Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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O digital e o real

Por Cleyton Carlos Torres em 08/02/2011 na edição 628

Estamos contextualizando demais a internet, atribuindo-lhe poderes sobrenaturais e mágicos. Desconectaram a web de 80 milhões de pessoas e, mesmo depois de sérios prejuízos na economia, dezenas de milhares de egípcios ainda insistem em se manifestar contra o presidente Hosni Mubarak, há 30 anos no poder. O mérito das ações se resume a 140 caracteres? Não. Já alertou, certa vez, o professor: ‘Se um país não quer mudar, não é a internet que irá mudá-lo’ (Manual Castells).

Twitter e Facebook, sozinhos, não formulam revolução alguma. O capital humano por trás dessas redes sociais deve estar preparado e, principalmente, indignado o suficiente para expor corpos e ideais em protestos passíveis de sofreram ataques violentos por parte de autoridades ditatoriais. Mídias sociais, sozinhas, não servem para nada. O que vale, aqui, são os contextos cultural, social e econômico em que a humanidade utiliza tais ferramentas.

O uso dessas novas tecnologias no Egito demonstrou a força que a internet tem de propagar uma mensagem de forma instantânea, porém é preciso que do outro lado haja receptores prontos para consumirem e massificarem tal informação, dando continuidade a um processo que pode chegar a proporções infinitas quando encontram campo fértil. E foi exatamente em meio aos jovens egípcios que a internet encontrou seu campo mais fértil. Porém, aqui, Twitter e Facebook trabalham mais como coadjuvantes do que protagonistas. Os atores principais são os próprios jovens egípcios e, principalmente, profissionais independentes de imprensa e alguns órgãos, como a TV Al Jazira, que tem se destacado na cobertura dos acontecimentos.

Cabe ao jornalismo digital contextualizar

As redes sociais não foram as principais responsáveis pelas manifestações contra Mubarak, assim como não foram na Tunísia, mas foram determinantes para que o mundo todo soubesse o que vinha ocorrendo no Egito. Prova disso é que mesmo com o fim temporário da internet, os protestos foram ganhando formas mais sólidas e categóricas usando a telefonia fixa e até mesmo o fax. A imprensa, por sua vez, fez seu papel de colocar o mundo a par do que lá ocorria. Destaca-se quem fez um uso mais analítico e crítico do jornalismo daqueles que somente lançaram confetes sobre as redes sociais.

É o mesmo caso de Julian Assange e o site WikiLeaks. São revolucionários? Sim. São determinantes? Não, pelo menos sozinhos. O WikiLeaks precisa tanto da imprensa quanto a imprensa precisa de Julian Assange. Alguém deve mastigar todo o conteúdo que é produzido por um emissor tão amplo, ainda mais quando o contexto é a internet e toda a sua gama descentralizada de informações, onde todos se classificam produtores de conteúdo.

Tweets ou likes não derrubam governos, mas são ótimos propulsores de informações a serem disseminadas na rede. Inserir hashtags ou mudar o avatar em uma rede social não cria revoluções, mas oferece material suficiente para que o jornalismo digital contextualize, ao lado dos usuários (jornalismo colaborativo e de dados), a informação que é publicada sem critério algum na rede.

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Jornalista, blogueiro, pós-graduado em Assessoria de Imprensa, Gestão da Comunicação e Marketing e pós-graduando em Política e Sociedade no Brasil Contemporâneo, São Paulo, SP

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