidata à presidência anda propondo que o país compare Fernando Henrique a Lula…’


Ficção e realidade


O mesmo poderá ser feito com os jornais de maior tiragem diária do país, como O Globo, a Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo. São mais de oito anos de luta cerrada, quando não agredido em editoriais sob medida para criticar essa ou aquela frase do presidente, sempre ânimo redobrado para fustigar essa ou aquela política pública.


Vejamos o que escreve o principal comentarista de política do jornal O Globo, Merval Pereira. Em apenas dois meses não deixou de vociferar o que crê seja digno de nota e remissões: a alcunha que criou para Dilma Rousseff, a laranja eleitoral. Destaco os seguintes excertos de sua coluna em que o tema é temperado e retemperado pelo maduro articulista:


** ‘Os discursos nas convenções do PT e do PSDB, no fim de semana passado, revelam com clareza qual será o tom da campanha presidencial daqui para a frente, quando já temos candidatos oficiais e não simples pré-candidatos, como a esdrúxula legislação eleitoral definia até então. De um lado, a candidata oficial, Dilma Rousseff, transformada pelo próprio Lula em sua ‘laranja’ eleitoral; de outro, o tucano José Serra atacando o PT, a falta de experiência da adversária, mas só se referindo a Lula de maneira indireta.’ (‘Meu nome é Dilma’, 15/6/2010)


** ‘A verdade, porém, é que mesmo que a candidata oficial Dilma Rousseff alegue que não compartilha essas propostas, elas fazem parte de uma espécie de código genético da ala mais radical do petismo, da qual ela já era figura proeminente antes mesmo de surgir do bolso do colete de Lula para ser impingida ao eleitorado como sua ‘laranja eleitoral’.’ (‘Contradições’, 06/7/2010)


** ‘A candidata petista, por seu turno, tem alguns desafios importantes pela frente, o principal deles o de convencer o eleitorado de que o seu eventual primeiro mandato será o terceiro de Lula, o que pode transformá-la em uma mera ‘laranja eleitoral’ do seu mentor. O que pode agradar a certo eleitorado, e afastar outro.’ (‘O predomínio eleitoral’, 16/7/2010)


** ‘Serra está à procura de temas que sirvam para atacar o governo Lula sem atacar o próprio, enquanto Dilma a cada dia valoriza mais o papel de ‘laranja eleitoral’ de Lula, recusando-se a aprofundar o debate de políticas governamentais, passando apenas a única mensagem que interessa, a da continuidade do governo Lula.’ (‘Quem é quem’, 11/8/2010)


** ‘É também importante frisar que, àquela altura, ainda com sequelas do mensalão, Lula tinha 55% de avaliação de ‘bom e ótimo’ nas pesquisas, e hoje tem 77%. Mas, como não é ele que concorre, e sim uma sua ‘laranja eleitoral’, a transferência de votos ainda não é total, e possivelmente não será.’ (‘Zona de conforto’, 17/8/2010)


E para defender sua ideologia liberal, vale tudo. Destaco o seguinte diálogo (que me foi enviado pelo leitor D.M.S.) de recente capítulo na novela Paraíso, da TV Globo. Observem como personagens de ficção avançam para além de qualquer trama para tratar do que consideram ser a realpolitik. E como vem sendo cada vez mais corriqueiro contrabandear ideologia e crítica política através de personagens que, bem ou mal, caem nas graças do povo:




Atriz: ‘Vamos perfurar um poço de petróleo aqui na cidade’


Ator: ‘Você não é candidata a presidente da república. Nem presidente da Petrobras’


Atriz: ‘Quanto custa pra perfurar um poço de petróleo?’


Ator: ‘Muito…’


Atriz: ‘Mais de mil escolas?’


Ator: ‘Bota mil nisso…’


Atriz: ‘Mais de mil hospitais?’


Ator: ‘Bota mil nisso… Em vez de gastar dinheiro perfurando poço de petróleo, a gente poderia encher de escolas, hospitais…’


(Pausa para os comerciais).


Irônico que a primeira empresa que surge fazendo seu comercial é a própria Petrobras, Coisas do Brasil?


Argumento anêmico


A revista Época também segue à risca o script que deseja cumprir. Para ilustrar cito recente edição (nº 639, de 14/8/2010) em que a capa é a foto da jovem Dilma Rousseff, em princípios dos anos 1960. A manchete é lúgubre: ‘O passado de Dilma’, com a explicação que mais ameaça que esclarece qualquer coisa: ‘Documentos inéditos revelam uma história que ela não gosta de lembrar: seu papel na luta armada contra o regime militar’ (ver, neste Observatório, ‘Revista ignora a anistia‘).


