Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > PRESIDÊNCIA DA CÂMARA

O debate a que pouca gente pôde assistir

Por Alberto Dines em 30/01/2007 na edição 418

Esta eleição para a presidência da Câmara do Deputados deve entrar para a história, qualquer que seja o vencedor. Para começar: nunca houve uma situação como a de agora, com dois candidatos da base aliada do governo aparentemente engalfinhados e um tertius da oposição muito bem situado.


O debate televisivo entre os três candidatos travado na segunda-feira (29/1) também foi inédito porque os colocou diante da sociedade que representam e os submeteu a uma espécie de eleição simulada. Agora, os 513 deputados terão que pensar duas vezes antes de fazer uma escolha que poderá desagradar o eleitor, que desta vez não está alheio.


Quando falamos no Legislativo estamos tratando da democracia representativa. A TV Câmara, que transmitiu o confronto, é uma emissora com vocação pública, mas com sinal distribuído na rede de TV por assinatura. O acesso não é universal, pois uma ínfima parte da audiência televisiva do país tem condições de pagar para sintonizá-la. E para restringir ainda mais o acesso do público, a Mesa Diretora da Câmara optou por realizá-lo… às 11 horas da manhã. Neste horário e nesta época, ninguém está ligado à TV, a não ser as crianças ainda em férias.


A Mesa Diretora, que obedece ao comando de um dos candidatos, Aldo Rebelo, se estivesse efetivamente interessada em dar mais exposição ao debate poderia ter sugerido às televisões da rede aberta que o retransmitissem naquela ou em outra hora. As emissoras não se recusariam porque são concessões públicas e precisam agradar aos concessionários.


Coisa fingida


A mídia também carrega parte da culpa pois nenhum dos três grandes jornais nacionais, em suas edições de segunda-feira, chamou a atenção dos leitores-eleitores para debate histórico que se realizaria naquela manhã. Rádios e telejornais apresentaram flashes do debate, a mídia eletrônica comercial não repetiu a proeza de maio e junho de 2005 quando levou as CPIs até à cidadania.


Isso não significa que a grande imprensa esteja desinteressada da disputa pela presidência da Câmara. Ao contrário, a cobertura tem sido intensa, porém voltada para a contenda em si. E, obviamente, baseada em declarações dos contendores. Pelos jornais, parece que Aldo Rebelo e Arlindo Chinaglia tornaram-se inimigos mortais. Não é bem assim. Suas diferenças são estritamente pessoais e envolvem problemas de terceiros.


A mídia não compreendeu que a sociedade precisa acompanhar esta disputa além da cobertura das páginas políticas, geralmente freqüentadas pelos iniciados. Desperdiçou preciosa oportunidade de reforçar a noção de democracia representativa ao preferir a confortável posição de intermediária exclusiva de um confronto político. Mais correto seria permitir que o debate chegasse integralmente à sociedade e fosse, em seguida, analisado pela mídia.


Restou a impressão de coisa fingida: dois dos candidatos fingiram que estavam disputando uma eleição renhida, a Mesa Diretora fingiu que estava interessada em levar a disputa à sociedade e a mídia, novamente, fingiu que está a serviço do interesse público.


[Atualizado às 15h25 de 30/1]

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/01/2007 JoãoPequeno

    Quem conhece redaçoes de grandes jornais – o que é o meu caso -, sabe que a grande maioria dos ornalistas é de esquerda, inclusive os mais velhos. Quem não conhece, fala de acordo com o que quer que seja, embora de fato não seja. Markunas, tentar um debate reazoável com o grosso dos comentadores aqui é como torcer para Trinidad y Tobago na Copa ////// Neste jogo, as regras são claras: a mídia (chmam assim a imprensa) é dominada pelos interesses escusos de grupos econômicos (ninguém sabe dizer quais, mas nao importa); Alberto Dines é um velho gagá que só apóia a mídia e demoniza o injustiçado governo e o PT ////// Este é apenas mais um espaço de pressão para intimidar quem ousa desmascarar as estórias que inventam para tentar controlar a comunicação (não basta a maioria, querem Complete Control) Há quem participe consciente e inconscientemente. Os primeiros são pessoas de péssimo caráter. Os segundos, impermeáveis a argumentos. Boa sorte

  2. Comentou em 31/01/2007 Ivan Moraes

    ‘Chávez se aproveita de um povo sem instrução e que sempre foi roubado para, utilizando petrodólares, manter-se no poder.’: essa questao ainda esta em aberto: JK tambem teve amplo apoio popular mas ninguem o confundiria com Idi Amin ou Hitler. Se Chavez quer somente ‘se manter no poder’, porque razoavelmente educou a populacao? Nao seria entrar, muito obviamente, na contramao da historia latina? Meu ponto, certamente, nao era sobre a urna absolver Chavez mas sobre a visibilidade da escolha de seu povo, isso eh, o que nao existe na corrida pela presidencia da camara porque a significancia de ser presidente da camara nao esta explicada pra ninguem e ate agora eu estou com a impressao que a discussao eh sobre carreiras e o futuro das ideologias e dos partidos envolvidos, e nao, de maneira alguma, sobre o futuro do Brasil e de seu povo. Nao eh que o povo esta ficando de fora da audiencia-alvo das explicacoes? O mesmo povo brasilerio que em sua maior parte deu suporte, nao aa ditadura, mas AO GOVERNO, durante aqueles anos, e foi prejudicado imensamente pela ditadura ate mesmo em sua propria capacidade de pensar. Ja nao mais se confundem as coisas assim. Hoje, se nao fosse por Lula, nem suporte para ditadura nem suporte para governo estariam vindo das massas porque esse suporte nunca foi reciproco -uma receita pra deixar o pais cair aos pedacos. E caiu.

