Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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JORNAL DE DEBATES > ELEIÇÕES 2010

O debate e o nocaute

Por José Roberto de Toledo em 10/08/2010 na edição 602

É possível medir com precisão o desempenho dos candidatos em um debate eleitoral? Enquetes, a régua tradicional, são contaminadas pela preferência dos eleitores por um presidenciável ou outro. Uma alternativa é contar quanto cada debatedor falou, o que disse, como disse e a quem se dirigiu.

Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) falaram quase o dobro do que Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) durante o debate da Band. Porque fizeram um embate particular: o tucano interpelou a petista três vezes, e foi indagado em duas oportunidades por ela. Marina e Plínio só responderam, cada um, a uma pergunta de seus rivais.

Dilma e Serra criaram mais chances para aparecer. Mas não de convencer. Como o sucesso do Twitter e seu limite de 140 caracteres mostram, moderar o discurso é melhor do que falar pelos cotovelos. Plínio foi o que menos falou, mas acabou como o mais falado. Exposição demais para quem se expressa mal é castigo.

Trabalho e emprego

Mais do que qualquer outro presidenciável, Dilma respondeu a seis perguntas de adversários e a duas de jornalistas durante o debate, fora suas réplicas, tréplicas e considerações finais. Inexperiente, ela gaguejou, perdeu o fôlego, olhou para a câmera errada, estourou o tempo das respostas.

Dos quatro, foi quem mais empregou palavras longas (‘oligopolizados’, ‘acessibilidade’, ‘prioritariamente’), usou termos técnicos (‘bioma’, ‘política estruturante’) e abusou das siglas: UPPs, UPAs, SUS, Samu. Teve uma recaída da mania por cifras: falou ‘milhões’ 12 vezes, e 4 vezes ‘mil’, mais do que seus três adversários somados.

Até as considerações finais, Dilma pronunciou 2.100 palavras, mas conseguiu a proeza de citar Lula apenas três vezes. E só a partir do terceiro bloco. Esquecimento ou tentativa de parecer independente? A primeira hipótese é mais lisonjeira para a petista.

Aplicada, Dilma abordou temas que as pesquisas mostram que os eleitores querem ouvir. Foi quem mais mencionou educação/ensino/escola. Também tentou falar de trabalho e emprego, um dos pontos altos do governo Lula, mas acabou arrastada por Serra para uma discussão interminável sobre mutirões, cirurgias e Apaes.

Bom comportamento

Saúde foi o assunto do tucano. Falou tanto que acabou tachado de hipocondríaco por Plínio.

Serra começou nervoso, a língua ressecada estalando no céu da boca. Acalmou-se vendo Dilma tropeçar. Confrontou a adversária (‘você falou’, ‘você disse’, ‘você teve responsabilidade’) e ajudou-a a perder a concentração. Andava pra lá e pra cá no estúdio da Band enquanto as câmeras miravam a petista.

Serra teria sido o menos pior da noite, não houvesse um Plínio no meio do caminho. Ele fez o tucano se embananar, levando o debate para uma área desconfortável para Serra: a rural. O candidato do PSDB acabou qualificando propriedades de 80 hectares (o que corresponde a 80 quarteirões) de ‘chácara de fim de semana’.

Aos 80 anos, o presidenciável do PSOL debateu como quem não tem nada a perder, e ganhou. Atazanou os três rivais e conversou com o telespectador, a quem se dirigiu com frequência e tratou por ‘você’.

Plínio usou frases e palavras mais curtas que os adversários, e concentrou todo o seu discurso em uma ideia: combate à desigualdade. É certo que pela expropriação, socialização e tudo o que mandam os manuais marxistas.

Foi o oposto de Marina. A verde fez uma pergunta para cada adversário. Sorriu. Não levantou a voz. Declamou poema. Foi quem mais falou de meio ambiente. Fez as frases mais longas e desfiou o vocabulário mais amplo. Se a eleição fosse de candidato mais bem comportado, seria favorita disparada. Mas é para presidente.

Outro ringue

O desempenho dos presidenciáveis na Band deu uma medida do que serão os próximos debates: UOL, RedeTV!, Record, Estado/Gazeta e Globo. Desgastes e eventuais fugas devem influir nas intenções de voto, num processo de acumulação.

Debate não é luta de boxe. A ideia de que um candidato só ganha quando leva o oponente à lona projeta o desejo mórbido de ver um deles deitado em uma poça de sangue. Ninguém vira eleição com um golpe só, nem aprende a debater do dia para a noite. A vitória de um candidato é sempre por votos, nunca por nocaute.

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