Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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O espetáculo da violência

Por Lilia Diniz em 19/04/2012 na edição 690

 

Nascido no Brasil no início do século passado e aprimorado por brasileiros fora do país nas últimas décadas, o Mixed Martial Arts (MMA) é uma história curta de enorme sucesso. O primeiro torneio de grande porte, o Ultimate Fighting Championship (UFC), foi realizado em 1993 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil cinco anos depois. Até então, o esporte estava restrito aos amantes das artes marciais e a propaganda limitava-se ao boca a boca. Em 2005, foi dado o primeiro passo para a popularização do esporte com a estreia nos Estados Unidos do reality show The Ultimate Fighter (TUF).

O MMA começou a conquistar espaço na mídia internacional e nomes como Anderson Silva, Júnior “Cigano” dos Santos e Vitor Belfort ganharam status de ídolos da juventude. O fenômeno chegou com força ao Brasil em 2011, quando a Rede TV! bateu todos os seus recordes de audiência com a exibição do UFC ao vivo. Depois desta bem sucedida experiência e com a possibilidade de realização do torneio no Rio de Janeiro, a TV Globo comprou os direitos de transmissão e começou a investir massivamente na popularização do MMA.

Lutadores passaram participar de diversos programas da grade da emissora, que agora exibe o reality show The Ultimate Fighter Brasil. O antigo vale-tudo, que chegou a ser proibido no então estado da Guanabara, em 1962, profissionalizou-se e virou esporte para a família. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (17/4) discutiu a superexposição na mídia brasileira desse polêmico esporte.

Alberto Dines recebeu no estúdio de São Paulo o jornalista José Trajano. Comentarista e consultor da ESPN, Trajano é um dos fundadores do canal. Trabalhou no Jornal do Brasil, na IstoÉ, na Folha de S.Paulo, na Bandeirantes e TV Cultura. No Rio de Janeiro, o programa contou com as presenças dos jornalistas Roberto Assaf e Luciano Andrade. Assaf é colunista do jornal Lance! e professor de Jornalismo da Faculdade Hélio Alonso. Começou a carreira no Jornal dos Sports, foi editor do Jornal do Brasil, da Tribuna da Imprensa, da ESPN Brasil e da Sportv. Luciano Andrade é comentarista de eventos de MMA dos canais Sportv e Combate, da Globosat. Dedicou a maior parte da sua carreira à cobertura de lutas, sobretudo MMA. Foi roteirista do programa Lendas do UFC, que está sendo exibido no canal a cabo Multishow.

A indústria do esporte

No editorial exibido antes do debate ao vivo, Dines questionou se o MMA pode ser considerado um esporte ou é apenas uma encenação violenta em busca de audiência na TV. “Depois que a Rede Globo comprou os direitos de exibição desta modalidade, o resto da mídia foi na onda e lançou-se na conquista das sobras”, criticou o jornalista. Na avaliação de Dines, está sendo fabricado um modismo calcado em uma “intensa e engenhosa” exposição na TV. Dines defendeu a regulação da exibição do MMA e explicou que a Constituição federal assegura que cabe ao poder público o papel de indicar as faixas etárias adequadas para a exibição de eventos na televisão aberta.

A reportagem exibida antes do debate no estúdio mostrou argumentos contrários e favoráveis à transmissão do MMA. O professor de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e escritor Muniz Sodré, praticante de artes marciais, explicou que quando o MMA surgiu não havia limites, mas, com o tempo, a modalidade passou a ter regras claras. “Você vê dois sujeitos enormes, terríveis, se agredirem e depois se abraçarem. Um ajuda o outro a levantar, toca a mão. Então, é um jogo. É um jogo duro, mas é um jogo”, defendeu o professor.

Na avaliação de Sodré, o futebol americano e hóquei são mais agressivos do que o MMA e não há questionamento sobre a exibição desses esportes na televisão. “Não é mais violento do que você ver na televisão, e eu não vou dizer qual televisão, alguém lhe dizer que se você der dez reais, tem dez favores de Deus. Se você der quinze, tem quinze favores. Isto é mais daninho à consciência do que o soco que se troca no MMA”, ponderou Sodré.