  3. Comentou em 31/01/2007 Fernando Markunas

    Senhor Ivan Moraes, vamos lá: 1- Por mais que eu odeie generalizações, o Governo militar foi formado por um grupo de torturadores (com algumas e raras exceções). Do mesmo jeito, que utiliza-se de bombas, sequestros, assassinatos e chantagem para conseguir um objetivo ou é terrorista ou criminoso puro e simples. Ideologias não justificam atos errados. 2- O povo pode fazer o que lhes aprouver. Serem brilhantes ou rematados asnos. Liberdade é isso. Com certeza se cansaram de discursos proferidos por ladrões do erário e estão tentando outro caminho. O povo é quem decide o que quer fazer. Mas nem por isso sou obrigado a esconder minha opinião de que eles fizeram besteira. Chávez se aproveita de um povo sem instrução e que sempre foi roubado para, utilizando petrodólares, manter-se no poder. Idi Amin Dada e Papa Doc apludem alegremente. Assim como os governos centro-africanos que se sustemtam com diamantes de minas que operam com escravos. Esses também foram (em alguns casos) apoiados pela maioria da população. Hitler foi apoiado pela maioria da população. Vladimir Ilitch Ulianov (‘Lenin’) também. Mataram menos gente por causa disso? Foram menos ditadores por causa disso? Não. Urna não absolve ninguém. Ou então teremos que pedir desculpas a Collor e lhe pagar uma reparação pela perda dos direitos políticos.

  4. Comentou em 31/01/2007 Rogério Ferraz Alencar

    Senhor Fernando Markunas: agora o senhor confirmou o que eu disse: os alunos não entravam em faculdades e, depois, em jornais, apenas para gritar contra a ditadura: muitos entravam para apoiar a ditadura. E nunca vi um dono de jornal grande ser perseguido pela ditadura. Quanto a Chávez ter ganho, na primeira vez, com um ‘discurso superado desde 1989’: continuo não vendo lógica nisso. Se o discurso era superado, como foi que Chávez elegeu-se com base nele? E o senhor, por acaso, tem idéia melhor para o presidente venezuelano gastar o dinheiro vindo do petróleo? Ele deveria deixar como estava ou é melhor gastar em políticas ‘assistencialistas’? Deveria gastar em políticas ‘desassistencialistas’? Quanto a Lula, e só ele, mandar no PT: não conheço nenhum fundador do PT para perguntar se apenas Lula manda no partido. O senhor conhece? Já perguntou isso a algum deles? De qualquer forma, a prática não confirma sua afirmação: Luizianne Lins foi eleita contra a vontade de Lula, José Dirceu e José Genoíno, que queriam que o PT nem tivesse candidato, para apoiar Inácio Arruda, do PCdoB. Essa não era uma decisão importante, que teria que passar pelo crivo de Lula? Fortaleza é a quarta maior cidade do país, e a prefeita atual enfrentou, junto com outras alas do PT, a decisão que ‘os mandões’ haviam tomado. Isso também ocorreu no Paraná e em Santa Catarina.

  5. Comentou em 30/01/2007 Ivan Moraes

    ‘nessa época que muitos jovens comunistas-socialistas entraram em faculdades de jornalismo para poderem’: ah, mas que coincidencia fenomenal, eu conheci… zero deles. Perdoe me por supor que os que eu conheci aemr quantitativamente mais significantes, ja que nao tinham dinheiro pra escola e tinham que trabalhar empregos miseros. No entanto, o ‘comunistas-socialistas’ nao me convence nem por um segundo. O que eu lembro eh que em 77 minha irma de 16 anos estava num barzinho comversando com amigos mais jovens em uma lanchonete a respeito de ex-presidentes e um policial os mandou parar ou os prenderia. Disso eu lembro. Era a esses ‘jovens comunistas-socialistas’ que voce se referia? A maioria deles ainda nao toma decisoes, muito menos jornalisticas. Definitivamente nao se conhece o Brasi ate que se separe as classes sociaisl. (minha irma saiu do Br em 79)

  6. Comentou em 30/01/2007 Clerton de Castro e Silva

    Não acho que seja fingimento a disputa para Presidência da Câmara dos Deputados. Pela primeira vez, vamos ter uma disputa muito seria entre dois candidatos do Governo. O Fruet está na disputa só para não deixar o PSDB, ficar chupando o dedo e descambar para uma briga interna. Se o Aldo ganhar, ganha o Lula e enfraquece o Zé Dirceu mais ainda. Porém, se o vencedor for o Arlindo Chinaglia, o Ex-deputado terá um forte aliado para as suas manobras políticas. Acho que o Lula torce pelo Aldo, mas não pode ir contra o PT.

  7. Comentou em 30/01/2007 Isis Biondi

    Teria sido surpreendente se as demais emissoras de televisão tivessem mostrado real interesse em levar ao público o que se passa nos ‘bastidores’ de Brasília e que fazem tanta diferença no cotidiano das pessoas. Principalmente da grande maioria dos brasileiros que só são lembrados quando nossos deputados precisam de votos.

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