Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > CASO JOÃO HÉLIO

O discurso ‘Deus salve a América’

Por Cássio Caetano Gusson Schiavi em 19/02/2007 na edição 421

O que mais enoja na imprensa é sua falta de capacidade em entender que a sociedade é um organismo complexo no qual as diferentes áreas são ligadas em simbiose e que, embora possamos pensá-las em separado, não podemos deixar de considerar suas relações.

Devido ao roubo que resultou na morte (e aí a imprensa é eximia em tecer qualidades embora adjetivar não seja sua função) do menino João Hélio e a comoção pública em torno do ocorrido, imprensa e políticos voltaram seu discurso para soluções como a punição dos criminosos; redução da maioridade penal etc. Em outras palavras, voltaram a atenção exclusivamente para o aspecto do ‘castigo’ que as pessoas merecem receber. Guardadas as proporções, a situação é igual á da inquisição outrora imposta pela igreja católica, o holocausto promovido pela Alemanha nazista ou a devastação norte-americana em Hiroshima e Nagasaki, ou seja, o ‘mal tem de ser punido para que o bem vença’. Puro maniqueísmo hipócrita.

Causa e efeito

Não quero dizer com isso que os responsáveis pelo crime não devem ser punidos. Nem tampouco que o sistema penal brasileiro não deva ser pensado visando sua melhora. Tudo isto é necessário e deve ocorrer, porém o que a imprensa e o governo têm feito é infantil, pois todas as soluções propostas em artigos, debates ou discussões em toda a mídia sobre o tema dizem respeito apenas a um viés do problema, e ainda apenas ao seu viés derradeiro, se pensarmos a criminalidade como um caminho. Soluções que abarquem apenas o sistema penal em nada resolvem a criminalidade, nem tampouco reduzem os índices de sua ocorrência. Porque o crime não é uma causa, mas um efeito e, sendo assim, para combatê-lo é preciso resolver as questões que o antecedem.

Educação, saneamento básico, alimentação, trabalho e moradia são algumas das áreas que se relacionam com os efeitos da criminalidade. Isolamento em guetos, discriminação, condições indignas de vida, abandono pelo Estado e reclusão social involuntária são outros aspectos ligados à criminalidade que são totalmente desconsiderados quando se propõem soluções pra resolvê-la.

Reflexão imparcial e niilista

Caso o menino da favela aprenda a pintar, tornando-se um artista em ascensão, vira pauta para a imprensa: os olhos voltam-se para as condições sub-humanas dessa população e é rezado um rosário de desgraças ao final do qual se propõem soluções em áreas determinadas afim de que todos possam ser iguais. Agora, se o menino da favela mata, então o foco vira outro, não importando mais sua igualdade perante os outros membros da sociedade, mas que sua punição satisfaça a sede de vingança e reforce o ego sustentando a máscara de bondade do cidadão comum enquanto esconde todo o descaso e toda a maldade que está debaixo de seu ‘fechar os olhos’ frente à realidade que o cerca.

A imprensa, como membro da sociedade e responsável por boa parte de sua formação crítica, não pode cair no viés e na comoção do cidadão comum. É seu dever pensar e refletir de forma imparcial e niilista para que não caia na mediocridade de julgar uma situação complexa que resulta em casos hediondos de forma simplista e superficial.

Igualdade social

Políticas de reforma do sistema penitenciário não resultam em nada se só vierem destinadas ao ‘andar de baixo’ e ainda mais se continuarem existindo manchetes sobre casos surreais como a da Folha de S. Paulo em 15/02 (‘Em seu 1º discurso na Câmara, Maluf cobra mais rigor contra infratores do fisco’).

Reformas no sistema penitenciário não surtem efeito algum se não vierem acompanhadas de uma política de igualdade social; se não vierem acompanhadas de planos para inserção social; se não forem acompanhadas de punição frente a abusos de autoridade; se não vierem acompanhadas de punição para a discriminação; se não vierem acompanhadas de educação de qualidade; se não vierem acompanhadas de condições de trabalho e vida decente etc.

Terror e desigualdade

Apontar o dedo e exigir justiça promovendo uma caça e queima às bruxas é o mesmo que incentivar e realizar as mesmas ações que se condenam e adjetivam de brutais, chocantes e afins. Dizer que se emocionou ao realizar uma entrevista, como fez a apresentadora da TV Globo, é ainda mais hipócrita e mesquinho, pois abusa do sensacionalismo podre que corrompe grande parte da imprensa – não só deste país – e em nada ajuda a combater os crimes que condena. Pelo contrário, ajuda a criar condições para que os mesmos ocorram.

Enquanto a imprensa tomar a atitude ridícula de excluir da sociedade a sua complexidade e seguir analisando-a de forma minimalista e com soluções restritas, teremos um governo imbecil movido pelo sentimentalismo irracional, e não pela razão da igualdade de condições; teremos um cidadão comum orgulhoso de andar em seu carro, freqüentar o templo de sua religião e usar sua batalha contra o mal para afirmação de sua bondade, assim como aponta um 1984. Enquanto esse discurso – ‘Deus salve a América’ – continuar, progrediremos cada vez mais para uma sociedade de terror e desigualdade. Para que isso não ocorra, é indispensável que, pelo menos de vez em quando, a imprensa e o governo pensem um pouco mais para que, depois que o menino João Hélio deixe de ser ‘assunto’, a causa continue em evidência para que seus efeitos sejam sanados.

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Coordenador de Comunicação, Jundiaí, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/02/2007 Paulo Mora

    Bonito, mas não vende jornal nem dá audiência. Os mais favorecidos querem saber se as blindagens de carro ficarão mais baratas e se o condomínio aumentará a segurança. Os pobres que morram, de preferência sem incomodar.

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