A ‘matéria’ lista perguntas que, segundo a revista, a candidata se recusa a responder. Tudo no elevado estilo ‘intimidação sempre rende resultados’. Ao leitor imparcial fica evidente e enorme forma de marginalização que a mídia tenta aplicar à figura da candidata. Até a ditadura brasileira é assumida pela revista, mesmo que indiretamente, como tendo ocorrido. As questões que a revista trata de cobrir – com o véu de suspeição em estado bruto – representam torpe tentativa de criminalizar a candidata e, para tanto, não hesitam em minimizar o contexto dando conta que o país vivia tenebroso período ditatorial. Escamoteou-se que Dilma desceu do muro e teve a coragem de decidir em que lado estava: a luta contra o arbítrio.


O colunista da Folha de S.Paulo Fernando Barros e Silva, na edição de 1/6/2010 do jornal, escreveu texto com o título ‘O Bolsa-Mídia de Lula’. Profissional talentoso, Fernando não é só um articulista, mas também editor. E, por ele passam as mais relevantes decisões editoriais do jornal paulista. Pois bem: no texto, Fernando repercute matéria da própria Folha, que demonstra como Lula pulverizou a verba publicitária do governo: em 2003, 179 jornais receberam verbas federais; em 2008, foram 1.273. Lula fez o mesmo com rádios e com a internet. Com esse raciocínio inicial era de se esperar qualquer coisa menos um petardo como o que ele arremessou a seguir:




‘(…) a língua oficial chama [a tal pulverização de verbas] de regionalização da publicidade estatal e vende como sinal de ‘democratização’. Na prática, significa que o governo promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes nesse país.’


É daqueles casos em que o texto não faz jus ao talento do autor. Argumento tão raquítico, anêmico faria qualquer um de nós, Jecas Tatus do Brasil profundo, pensar com seus botões: ‘Ué, quer dizer que quando a verba ia só para o ‘primeiro escalão’ (onde, suponho, Fernando inclui a Folha, onde ganha o sustento diário) os governos anteriores a 2003 estavam simplesmente ‘comprando a mídia’? É isso mesmo? Tal pensamento não carrega em seu cerne a idéia de desejar ser comprado sozinho sem se expor às agruras de um capitalismo com concorrência?’


Contra e a favor


Dia sim e dia não também, incluindo telejornais noturnos e madrugadeiros, somos bombardeados aos longos das semanas, meses e anos com a mais ampla liberdade de expressão. É sob a égide dessa preciosa liberdade que proliferam os insultos de baixo e alto calados. Termina sendo também a inconfessável defesa de seus valores antípodas. Como o destempero verbal (e escrito), o ataque infamante – quando não apenas calunioso – busca a cabal sujeição de suas vítimas à mais completa impotência ante o formidável aparato de comunicação com suas sentenças formadas antes mesmo de o crime haver sido pensado. Sentença que será repercutida por seus pares à exaustão, dando assim ares de legitimidade ao que não passa de mera luta para manter seu poder nas auriverdes esferas da política e da economia.


Infelizmente tenho que reconhecer que nossos meios de comunicação de massa não revelam a realidade, mascaram-na; eles não ajudam a gerar mudança, transformações e, ao contrário, ajudam a evitá-la. Pior ainda, nossos meios estão bem longe de incentivar a participação democrática. São muito mais afeitos a nos levar à passividade, à resignação e ao egoísmo. Apropriam-se das bandeiras mais caras ao espírito humano – justiça, liberdade – para torná-las reles mercadorias de troca em sua incessante luta pelo poder, cada vez mais inconstante, cada vez mais fugidio.


Em 2002, em almoço nas dependências do jornal Folha de S.Paulo, seu diretor Otavio Frias Filho sapecou a questão para Lula: ‘Como é que o senhor vai governar o Brasil se não fala inglês?’ Passados oito anos chegamos à conclusão que no caso talvez falar inglês pesasse contra, e não a favor, do então candidato à presidência do Brasil. É possível que, ainda nos próximos 40 dias, atendendo a convite para hipotético almoço no mesmo jornal, seu diretor de Redação sinta-se à vontade para perguntar a Dilma Roussef:


‘Como é que a senhora vai governar o Brasil se não fala a nossa língua?’

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Mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/08/2010 Rian Santos

    Conclusão do professro Bucci, em oportuno artigo publicado logo abaixo.

    ‘A lei não melhora o jornalismo, mas pode piorá-lo, assim como pode embrutecer o Estado e infernizar a vida em sociedade. A Venezuela que o diga.’

  2. Comentou em 30/08/2010 Dante Caleffi

    Merval Pereira, laranja dos Marinho, sabe do que está falando.Conhecimento de causa em matérias cítricas não lhe faltam.Daí a maestria no texto.

