Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > ENGENHARIA URBANA

O dono do buraco

Por Gabriel Perissé em 23/01/2007 na edição 417

Os cariocas conhecem o Buraco do Lacerda, passagem de nível que liga a rua Bráulio Cordeiro à avenida D. Helder Câmara. Foi obra de Carlos Lacerda, na década de 1960, e os moradores do bairro não têm dúvida: o buraco é mesmo do então governador da Guanabara. Um tanto ou quanto assustador atravessá-lo, conforme foto recente, especialmente em dias de chuva.


Em São Paulo, um pouco antes, na década de 1950, no Vale do Anhangabaú, surgiu o Buraco do Adhemar, passagem sob a Av. São João que os paulistanos assim batizaram em homenagem ao prefeito da época: Adhemar de Barros. Ampliado na gestão da prefeita Luiza Erundina, década de 1990, o Buraco mudou de proprietário e tornou-se obviamente o Buraco da Erundina.


Conotações catastróficas


O Buraco da Marta é o túnel Rebouças, que deu trabalho para o prefeito Serra… que agora, como governador, também tem o seu buraco, um buraco infeliz, que atraiu o olhar da mídia nacional, não para cobrir festa de inauguração, mas constatar a tragédia. O Buraco do Serra, cartão-postal da cidade de São Paulo nestes últimos dias. Há quem prefira chamá-lo Buraco do Alckmin, ou até Buraco da Odebrecht.


Assumir um buraco dessas dimensões não é agradável. Vários jornalistas preferiram usar, na ausência de melhor sinônimo, ‘cratera’, dando conotações catastróficas ao acidente. ‘Buraco do metrô’ não tem dono, é mais um buraco negro no qual, com o tempo, tudo o que entra pouco rastro deixará na memória; é como buraco na camada de ozônio, pertence a todos e a ninguém.


Ninguém assume autoria


Buracos genéricos existem pelo Brasil afora. Há cidades em que encontramos o Buraco do Padre, o Buraco do Prefeito, mas o buraco que se abriu agora, na zona oeste da cidade de São Paulo, está pedindo um genitivo explícito, se possível com nome e sobrenome. Só faltaria alguém dizer que este é o Buraco da chuva…


Gilberto Kassab, antecipando-se ao governador Serra, encarou microfones e câmeras. No próprio dia 12 de janeiro, algumas horas depois do acidente, vimos o prefeito na TV, sem graça, explicar que a prefeitura não estava diretamente ligada ao caso, mas que se sentia na obrigação de prestar solidariedade ao cidadão paulistano.


No dia 15, na Rede TV, imagens do governador e do prefeito escapando da mídia e dos parentes das vítimas. Não querem assumir a autoria do Buraco.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br 

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/01/2007 Ivan Moraes

    Nao acredito que Perisse caiu por isso! A trilha sonora tem a funca de desestruturar os **seus** pensamentos, manipular os sentimentos da audiencia. Ja vi esse filme um milhao de vezes antes… Alias, programa de entrevista no Brasil tem trilha sonora como se fosse completamente normal! Essa baratissima manipulacao a respeito do desespero dos parentes durou quantos dias na tv brasileira, gente? Alguem realmente acha que os **bombeiros** tinha ordens de *esconder corpos* ou *tirar los de la* sem falar com o publico?!?! Ou de nao dar informacao aos parentes?!?! Gabriel, francamente, eu poderia ter vivido o resto da minha vida com muitissima satisfacao sem o ultimo paragrafo e sem esse link. Se a tv responsavel eh tao homem assim, que libere o video SEM TRILHA SONORA PRIMEIRO porque eles podem achar o resto do Brasil com cara de idiotas, mas eu nao sou.

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