Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNAL DE DEBATES > MORTE EM TEMPO REAL

O espetáculo da vida e da morte

Por Carla Montuori em 09/01/2007 na edição 415

‘O homem separado de seu produto produz, cada vez mais e com mais força, todos os detalhes de seu mundo. Assim, vê-se cada vez mais separado de seu mundo. Quanto mais sua vida se torna seu produto, tanto mais ele se separa da vida.’ (Debray: 1997: 25)

Escatológico e espetacular. Essas palavras não são suficientes para definir o cenário pós-execução construído em torno da morte do ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein.

Essa narrativa real, mas que foi desenvolvida com o ar de suspense dos filmes de Hollywood, com uma dose absoluta da perversidade invasiva dos Big Brothers e com o sabor de vingança dos filmes de justiceiros, ficou aquém do que vem se transformando o mercado criado pela morte do ex-ditador.

Sem adentrar nas questões religiosas e, sobretudo, nas dimensões político-econômicas que ocuparam grande parte desse enredo, atento a uma reflexão sobre como o capital, no sentido do mercado, se comportou diante do fato.

Irônica e sarcástica, pode-se assim destacar a presença marcante dos empreendedores do império norte-americano que, em uma fração de segundos, lançaram bonecos para ganhar dinheiro com o enforcamento do ex-presidente iraquiano. Por apenas 24,95 dólares, a Herobuilderes, uma empresa especializada em fabricar bonecos de pessoas conhecidas, vende Saddam com a corda no pescoço, vestindo uma camisa branca com a frase ‘Idiota na forca’.

No Oriente Médio, um empresário kuaitiano mostrou-se disposto a pagar qualquer valor pela corda que enforcou Saddam. Tal objeto, comercializado como raridade, possivelmente será exibido como uma preciosidade no país.

Ilusão de justiça

Nesse contexto, não se pode ignorar a canção sobre a execução de Saddam, apresentada por um dos cantores mais populares do Egito. Abderrahim Chaban (conhecido como Chabula) criou uma letra que aborda de forma sutil o processo de condenação e julgamento de Saddam, fazendo uma alusão a roteiro de cinema.

A cena mais grotesca, entretanto, está relacionada à divulgação pela mídia do vídeo amador contendo detalhes do enforcamento de Saddam. Como acontece sempre, a mídia perseguiu a melhor imagem, a mais impactante, e fez da morte do ex-ditador um espetáculo, com possibilidade de ganhos extraordinários.

Assim, independentemente de ser justo ou injusto, o processo de execução de Saddam incorreu numa carga pesada de desrespeito aos indivíduos. Isso porque destacou, de forma precisa, a supremacia do capital sobre a vida e sobre a morte. Aqui, vê-se instalado o processo de reificação, caracterizado por Marx como a desumanização do homem e a sua elevação a ‘coisa’.

Nesse sentido, cabe perguntar se a justiça, como proclamaram alguns povos, não foi uma ilusão, um espetáculo circense no qual quem deu e dá a melhor risada ainda é o capital?

Difícil responder, uma vez que o universo orientado pelo capital quase não deixa brechas para reflexões. Assim, visualizo apenas uma das frases mais brilhantes de Marx para encerrar: ‘O capital não tem pátria’.

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Doutoranda do curso de Ciências Sociais (PUC/SP) e mestre em Comunicação (Universidade Paulista)

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