Quinta-feira, 26 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº984
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JORNAL DE DEBATES > CASO ISABELLA

O crime e o inquérito midiático

Por Luiz Leitão e Roberto Wanderley Nogueira em 15/04/2008 na edição 481

O site do Estadão exibe a foto com sintomática legenda: ‘Pai de Isabella tenta `driblar´ a imprensa à saída da prisão’. O termo entre aspas como que ironiza a situação, dada a impossibilidade de um homem que nem acusado formalmente é, escapar do assédio dos repórteres.

A mídia dá o costumeiro destaque a temas que suscitam o clamor popular, mas é de se perguntar se todo esse frisson em torno do bárbaro caso do assassinato da menina Isabella Nardoni não está sendo exagerado pelos próprios meios de comunicação. Os textos e falas transpiram uma ansiedade que não se nota nem nos protagonistas da tragédia; a própria mãe da vítima tem estado serena e se absteve de fazer comentários e julgamentos.

Os repórteres e âncoras repetem exaustivamente as falas de testemunhas, promotor, delegados e outros envolvidos neste caso que deveriam, em respeito ao princípio constitucional da presunção de inocência, evitar dar declarações apressadas sobre o andamento das investigações, do tipo ‘provas ligam casal às agressões’, como fez o promotor, em deplorável atuação.

A esmagadora pressão da mídia pode perfeitamente ter influído na decretação da prisão preventiva dos… o que são mesmo o pai e a madrasta de Isabella? Indiciados? Não. Denunciados? Também não. São suspeitos, ou averiguados. Uma prisão injusta, apressada, ilegal; tanto assim que o Tribunal de Justiça concedeu liminar, em belo, longo e bem embasado despacho do desembargador Canguçu de Almeida.

‘Demanda artificial’

Não foram só estes dois as vítimas do furor midiático dos editores das seções policiais; um pedreiro que chegou a integrar o rol dos suspeitos disse, às lágrimas, que estava sendo chamado de assassino por vizinhos depois que apareceu na televisão.

Não foram poucos os editoriais que criticaram, há algum tempo, a pirotecnia das ações da Polícia Federal, que na nova gestão tem se pautado pela discrição, raramente divulgando nomes e imagens dos presos em suas operações. Agora, em copiosas manchetes e reportagens repetitivas, a mídia faz muito pior. O Estadão chegou ao requinte de publicar (12/4, pág. C-4) o endereço do avô paterno da vítima, onde ficarão hospedados os acusados.

Mas a televisão, o rádio e os portais dos jornais agem como se estivéssemos vivendo uma calamidade pública, praticamente em regime de plantão – a Folha Online com a chamada ‘urgente’ para noticiar a soltura do casal Nardoni. A mesma Folha informa que os peritos têm trabalhado ‘com apreensão’ em virtude da repercussão do caso, o que pode levá-los a cometer erros.

O público quer, evidentemente, ser informado, mas é de uma clareza solar que a imprensa, de certa forma, cria uma espécie de ‘demanda artificial’ por uma enxurrada de notícias, especulações e depoimentos, quando as manchetes poderiam ser mais frugais.

Ponderação e senso de medida

Os indeléveis danos psicológicos causados por uma prisão eventualmente injusta, ainda que por ‘apenas’ uma semana, não são mensuráveis e tampouco podem ser reparados com dinheiro.

Ao trauma de perder uma filha soma-se a crueldade do julgamento antecipado pelas palavras das autoridades e pela frenética cobertura da mídia. Mesmo os que não figuram entre os suspeitos, como a mãe e outros parentes da criança, sofrem com essa mórbida algaravia, mas a imprensa, indiferente, quiçá norteada pelo retorno financeiro proporcionado pela novelesca cobertura, se atira com inigualável apetite à cobertura de alguns fatos e numerosas suposições.

Pode ser que os atuais suspeitos venham a ser denunciados, julgados e condenados, mas essa tarefa cabe apenas ao júri. À imprensa cumpre noticiar, sem censura mas com parcimônia, ponderação, equilíbrio, senso de medida.

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Respectivamente administrador de empresas e juiz federal em Recife, PE

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