  3. Comentou em 28/08/2010 Antônio Luiz Calmon Teixeira Filho

    A deformação intelectual do articulista o impede de enxergar as coisas como elas verdadeiramente são. O atual presidente emula com perfeição o fascista Getúlio Vargas e os generais da ditadura: a ladainha do “pai dos pobres”, que nos aprisiona em um sebastianismo tardio (agora é a “mãe” – pobre de nós!!!), e do “Brasil grande”, um ufanismo sem propósito (grande mesmo para os áulicos). Para o articulista, a crítica não pode existir; apenas elogios (Costa e Silva – olha o general!!). O risco à liberdade de expressão salta aos olhos. Dora Kramer no OESP de ontem, 27.08.2010, resume com rara felicidade o momento atual: “Chávez é explícito. Hoje prende e arrebenta, mas nem sempre foi assim, embora caminhe nesse sentido desde o início. Os fascinados por ‘governos do povo’ – os bem-intencionados, não os vendidos – é que não percebem o andar da carruagem do autoritarismo.” Vale, também, a leitura de “Mente Cativa” de Czeslaw Milosz, livro no qual o poeta destrincha o fascínio exercido pelos regimes totalitários sobre artistas, escritores, cantores, pensadores etc. Por isso, todos os governos devem ser dura e sistematicamente criticados. SEMPRE. Assim, a perseguição à imprensa fomentada pelo atual governo, e com ampla aceitação no seu espectro ideológico, jamais terminará bem. Até porque democracia e ideologia de esquerda são como água e vinho: jamais se misturam, como prova a história.

  4. Comentou em 27/08/2010 João Saboia Jr

    Parabéns, artigo de uma clareza e lucidez ímpares.
    Vale lembra também das agressões que a mídia pratica contra o Presidente
    Lula, minha anta – O apedeuta – Lul, o bebado – epor aí vai…
    Lula

  5. Comentou em 26/08/2010 DIEGO MASCARENHAS

    Se o Serra continuar descendo nas pesquisas, daqui a pouco vão chamá-lo para ajudar no resgate dos mineiros chilenos. Fico feliz que o povo vai continuar a governar o Brasil pelo menos por mais 8 anos. Nossas estatais continuaram nossas, emprego e renda em crescimento. chora direita ultrapassada e traíra. Eu sempre votei nos candidatos do Partidos dos Trabalhadores,que assim como uma familia grande teve poblemas e sempre vai ter isto é natural em um partido grande não tem como comtrolar, porém é o que tem os melhores politicos.Agora comvesso que estou ficando preocupado, sabe porque? um pais que não tenha opsição não é legal porque pode haver acomodação e ai estou vendo que o PSDB nem pra ser oposição serve então fica dificil imagine vocês se um partido não serve pra ser oposição quanto mais pra ser governo. aliás esta esperiéncia nunca mais. Outro porém: A minha preocupação não é com a eleição nacional. A meu ver, meio que decidida. É a eleição paulista. Aguentar mais 4 anos de tucano ( e pior, de Alckmin)vai ser quase insuportável.O pior é que nunca vi tanta coisa ruim junta. Mercadante é o PT de São Paulo profissional, nada a oferecer, senão politicagem de quinta e muita incompetência na hora de fazer qualquer coisa. Russomano é um misto de Paulo Maluf com Amaral Neto dentre outras coisas podres da política nacional. É o fim mesmo da pi-ca-da!!

  6. Comentou em 26/08/2010 Ricardo Pereira

    Alvissaras! O Lelis veio nos mostrar que o rei está nu. Sempre houve ao longo da historia alguns que vislumbram através da bruma a realidade distante e concreta. Infelizmente estes são santos de casa que nao fazem milagres. Ó cego povo que se debate nos caminhos da ignorancia, nao deveis mais chorar, porque o Lelis vem nos mostrar o caminho. Ave, mestre.
    Obs: infelizmente tb nao consigo enxergar através das brumas do Pt

  7. Comentou em 30/04/2009 Tadeu Santos

    E o papel da mídia no polêmico e famigerado Código Ambiental do Governador Catarinense, dos Deputados que não tiveram coragem de registrar um só voto contra, das madeireiras, das celuloses, das monoculturas e do agronegócio para exportação.
    A ousada ação de inconstitucionalidade é estrategicamente proposital para alterar o Código Florestal Brasileiro. A mídia nacional estaria se mostrado um pouco acanhada, talvez com receio de perder seus patrocinadores? Afinal a questão é gravíssima, pois ameaça a integridade do protecionista Código Florestal! A ganância do setor agronegócio (que não valoriza a agricultura familiar), tem fortíssimo apoio da bancada ruralista. A guerra contra o verde pode comprometer a segurança de milhoes de pessoas neste país, da mesma forma como ocorreu com a tragédia do Vale do Itajaí (em Blumenau) em Novembro de 2008.
    Como ambientalistas entendemos que a mídia tem uma grande responsabilidade na divulgação e esclarecimentos de fatos que chegam à opinião pública, principalmente nestas questões que envolvem a segurança das pessoas. Tanto na violência das cidades quanto na ocorrência de adversidades e mudanças climáticas, das medidas preventivas e de adaptação às populações que vivem em área de risco. Querem aumentar a área de plantio junto ao que resta das matas ciliares e encostas de morros, ou seja, as APP, que protegem os cursos d’água.

  8. Comentou em 22/01/2008 funaguas funaguas

    http://www.portalaz.com.br/noticia/meio_ambiente/95166

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