Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > ABORTO NA MÍDIA

O debate fora de lugar

Por Alberto Dines em 12/10/2010 na edição 611

Atenção aborteiros, abortistas, antiabortistas, dilmistas e serristas: retirem o assunto dos palanques. Vocês estão brincando com fogo – literalmente.


Os editais dos Autos da Fé já estão afixados nos templos e nas quermesses, as fogueiras estão preparadas. Guerras santas começam por ninharias (a questão do aborto jamais foi premente) e acabam em banhos de sangue.


Este debate ensandecido e despropositado sobre a descriminalização da interrupção da gravidez está empurrando o país para um modelo de república clerocrata, antirrepublicana, semidemocrática.


E a mídia tem grande responsabilidade neste arranca-rabo infantilóide. Nossa imprensa é, por tradição, sacristã: os grandes jornais sempre correram atrás das batinas e disputaram arcebispos e cardeais para lustrar suas páginas. Jamais chamaram um pastor luterano ou um intelectual agnóstico.


Mãos limpas


Quando se tratou de lembrar os 200 anos de fundação da imprensa brasileira, a presença de Hipólito da Costa como patrono do jornalismo foi determinante para que as comemorações fossem suspensas: além de maçom, denunciou ao mundo as barbaridades da Inquisição portuguesa.


Quando em 2008 o presidente Lula foi ao Vaticano acompanhado por seus entes queridos para assinar uma Concordata com o papa Bento 16, a grande imprensa – toda ela, sem exceção – manteve o assunto sob rigoroso sigilo, na clandestinidade. A pedido do governo. Uma imprensa altiva, libertária, não se importou em autocensurar-se ostensivamente [ver emissões abaixo]. Em nome da fé, vale tudo.


Começava naquele exato momento o ensaio geral para a atual caça às bruxas que fatalmente nos conduzirá ao total desrespeito e esquecimento pelos direitos humanos. Convém lembrar que o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, apresentado pelo governo com toda a pompa e circunstância no final de 2009, foi abortado – a palavra é esta, não existe outra – para acalmar as lideranças católicas e evangélicas (ineditamente irmanadas) que orquestravam a oposição ruralista e da mídia. Os chefes militares adoraram, lavaram as mãos. Os civis também sabem fazer suas guerrinhas sujas.


O retorno


A igreja católica rasgou naquele momento uma corajosa história escrita ao longo de três décadas contra a tortura e o desaparecimento dos presos políticos, só para evitar que a nação brasileira começasse a encarar a possibilidade de debater a questão dos símbolos religiosos em prédios públicos, do casamento gay e… do aborto.


O infalível retorno dos bumerangues traz de volta a questão do aborto – vociferada, enraivecida, envilecida, brutalmente simplificada. E condenada a ser erradicada da nossa agenda política pela radicalização eleitoral que a mídia açula e assopra.


 


Leia também


Omissão da mídia sobre o acordo com o Vaticano – Roseli Fischmann


O debate farisaico – A.D.


Entrevista de Roseli Fischmann a Heródoto Barbeiro (rádio CBN)


Acordo por debaixo dos panos — A.D.


A íntegra do acordo (em italiano e português)

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/10/2010 Wallace Lima

    É fundamental perceber, nesse momento pré-eleitoral, um tremendo retrocesso, uma verdadeira ‘caça às buxas’ medieval, como disse Alberto Dines, em que os candidatos à presidência da República se sentem praticamente coagidos a não contrariar a vontade do eleitorado religioso e ultraconservador, sob pena de perderem o pleito. Se na Idade Média as mulheres eram em nome de Deus atiradas desumanamente às fogueiras inquisitoriais, hoje, ainda em nome de Deus, são aos milhares condenadas à morte nas clínicas clandestinas ou por meio da ingestão de medicamentos sem qualquer orientação médica. Que causa pró-amor e pró-vida é essa dos cristãos, que deliberadamente dão as costas para o fato de que milhares de mulheres no Brasil morrem e vão continuar a morrer com a interrupção da gravidez mesmo que permaneça ilegal?! Nem se pode ter ideia exata da quantidade de mulheres que recorrem no Brasil à rede informal de atendimento médico ou que por conta própria se utilizam de métodos para abortar, porque muitas não o revelam, temendo não só o preconceito da sociedade como também uma condenação judicial. Onde o Legislativo e o Executivo teimam em adiar o inadiável e ‘lavar as mãos’, fazer corpo mole, o caos toma conta, a corrupção domina.

