Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > LULA, SARNEY, SERRA

O espelho no banco dos réus

Por Alberto Dines em 28/03/2010 na edição 582

O presidente Lula tem sido o mais assíduo e exaltado crítico da imprensa. Na condição de Grande Narrador (um dos novos atributos dos chefes de Estado na Era da Informação), sente-se permanentemente desafiado a desqualificar os demais narradores para impor a sua versão dos fatos. Compreensível. E perigoso: um crítico contundente incomoda, mas é inofensivo. Já um crítico contundente e poderoso torna-se ameaçador. Mesmo involuntariamente.


A última intervenção presidencial na seara da mídia na quarta-feira (24/3), em Brasília, soou como intimidação. Ao avaliar o trabalho da imprensa como fruto de ‘má-fé’, o presidente da República deixa de ser um observador privilegiado e supremo magistrado para converter-se em litigante. Jamais se permitiu denunciar em termos tão candentes o trabalho do Judiciário, Legislativo ou do Ministério Público como o fez agora com o chamado Quarto Poder.


Qual a justificativa para a furibunda agressão – a mídia estaria obsessivamente privatista, obediente à Opus Dei ou muito tucana? Menos: para o presidente, a mídia insiste em ignorar as ‘coisas boas’ (duas mil casas inauguradas), preferindo destacar um casebre que desaba. E revelou a sua estratégia: ‘Se você se acovardar, eles [jornais e jornalistas] vêm para cima…’ Só as pesquisas de opinião reproduzem a verdade, completou.


Azedume presidencial


Amigos e assessores do presidente minimizam tais acessos de cólera contra a imprensa. É possível que seja mais um truque do grande prestidigitador, mas como o presidente se mostra tão preocupado com o que escreverão os historiadores no futuro ao compulsar os jornais de hoje, deveria pensar duas vezes antes de desancá-los. Sua popularidade hoje é espetacular, mas a sua imagem em 2030 será a definitiva.


Mais velho e teoricamente mais escolado, o chefe do Poder Legislativo, o senador José Sarney, cavalga no mesmo trote: cada vez que a imprensa escancara outra trapalhada financeira de Fernando Sarney, gestor do clã, solta o verbo contra a imprensa. No mesmo dia em que a Folha de S.Paulo – jornal que acolhe as suas baboseiras semanais – revelou que o governo suíço bloqueou uma conta de 13 milhões de dólares remetidos ilegalmente por seu filho, o senador atacou a imprensa acusando-a de pretender substituir-se ao Legislativo na condição de ‘porta-voz da opinião pública’.


Confundiu tudo: o Congresso não é porta-voz de ninguém, é o representante da sociedade. E a imprensa cuida de fiscalizar estes representantes para que não metam a mão no erário. Uma coisa é certa: quando José Sarney põe-se a teorizar sobre a mídia é sinal de que a imprensa desvendou mais uma de suas trapalhadas.


O governador José Serra fez a opção pela discrição: bom enxadrista, montou uma estratégia visando a evitar desgastes desnecessários. Procura o caminho da urbanidade, aparece muito à vontade ao lado do presidente Lula e da sua futura rival, Dilma Rousseff, quando inauguram obras em São Paulo. É possível que por delicadeza ou solidariedade tenha aderido ao azedume presidencial contra a mídia. Designou-a como ‘leviana’ por informar que inaugurou obra inacabada quando, na verdade, teria inaugurado uma ‘obra prontinha’.


Corporação indiferenciada


Jornais podem ser levianos, jornalistas podem ser acusados de leviandade, mas se a imprensa é apresentada genericamente como leviana em quem deverá o eleitor acreditar – na propaganda oficial? Uma pesquisa de opinião solta, descontextualizada, sem o contrapeso de informações, vale tanto quanto um anúncio de pasta dental.


Este é o ponto: o ressentimento indiscriminado e indistinto contra os meios de comunicação deixa a sociedade órfã de referências. A mídia erra, sobretudo quando se assume como corporação monolítica, indiferenciada. Parece um espelho inconfiável. Virá-lo para a parede é a pior solução.