O poder da escolha

A jornalista Paula Sack, repórter do UFC no Brasil, explicou que o MMA tem regras, arbitragem e comissão atlética, e por isso deve ser considerado um esporte: “Não é uma selvageria como muitas pessoas pensam ou defendem. E eu realmente não entendo o porquê disso. É um esporte de combate, é um esporte de contato”. Para a jornalista, é preciso dissociar a imagem do MMA da ideia de violência porque não há covardia entre os atletas. Paula defendeu a liberdade de escolha: “Não existe nada mais democrático no mundo do que um controle remoto. Se você não está satisfeito, se você está se sentido mal ou incomodado e de alguma forma agredido, você muda de canal”.

Para Ancelmo Gois, colunista do jornal O Globo e apresentar do programa De Lá Pra Cá, da TV Brasil, a mídia está apenas refletindo o interesse parte da população com o MMA. “Não é esporte. É uma briga de galo, é uma rinha, é uma barbárie. É uma briga de rua como, outro dia, definiu o ex-lutador Maguila. Eu vejo com grande preocupação. Eu não consigo entender o encanto que desperta em milhões e milhões de pessoas no planeta inteiro”, disse o colunista. Ancelmo acredita que lutas como o MMA são uma péssima escola para os jovens: “O ser humano ainda traz dentro de si um componente de violência, de ódio, de raiva muito grande. E essas lutas, de alguma maneira, extravasam esse sentimento”.

A psicanalista Ana Olmos criticou o fato de o MMA estar presente até nas novelas da TV Globo. “Do ponto de vista do funcionamento mental do sujeito que assiste, essa luta responde a uma demanda, que é a dificuldade de ele poder exercer sua agressividade e assistir a essa agressividade em um outro: o tapa que queria dar nas pessoas que estão te atrapalhando e o submetendo no trabalho. ‘Bate no rosto, dá uma joelhada ali’. Ele vai vivendo tudo ali, aquele monte de tapa. Não consigo falar que isso é um esporte”, avaliou a psicanalista.

Hora de articulação

Mauricio Stycer, comentarista de televisão, discorda de que o interesse pelo MMA esteja sendo forjado pela mídia por meio da superexposição do tema. “Eu não acredito que exista demanda inventada por nada. Eu acho que você até pode forçar a barra por um determinado assunto na televisão, mostrar muito um determinado assunto pode eventualmente seduzir uma parcela do público, mas não cola por muito tempo. É um negócio e ninguém quer perder dinheiro”, disse Stycer.

O diretor de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça, Davi Pires, explicou que o UFC, assim como todos os eventos esportivos, é visto pela legislação como uma exceção, e por isso não passa pela avaliação para definição de horário: “Na medida em que esta preocupação tomar vulto, evidentemente o Ministério da Justiça deve estar preparado para absorvê-la na sua portaria. É possível que isto aconteça. É necessária mais mobilização social neste sentido. Agora, sobretudo, eu saliento que sempre o que passa na TV, como em qualquer outro veículo, é efetivamente algo que pode ser usado positivamente ou negativamente. Eu acho que depende dos pais. É aos pais que cabe a educação dos filhos. Mas, como diz a nossa Constituição, não é só uma responsabilidade dos pais. É uma responsabilidade dos pais, das famílias, da sociedade e efetivamente, também do Estado”, argumentou Pires.

MMA é esporte?

No debate ao vivo, Dines perguntou como José Trajano vê a criação artificial deste grande negócio internacional. O jornalista lembrou que durante os 17 anos em que dirigiu os três canais da ESPN no Brasil jamais permitiu a exibição de lutas de MMA. “Nós podemos andar na contramão da história. Nós temos que criar alternativas de programação. Por que todos têm que fazer a mesma coisa? No espaço do UFC, do MMA, nós criamos documentários”, disse Trajano. Para o comentarista, este é um assunto delicado: “Eu entendo quem é a favor. Eu sou contra, acho um esporte nojento, se é que dá para considerar um esporte”.

