Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > IGREJA & PEDOFILIA

O crime e o pecado

Por Luciano Martins Costa em 26/03/2010 na edição 582

A imprensa internacional faz bastante barulho em torno da omissão do Vaticano diante das denúncias de abusos contra 200 internos de uma escola para meninos surdos nos Estados Unidos, cometidos por um padre ao longo de quase 25 anos. Foram gerações de crianças molestadas.


A notícia, originalmente publicada no New York Times, informa que o próprio papa Bento 16, quando ainda era o cardeal Joseph Ratzinger, responsável pela Congregação da Doutrina e da Fé, o tribunal eclesiástico da igreja católica, foi o responsável pela suspensão do julgamento do acusado.


Graças à proteção de Ratzinger, o padre Lawrence Murphy morreu placidamente após ter continuado por outros 24 anos a trabalhar com crianças em situação de vulnerabilidade.


A notícia tem ares de escândalo, e obscurece o esforço que faz o Vaticano para se contrapor à onda de denúncias contra sacerdotes em várias partes do mundo. Representantes de Roma acusam a imprensa de fazer sensacionalismo.


Igreja e Estado


Recentemente, o papa Bento 16 alterou a tradicional postura da igreja, que durante os últimos séculos se omitiu diante das acusações de abusos sexuais cometidos por sacerdotes. Ele deu uma ordem à igreja na Irlanda para que todos os acusados fossem julgados pelos tribunais canônicos e levados à justiça civil. No entanto, Bento 16 também é acusado de haver fechado os olhos para os crimes cometidos por representantes da igreja em seu país de origem, a Alemanha.


No Brasil, a notícia do New York Times recebe tratamentos diferentes, conforme o jornal. O Globo dedica amplo espaço ao assunto, com mais de uma página e meia, contando detalhes do episódio e reproduzindo opiniões de vaticanólogos que defendem o papa.


A Folha de S.Paulo usa uma página inteira e apresenta um quadro com outras polêmicas nas quais o atual pontífice foi envolvido, entre elas o fato de haver participado, na juventude, de uma organização nazista e, recentemente, de haver reintegrado à igreja um bispo que havia negado a gravidade do extermínio de judeus pelo nazismo.


O Estado de S.Paulo apenas registra a acusação de omissão no caso do padre americano, citando o New York Times.


É flagrante o desconforto do Estadão em lidar com acusações contra a igreja católica. Também se pode notar que a imprensa brasileira, de modo geral, tem dificuldades em separar crime de pecado. No caso de sacerdotes católicos que cometem o crime de pedofilia, em geral o noticiário e as análises se concentram no aspecto religioso, e pouco se fala da questão criminal.


A separação entre Igreja e Estado tem a idade da República, mas parece ainda obscurecida no raciocínio de muitos jornalistas.


 

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