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/04/2010 Wilson Lima dos Santos

    Interessante como voces não suporta criticas, são intocaveis, apesar de ter sempre a ultima palavra, tercerem criticas até sem funadamentos, e ainda se sente incomodados por criticas, e se setem ameaçados. Agem como a mais alta corte estao acima de qualquer coisa ou pessoa e poder. Espero que voces algum dia estendam essa liberdade de espressaõ a todos os humanos.

  2. Comentou em 30/03/2010 Fábio Diaféria

    Sim, a tática do PSDB é bem outra: é nomear o Instituto do Câncer e a Ponte Estaiada de Octávio Frias de Oliveira e a Unesp e outra ponte na outra marginal de Julio de Mesquita. Dessa forma fica tudo certo com a grande mídia impressa…
    Enquanto isso não se ouve mais nada sobre enchentes, crateras, professores, etc…

  3. Comentou em 29/03/2010 Francisco Silva

    ‘E a imprensa cuida de fiscalizar estes representantes para que não metam a mão no erário’, mas quando é a imprensa que ‘mete a mão no erário’ o que fazer??? Parlamento não é opinião pública e nem a opinião publica e propriedade da imprensa.

  4. Comentou em 29/03/2010 Raimundo Portela

    Sr. Dines não chamaria a imprensa de leviana, mas de prepotente, respeitando as raras excessões. Você fica ziguizagueando nas suas opiniões e aí está a diferença estre a imprensa que imaginamos e deveriámos ter, com noticias e opiniões elucidativas. Vejamos se não é assim, parte da mídia tenta substiruir a opinião pública, a justiça, o parlamento e o estado brasileiro. Quando na verdade deveria se posicionar na busca da elucidação da noticia, das fontes verdadeiras e não no julgamento factual.
    Com absoluta convicção não acredito na grande imprensa e em seus jornalões, como você bem diz, procuro me balizar na imprensa alternativa, nas opiniões pontuais de pros e contra.
    A grande imprensa, joga seus jornais e revistas com 70% de propaganda embutida e o que sobra de papel mete noticiários sem conteúdo, de forma duvidosa, inconclusa, rebuscada e requentada, é isso que recebemos no dia a dia.
    Não concordo com a opinião do Zé Pedágio e nem do Presidente Luis Ignácio LULA da Silva.

  5. Comentou em 29/03/2010 Ricardo Oliveira

    Não existe nenhum segmento da sociedade que seja imune as críticas. A imprensa não gosta de críticas, entretanto terá que aprender a conviver na nova realidade. A imprensa, no Brasil, atualmente, em sua maioria, é partidarizada. Em bloco, movimenta-se para viabilizar seu projeto político. Pouco se importando com a credibilidade dos fatos. Em sua empreitada cega na tarefa de fiscalizar a aplicação do erário mais se assemalha a conversa de otário. Lula agiu bem. Esperamos que critique a mídia mais vezes. Se possível com mais veemência.

  6. Comentou em 28/03/2010 Alexandre Castro Junqueira

    Entendo este ponto de vista. Mas chegamos, justamente, ao ponto em que esta tocando. ESTAMOS ORFÃOS DE REFERÊNCIA.
    Me sinto altamente agredido todos os dias quando leio noticias da Folha, Estadão, Veja. E encontro em blogs, e outros instrumentos da internet um alento ao meu desanimo.
    Lula é presidente e é de carne e osso como eu. Entendo sua responsabilidade e cuidado que deve ter com o que fala.
    Mas não vejo que proferiu inverdades.
    A cada dia que se passa tenho mais desrespeito pela mídia.
    É fácil falar quando não se tem o salário que tenho e as condições de trabalho em que vivo.
    Já somos órfãos e a única entidade que está cuidando de nós é a internet.
    Obrigado pela atenção e por seu trabalho.
    Alexandre

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