Segunda-feira, 27 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº938

JORNAL DE DEBATES > RENATO JANINE RIBEIRO

“O crime hediondo vai muito além das causas sociais”

Por OI na TV em 01/03/2007 na edição 422

Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo, foi um dos convidados do programa televisivo do Observatório da Imprensa, transmitido pela Rede Pública de TV na terça-feira (27/2). Aqui estão excertos de sua participação. No primeiro bloco, Janine falou da repercussão do seu artigo ‘Razão em sensibilidade’, publicado na Folha de S.Paulo (caderno ‘Mais!’, 18/2/2007), sobre o caso do menino João Hélio:


‘Estou em estado de choque com tudo isso que aconteceu. Esse menino foi assassinado de maneira muito cruel. Eu li os jornais até o momento de ter a certeza de que a morte dele não tinha sido fruto do acaso. Quer dizer, até o momento de ter a certeza de que os assassinos sabiam que estavam arrastando o menino daquela idade. Eu também tenho filho pequeno e, certamente, isso pesa. Além disso, não pensei que fosse ver um ato tão desumano. Eu me sinto, um pouco, no lugar das primeiras pessoas que chegaram ao campo de concentração nazista e viram os farrapos humanos que estavam lá. Estamos diante de uma extinção da compaixão, de uma abolição dos sentimentos de humanidade. É uma coisa que foi feita de forma sistemática pelo nazismo. Por isso, no meu artigo, comparei a atitude desses assassinos à dos nazistas.


‘O que fazer em função disso, realmente, eu não saberia dizer, não saberia propor. O que eu sinto é um descompasso muito grande entre o clamor da sociedade brasileira, que é um grito, e o que as instituições oferecem. Quando, depois disso, o juiz fala que a pena é de três anos para o menor, a população tem a sensação de impunidade, de desdém pela vida. Eu me preocupo com a legitimidade desse modo de pensar, que está muito afastado de uma reação de indignação a esse tipo de crime.’


O que dizer a respeito?


‘Há trabalhos sérios sobre a violência, como o do Núcleo de Estudos da Violência, na USP, que eu sempre apoiei. Há muitas coisas que vão nessa direção e que são positivas. Mas há também um outro lado muito assustador, que é a falta de hábitos de debates, no Brasil. Na nossa sociedade, quando há debate a tendência é transformá-lo em polêmica e começar a denegrir o adversário. O fato de que tenha havido tantos artigos ou cartas a respeito do meu artigo na Folha, na verdade me incomoda.A questão foi deslocada do ponto que era, a atrocidade cometida contra o João Hélio, para as minhas opiniões, sobretudo para uma invenção sobre as minhas opiniões. Chegaram a me atribuir uma defesa da pena de morte, da pena de tortura, que nunca eu fiz porque não se enquadra entre os meus valores.


‘O que me impressiona é, primeiro, esse deslocamento das questões. Nós deveríamos estar concentrados nessa questão da dor extrema, da desumanização ou de como resolver isso. Deveríamos também tentar pensar que o mais importante é o assunto que está sendo discutido. Nós não temos essa tradição, nem na academia nem no jornalismo. Na academia, geralmente, ou concordamos, já que assim fica tudo bem, ou discordamos e vira uma briga, o que não tem que ser. Acho que não existe coisa melhor do que discordar de alguém, essa pessoa contra-argumentar, gerar um belo debate, eventualmente um mudar de idéia, ou o outro, ou os dois. Isso está fazendo falta.


‘Agora, além de tudo, há um elemento nessa história que é o de emoção fortíssima, de indignação muito grande – e esse elemento não pode ser desprezado. Não dá para pensar essas questões simplesmente como operações de solução. Esse é o ponto que se aproxima do nazismo. Os comentadores e analistas do nazismo falaram muito de como a crueldade nazista, de certa forma, cassava a palavra; de como ficava impossível escrever, narrar e analisar Auschwitz. Se você vê um crime hediondo, o que vai dizer a respeito? Vai dizer quais foram causas sociais? Isso não dá conta. O crime hediondo vai muito além das causas sociais, vai muito além disso. Então, existe um fenômeno que, se de alguma forma nós pudermos orientar, mobilizar e caminhar, pode trazer um resultado positivo – que pode ser algum tipo de mutirão, de luta contra a violência, pela paz. Mas a gente já viu tanto isso, já é tanta crueldade – o menino queimado em Bragança Paulista, gente queimada em ônibus no Rio – que há um certo lado que se torna blasé em relação a isso. Eu realmente estou muito preocupado.’


Resposta ao telespectador


No terceiro bloco, Janine respondeu a uma pergunta feita pelo telespectador Magno Oliveira, do Rio de Janeiro: ‘Novelas têm imitado os acontecimentos da vida real, como o incêndio do ônibus no Rio e o assassinato do milionário da megasena. O autor diz que usa fatos como esses como forma de denúncia. O senhor não acredita que isso pode banalizar ainda mais a violência?’


‘Não acredito. Há intenções nas novelas que são muito positivas no sentido de provocar certas mudanças de conduta. Por exemplo, as novelas tiveram papel muito importante numa consciência maior dos brasileiros sobre igualdade dos sexos e contra o preconceito racial. Começou nos anos 1970, com um combate muito forte contra o machismo, contra a idéia de que o homem valia mais do que a mulher. Desde então, houve sucessivas novelas a respeito disso e também foi passado para a agenda brasileira a idéia de que homossexuais têm os mesmos direitos que os heterossexuais.


‘Acho que as novelas tiveram e têm um papel importante nisso. Nós estamos diante de uma situação que é extremamente séria. Agora, a transmissão pela TV, pela novela, do fato de que certamente a grande maioria da sociedade brasileira quer a paz, quer a humanização, não está sendo suficiente, não está impedindo a barbárie. Crimes, talvez tão hediondos quanto esse foram, de certa forma, deixados de lado. O fato é que algo quebrou com esse crime, pelo menos para mim. E, ao mesmo tempo, a sensação de que medidas para superar isso têm que ser medidas muito fortes.


‘Quem tem se empenhado mais numa mobilização da sociedade brasileira? É muito estranho para mim afirmar, porque tenho toda uma trajetória muito leiga sobre o que eu vou dizer, mas o que me impressiona muito é a dedicação das pessoas que têm religião, que têm fé, como o padre Júlio Lancelotti, em São Paulo, e o senhor Masataka Ota, também em São Paulo, cujo filho pequeno foi assassinado de uma maneira bárbara. São pessoas assim que, de repente, são capazes de uma dedicação. O senhor Ota, quando o filho morreu, rezou, xingou Deus e pediu uma iluminação. Quando abriu os olhos, ele viu diante dele uma Bíblia e decidiu dar uma aos criminosos ao invés de matá-los, que era a primeira tendência dele. Existe uma força e uma dedicação que muita gente tira da religião. Parece que para enfrentar o mal, é pouca a força que nós isoladamente dispomos.’ (Transcrição de Camila Elias)

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