Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNAL DE DEBATES > NÚMERO-NOTÍCIA

O enigma das pesquisas

Por Luciano Martins Costa em 23/04/2012 na edição 690

Comentário para o programa radiofônico do OI, 23/4/2012

 

A última pesquisa sobre avaliação do governo, publicada pela Folha de S.Paulo no domingo (22/4), cria a oportunidade para algumas reflexões interessantes sobre a reputação da imprensa tradicional.

Reputação, aqui, quer significar a convergência entre a maneira como uma instituição pretende ser vista, seus atributos reais e o modo como é realmente percebida. Esta análise, que a circunstância torna obrigatoriamente ligeira, leva em conta, principalmente, a intenção da imprensa de se apresentar como gatekeeper – ou guardiã da ética –, suas reais condições de ainda cumprir esse papel e o efeito real desses atributos sobre a sociedade.

Em primeiro lugar, é preciso convencionar que a questão da ética tem tomado espaço predominante no noticiário sobre política, enquanto na economia a temática mais frequente tem sido o desenvolvimento econômico do Brasil – questões pontuais da economia são quase sempre relacionadas a possíveis efeitos de uma crise externa no desempenho nacional.

Candidato preferido

Para se estabelecer um período específico de observação, tomamos a década, que coincide com a eleição do ex-presidente Lula da Silva para seu primeiro mandato. Em seus dois primeiros anos de governo, o noticiário político se concentrava na formação das alianças de governo, e o jornalismo econômico criticava a escolha estratégica de buscar o desenvolvimento com base em políticas sociais de distribuição de renda.

A partir de 2005, com os primeiros resultados positivos que superaram a curta instabilidade iniciada em 1999, o interesse dos jornais se concentrou nas denúncias que acabaram sendo unificadas sob a denominação de “mensalão”. Desde então, e até os dias de hoje, não há tema mais recorrente na mídia do que os escândalos de corrupção.

Essa é, portanto, a base de valores sobre a qual a imprensa pretende montar sua reputação: ela teria como atributo essencial marcar o território da ética e denunciar seus desvios. Nesse contexto, se a reputação da imprensa fosse o que ela imagina ser, ou seja, se a sociedade visse a imprensa como ela pensa que é, não apenas o ex-presidente Lula da Silva como sua sucessora, a presidente Dilma Rousseff, deveriam estar amargando pesados índices de rejeição.

Mas o que dizem as pesquisas publicadas pela Folha de S.Paulo? Exatamente o contrário, ou seja: a sociedade brasileira aprova o governo de Dilma Rousseff, que bate novo recorde positivo com 64% de avaliações como “ótimo” ou “bom”, e apenas 5% dos consultados afirmando que seu governo é “péssimo”.

Numa extensão da consulta, o instituto Datafolha quis saber qual seria o candidato preferido para a eleição presidencial de 2014 e o resultado foi que Lula da Silva é o predileto, com 57% do total, contra 32% que prefeririam um novo mandato da atual presidente. Numa hipotética disputa com o oposicionista José Serra, Dilma seria eleita com quase 70% dos votos num segundo turno.

Reputação em xeque 

O que afirmam as pesquisas anteriores e referenda esta consulta mais recente é que, apesar de aparecer na imprensa vinculado a escândalos de corrupção, Lula terminou seu mandato coberto com altíssima popularidade. E apesar de ser citado no noticiário, ultimamente, na condição de paciente de câncer – ou seja, inabilitado para o poder – ou apontado como apadrinhador de corruptos, Lula segue sendo o preferido entre os possíveis candidatos à Presidência da República na próxima sucessão.

Quais seriam as causas dessa aparente incongruência? Se a imprensa, supostamente ungida guardiã da ética, condena um personagem e a sociedade o elege e reelege, onde estaria o equívoco? Agregue-se a esta análise o fato de que, até mesmo nos episódios em que a atual presidente promoveu demissões em seu governo, o noticiário tinha o propósito de demonizar seu antecessor.

É certo que as denúncias seletivas dos jornais e a revelação de que acusadores também podem acabar no banco dos réis, reduzem o impacto das denúncias. Também haverá aqueles que dirão que o povo não sabe escolher, que o problema é a carência de educação cívica. Mas o fato é que a popularidade de Lula parece sobreviver a qualquer coisa que a imprensa publique sobre ele.

Talvez, então, a questão seja completamente outra. Ou o discurso da imprensa nada tem a ver com ética, verdadeiramente, ou a reputação da imprensa tradicional, como instituição, já não guarda relação direta com seus atributos reais e com o papel que ela imagina cumprir.

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