  2. Comentou em 16/10/2010 Cristiana Castro

    Fellipe, se eu entendi ( e olha, eu me esforcei, tô até suada ), nós deveríamos aprofundar o debate sobre o tema mas mudando o foco. Minha questão é ( se for isso, é óbvio ), vale a pena arriscar tudo por esse debate? Quero dizer, esse seria o momento? É certo que se essa promiscuidade não fosse tão profunda, não estaríamos nessa situação, agora. Por outro lado, o momento de denúncia e posterior rompimento é esse? Estamos a 15 dias de um pleito que promete ser uma guerra. Sinceramente, eu não sei o que fazer e, pior que isso, nem sei sei se entendi o que vc quis dizer ( e isso é muito ruim ). Os Marcelos’ e o Ibsen, são bons nisso. Vamos esperá-los. O Dines sabe essa p…. toda mas parece que se diverte não explicando direito. ( aqui, em casa todo mundo é ateu tb, isso pra gente é grego ).

  3. Comentou em 15/10/2010 Paulo Araújo

    Será que a contradição numca esteve presente em nenhum de nós? A questão, parece, não ser a contradição ou a discussão sobre um assunto nobre ou não, pois, como Marcelo Idiarte disse, o ambiente a ser tratado tal assunto é noutro lugar (Câmara e Senado). Até nas menores câmaras municipais poderia sim iniciar as discussões sobre o assunto (o que é mesmo que os vereadores fazem?).Porém, servir de isca à eleitores…. vai vê que é porque o peixe é podre também.

  4. Comentou em 14/10/2010 Boris Dunas

    Aaahhh bom, Fellipe! Agora está claro!

  5. Comentou em 12/10/2010 Herman Fulfaro

    Em tempo: Acabo de ouvir pela CBN que o arcebispo de Brasília, em meio à homilia e em plena comemoração do dia de N.S. Aparecida, diante de 45 mil pessoas e embora sem se referir expressamente ao PT ou à ministra Dilma, teria reforçado o que disse o arcebispo da Paraíba sobre o plano do PT/Lula/Dilma de liberarem inteiramente o aborto no Brasil, sugerindo, ademais, que “teriam” voltado atrás ao perceberem que estavam perdendo votos!!! Outra vez… De onde está saindo? A quem interessa arrastar a discussão política para dentro da Igreja?!? A quem aproveita esse fundamentalismo nojento, digno da besta do apocalipse?!?

  6. Comentou em 12/10/2010 Rogério Mendes

    Saia de cima do muro Dines, pois foi o Serra que trouxe a questão do aborto para a discussão na eleição. Foi ele e sua corja que fizeram a campanha da difamação e despertaram os padres conservadores. Todo mundo sabe que a Igreja Católica é um covil de misóginos.

  7. Comentou em 12/10/2010 Washington Ferreira

    Dines matou a pau, deu uma no cravo e outra na ferradura. Denunciou desde a primeira hora o espúrio acordo entre o governo brasileiro e o Vaticano, que teoricamente garantiria a isenção da Igreja no processo eleitoral, e demonostrou cabalmente como a Igreja não se fez de rogada em usar suas ‘ligações perigosas’ com a mídia para propagar ‘ad nauseum’ esta bobajada sobre o aborto. Conciliar demais dá nisso, presidente. É preciso mais coragem e menos demagogia para enterrarmos o fundamentalismo religioso neste País, Parabéns, Dines.

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