“É uma imposição goela baixo para a sociedade brasileira. A imprensa está indo atrás porque gosta do que dá ibope. Eu não comungo disso. Não é porque a Globo deu, está na novela, que eu sou obrigado a gostar ou, como profissional, seguir”, disse o jornalista. Trajano criticou a forte presença do MMA na programação da TV Globo: “Não é só a transmissão da luta. É o reality show, é a cobertura jornalística”. Para Trajano, há uma exposição desenfreada dos lutadores na mídia. O exemplo mais visível é o atleta Anderson Silva, que foi capa da revista Veja a apareceu em diversos comerciais e programas de televisão.

Luciano Andrade considerou em equívoco do ponto de vista empresarial a proibição da exibição de lutas de MMA decretada por Trajano na ESPN porque o esporte é rentável, popular no mundo inteiro e está crescendo. Dines discordou de Luciano e ponderou que é dever dos jornalistas emitir a sua opinião mesmo que esta contrarie os interesses da instituição à qual está vinculado. Luciano assegurou que o MMA pode ser enquadrado como esporte: “Respeito que ele não goste, respeito que ele ache nojento, mas é esporte, sim. Se você pegar qualquer dicionário de língua portuguesa para ler a definição você vai ver que a prática do MMA se enquadra nas definições que ali estão”.

O comentarista explicou que o MMA é uma mistura de lutas, por isso tem golpes de modalidades violentas como muay tai e boxe e também de ju-jitsu, judô e luta livre esportiva, consideradas mais leves. “O cara que acha que o MMA é mais violento que boxe é leigo”, advertiu. Luciano Andrade lamentou que grandes estrelas do boxe, como Eder Jofre e Maguila estejam “falando besteira” sobre o MMA por falta de conhecimento, em referência a declarações recentes desses dois atletas criticando a modalidade.

A dona da moda

Para Roberto Assaf – que não gosta de MMA mas o considera como um esporte – é importante refletir sobre como esta luta que está crescendo “assustadoramente” alcançou uma visibilidade “gigantesca” na mídia: “Para mim, fica muito claro que isso começa a partir do momento que a TV Globo entra na jogada. Enquanto estava restrito [aos canais por cabo] Premiere e ao próprio Sportv, ainda não tinha alcançado essa exposição fantástica”, lembrou Assaf. O jornalista afirmou que a imprensa, de uma maneira geral, acaba sendo praticamente obrigada a seguir assuntos que a TV Globo expõe excessivamente: “Lembro de algumas ocasiões em que editei o caderno de Esportes do Jornal do Brasil, principalmente nos fins de semana, e eu era quase que obrigado a noticiar algo que a TV Globo havia mostrado, por exemplo, no Esporte Espetacular no domingo de manhã. Na edição de segunda-feira, eu às vezes era cobrado pelos editores do jornal”, contou Assaf.

Um exemplo citado por Assaf foram os campeonatos de beach soccer exaltados pela TV Globo. “A gente pode seguir outros caminhos, mas nem sempre temos esse direito”, lamentou Assaf. A TV Globo, de acordo com Assaf, sempre teve a preocupação de procurar um filão que pudesse ser inesgotável para manter os níveis de audiência.

Os convidados do programa discutiram a necessidade de regulamentação da exibição das lutas de MMA. Para José Trajano, proibir a transmissão seria um ato arbitrário, mas é importante que a sociedade se organize para reivindicar a limitação dos horários de exibição da “pancadaria”. Luciano Andrade sublinhou que a influência da agressividade das lutas no cotidiano dos jovens é uma questão do grau de educação oferecido pela família e pela escola. “Falta lei infraconstitucional para regulamentar o que está no artigo 220 [da Constituição] mas, por outro lado, censura é um absurdo”, disse o jornalista. Roberto Assaf também é a favor da regulamentação e defendeu o direito de livre escolha do cidadão.

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[Lilia Diniz é jornalista]

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